A Argélia depois da eleição presidencial

Resultados expressam um “voto de refúgio”, na avaliação de Louisa Hanoune

A eleição presidencial na Argélia de 17 de abril foi vencida pelo atual presidente, Abdelaziz Bouteflika, com mais de 80% dos votos numa situação em que quase metade do eleitorado se absteve.

Seu principal oponente, Ali Benflis, partidário da abertura do país às grandes potências e da liberalização da economia, atingiu 12%. Louisa Hanoune do Partido dos Trabalhadores (PT) da Argélia obteve 1,4% e ficou em quarto lugar.

Essa eleição ocorreu numa situação delicada. Quando o país sofre crescentes ameaças externas e internas. O imperialismo estadunidense multiplica pressões inclusive com a ameaça ao recurso militar, expressa no reforço das bases dos EUA em Moron (Espanha), preparada para intervir no norte da África, em particular na Argélia.

O objetivo é impor seus interesses e fazer retroceder qualquer manifestação por mais limitada que seja de soberania nacional.

De formas diferentes de acordo com cada situação nacional é o mesmo que foi visto na Líbia, na Síria e atualmente se vê na Venezuela e na Ucrânia.

Um dos alvos, no caso da Argélia, é a legislação que determina o limite de 49% na participação acionária de qualquer investidor estrangeiro mantendo-se pelo menos 51% das empresas em mãos argelinas.

Defesa da soberania nacional e da democracia

Louisa Hanoune do PT fez uma campanha baseada na defesa da soberania nacional e da democracia, apresentando a perspectiva de instauração de uma Segunda República tendo como base as reivindicações populares para devolver a palavra ao povo colocando fim ao regime de partido único.

Em entrevista coletiva, Louisa afirmou que o voto massivo em favor de Bouteflika pode ser explicado por essa ameaça imperialista de caos que levou o povo a optar pelo que entendeu ser o caminho da estabilidade. Um apanhado de matérias da imprensa argelina do dia 20 de abril mostra como repercutiu sua análise.

De acordo com o jornal “El Watan”,Louisa avaliou que “o voto em Bouteflika foi um ‘voto de refúgio’, pela preservação da estabilidade, da paz e da soberania nacional para evitar que a Argélia se perdesse no caos e na anarquia”. A publicação cita a candidata: “Não se pode negar que em relação às questões sociais a situação está à beira da explosão. Mas a maioria da população escolheu a precariedade em vez do caos. Ela não queria dar um salto no escuro, por isso priorizou a estabilidade”.

Pela antecipação das eleições legislativas

O jornal “Le Soir” destacou: “Obtendo o quarto lugar, a secretária-geral do PT não viu de forma alguma um recuo e afirmou ainda que a Argélia viveu uma eleição das mais regulares”.

Ao mesmo tempo, ressaltando que as atividades do PT não se limitam às eleições, “Hanoune não deixou de pedir a convocação antecipada de eleições legislativas qualificando as precedentes (de 2012) de terem sido manchadas pela fraude e uma fraca participação” (“L’Expression”).

Alta abstenção, sinal de alarme

A dirigente do PT chamou a atenção para a alta taxa de abstenção que atingiu quase metade dos eleitores: “A taxa de participação de 51% nas eleições presidenciais é julgada por Louisa Hanoune como uma taxa que traduz a credibilidade desse escrutínio.

Todavia, os 48% de abstenção constituem, segundo ela, um sinal de alarme, porque exprimiram uma desconfiança decorrente da falta de garantias”

(“L’Expression”).

Na coletiva de imprensa, ela falou sobre o combate do PT por uma Segunda República, em relação com a defesa das reivindicações dos trabalhadores.

Para Louisa, “o povo decidiu antes de tudo imunizar o país, evitando um banho de sangue. A mudança virá a seguir com a instauração de uma Segunda República que preconizará a ruptura com o sistema de partido único” (“Le Quotidien d’Oran”). Ela indicou nesse sentido que a edificação da Segunda República está ligada à manutenção da regra dos 51%/49%.

Correspondente

Artigo originalmente publicado na edição nº747 do jornal O Trabalho