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100 anos da Revolução Russa – parte 9: Outubro e o novo poder soviético

25 de outubro de 2017
novembro-8

Com ampla maioria no Congresso dos Sovietes, bolcheviques organizam a insurreição e a tomada do Palácio de Inverno

O mês de setembro foi marcado por uma maré bolchevique nos sovietes de toda a Rússia, acompanhada por um recrudescimento de revoltas camponesas.

Essa maré se dava ao mesmo tempo que surgiam novos sovietes – chegando a 900 que representavam 25 milhões de pessoas em outubro – especialmente no campo e entre as nacionalidades oprimidas (o Império Russo contava com 90 milhões de “alógenos”, com os russos sendo 43% da população). Nos dois casos, os sovietes já “nasciam” bolcheviques, dado o desencanto com a política dos socialistas conciliadores sobre as questões da terra e do direito à autodeterminação das nações oprimidas.

O mês decisivo da revolução iniciou-se com o abandono do pré-parlamento por parte dos 66 deputados bolcheviques (de um total de 402) em 7 de outubro, atendendo aos apelos de Lenin e Trotsky, que num primeiro momento tinham ficado em minoria no partido, para boicotá-lo.

Esta saída indicava como única via a preparação da insurreição em nome dos sovietes e contra o que restava do governo provisório ao redor de Kerensky.

Era o que Lênin, que volta de seu refúgio finlandês à Petrogrado em 10 de outubro, agitava desde setembro no seu texto “A catástrofe iminente e os meios de conjurá-la”.

Um organismo soviético específico foi criado em 9 de outubro, o Comitê Militar Revolucionário, para defender a capital contra uma ofensiva dos alemães iniciada no dia 6. Tal Comitê, dirigido por León Trotsky, virá a ser o organizador prático da insurreição.

Para os bolcheviques, convencidos por Lênin da urgência da insurreição (contra os votos de Kamenev e Zinoviev), ela deveria ocorrer em paralelo à instalação do 2º Congresso Pan Russo dos Sovietes em 25 de outubro, o qual iria registrar uma ampla maioria identificada com eles (entre 70 e 75% dos seus 670 delegados).

A noite da insurreição
Na noite de 24 para 25 de outubro – de 6 a 7 de novembro no calendário atual – os guardas vermelhos, atendendo ao Comitê Militar Revolucionário, ocupam e tomam sem resistência as pontes, estações ferroviárias, o banco central, o correio, a central telefônica, deixando isolado o Palácio de Inverno, sede do governo provisório.

Os insurrectos lançam um ultimato aos “junkers”, alunos de escolas militares que guarneciam o Palácio, enquanto Kerensky fugia dentro de um carro da embaixada dos Estados Unidos!

O Palácio é totalmente cercado e unidades militares revolucionárias não paravam de chegar na noite de 25 de outubro. O encouraçado Aurora, cujos marinheiros haviam se juntado à revolução há muito, inicia um bombardeio (com tiros de festim) como sinal para o assalto final.

Às 2 horas da madrugada, em nome do Comitê Militar Revolucionário, Antonov-Ovseenko (bolchevique fuzilado por Stálin em 1938) entra na sala dos ministros aterrorizados e os declara prisioneiros. Não houve baixas ou mortos na tomada do Palácio de Inverno.

O congresso do novo poder soviético
Ao instalar-se o 2º Congresso dos Sovietes no Palácio Smolny no dia 25, já não existia o governo provisório. O que provocou protestos dos conciliadores (a ala direita dos mencheviques e socialistas revolucionários, SRs), agora minoritários, que foram os primeiros a abandonar o congresso.

Martov, líder dos mencheviques internacionalistas, atacou a ação dos bolcheviques como um complô não autorizado pelo congresso dos sovietes, propondo um acordo com todos os partidos socialistas.

Trotsky o respondeu: “O que aconteceu foi uma insurreição e não um complô. O levante das massas populares não necessita de justificativas…Nossa insurreição venceu e agora apresentam-nos uma proposta: renunciai a vossa vitória, concluí um acordo. Com quem? Eu pergunto, com quem devemos concluir um acordo? Com os miseráveis grupinhos que saíram daqui? Não há mais ninguém na Rússia atrás deles! ”.

Martov e seu grupo abandonam o congresso que prossegue, até que o bolchevique Lunacharsky lê em voz alta um apelo aos operários, camponeses e soldados: “Os plenos poderes do Comitê Executivo Central conciliador expiraram. O Governo Provisório foi deposto. O Congresso toma o poder em suas mãos…O Congresso decide que todo o poder, em todas as localidades, será transmitido aos sovietes. ”¹

No mesmo apelo são anunciadas as medidas que no dia 26 serão votadas e adotadas pelo novo poder: o governo soviético proporá a paz imediata, entregará a terra aos camponeses, dará ao exército um estatuto democrático, estabelecerá o controle da produção, convocará oportunamente a Assembleia Constituinte, assegurará às nações da Rússia o direito à autodeterminação.

No dia 26 se adotam essas primeiras resoluções, o congresso é considerado regular por ampla maioria (com cerca de 150 votos contrários, na maioria de SRs de esquerda) e elege o Soviete dos Comissários do Povo, o novo governo dirigido por Lênin, e um Comitê Executivo Central de 101 membros: 62 bolcheviques e 29 socialistas revolucionários (SR) de esquerda, que depois será completado com representantes dos sovietes de camponeses e de soldados, cabendo às frações que abandonaram o Congresso o direito de enviar delegados ao Comitê Executivo na base de sua representação proporcional.

A ordem do dia do Congresso foi cumprida e o poder dos sovietes é criado por um congresso democrático que nas palavras do seu presidente, Lev Kamenev, “é o órgão supremo das massas operárias e de soldados”.

No capítulo “Conclusão” de sua História da Revolução Russa, escrita já num momento de contrarrevolução stalinista triunfante (1930), Léon Trotsky antecipa algo que continua de enorme atualidade:

“A Revolução de Outubro lançou as bases de uma nova cultura, concebida para servir a todos, e foi por isso mesmo que assumiu, imediatamente, importância internacional. Mesmo que, sob o efeito de circunstâncias desfavoráveis e sob os golpes do inimigo, o regime soviético – admitamo-lo por um minuto – fosse provisoriamente derrubado, a marca indelével da insurreição de Outubro permaneceria de qualquer maneira em qualquer evolução posterior da humanidade”.

E esta marca efetivamente permanece, apesar das décadas de stalinismo e do próprio desaparecimento formal da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991. É do que trataremos na última parte desta série dedicada aos 100 anos da Revolução Russa.

Julio Turra

Notas
1. Anatóli Lunacharsky, bolchevique desde 1903, foi Comissário do Povo para a Educação depois da revolução de 1917, morreu em 1933 a caminho da Espanha para onde fora designado embaixador. A citação é extraída da “História da Revolução Russa”, L. Trotsky, Volume 3, capitulo 10.



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