A nova-velha linha da direção do PT

Markus Sokol presta contas da executiva do Partido

Na rejeição de algumas emendas (abaixo), a Comissão Executiva Nacional de 7 e 8 de fevereiro, operou um inédito retrocesso: uma simples reunião da CEN mudou orientações do 7º Congresso de novembro, ainda nem publicadas, mas a resolução da CEN já é pública!

O texto da CEN (no site do PT) tem passagens que refletem posições tradicionais, apoia a greve dos petroleiros e dialoga com algumas aspirações populares para “derrotar Bolsonaro”, como diz o título. Mas reescreve pontos centrais do 7º Congresso. Por questão de espaço me atenho a dois.

Silêncio sobre os governadores
Apresentei uma emenda aditiva ao texto, no espírito e na letra do 7º Congresso, que dizia:
“O PT precisa estar nas ruas e periferias, incentivando, mobilizando manifestações e movimentos que se contraponham à retirada de direitos e à entrega da nossa soberania. O PT combate a aplicação do brutal ajuste imposto por Bolsonaro-Guedes nas administrações estaduais e municipais. Por isso, critica os governadores do Piauí, do Ceará e da Bahia, que se submetem e acompanham a redução de direitos em consequência da reforma da Previdência. Os movimentos de luta popular em tantos países da América Latina – em especial hoje no Chile – são referências nessa caminhada”.

Mas a direção do PT não quis falar dos seus governadores. Estes, nem tentaram resistir à PEC 103 (reforma da Previdência) que induziu medidas reacionárias nos Estados. Eles poderiam contestá-las ou judicializá-las. Mas junto com Flavio Dino (PCdoB) saíram correndo após a aprovação da PEC para aplicá-la contra a resistência dos sindicatos da CUT. Enquanto isso, as bancadas do PT nos Estados governados pela direita (SP, RS, MG etc.) combatem essas reformas. As bancadas nestes Estados, e a militância em todo o país, ficaram desmoralizados na sua resistência.

O que remete à vergonhosa experiência do PS no Chile, acompanhada pelo PC, na “concertación” (conciliação) que conviveu com a reforma da Previdência de Pinochet. Ela levou a que na “explosão social” atual, estes partidos não posam nem mostrar a cara nas ruas. Ora, esta é a principal luta popular no continente e, não por acaso, o texto também não fala nada.

Na CEN, um ex-prefeito baiano não usou nem seus três minutos para defender o seu governador, cuja reforma seria “melhor” (não disse por que). Votaram com esta minha emenda apenas dois companheiros da DS e da AE. Um CNB se absteve declarando que a questão merecia mais discussão.

A direção manteve seu silêncio sobre os governadores. Pouco depois, foi constrangida pelas declarações do governador Rui Costa no caso Adriano, e ainda mais pelo equivocado pedido de Garantia de Lei e Ordem do governador Camilo Santana. E ainda não terminou!

O aliancismo
Apresentei como emenda o conteúdo literal do ponto 45 da Resolução do 7º Congresso:
“O PT deve ser protagonista nas eleições municipais de 2020, lançando candidaturas próprias onde for possível. O PT, que não nasceu para ser força de apoio, deve puxar uma frente democrática e anti-imperialista contra Bolsonaro e os golpistas. As alianças necessárias são programáticas, com base numa plataforma de governo que contemple as demandas mais imediatas do povo, ou seja, alianças anti-imperialistas, nos termos do 6º Congresso do PT, com partidos como PCdoB e PSOL, e também setores populares do PSB, PDT e outros. Não cabem alianças com partidos que dão sustentação ao programa de destruição da nação e dos direitos da classe trabalhadora. Não será ‘de esquerda’ nem ‘ampla’, uma frente que não trouxer as principais reivindicações do povo e a exigência de anulação dos processos de Lula”.

O miolo da diferença é que o texto da CEN trata em bloco o PSOL e o PCdoB igual ao PSB e PDT (não fala de “setores populares” do PSB e PDT). Quer aliar-se com direitistas golpistas destes partidos, que não defenderam Lula Livre e/ou apoiaram as medidas econômicas de Guedes. Busca, portanto, figuras como Márcio França (SP) e outros. A argumentação “coerente” da relatora do texto explicitou que “Lula não pode ser uma condição”!

Lembremos que a política de alianças do 6º Congresso (2017) foi abandonada na véspera das eleições de 2018 pela busca do “centro” e houve alianças pontuais à direita. Mas, agora, desde o começo de 2020, já se adotou a velha linha: autoriza-se os Diretórios

Regionais a ir além mesmo daqueles quatro partidos (PSOL, PCdoB, PDT e PSB). E ainda se introduziu uma ambígua distinção entre os neoliberais (DEM e PSDB) e o “veto” à extrema-direita.

A imprensa, então, anunciou que o PT vai compor com PSDB-DEM, o que não está escrito. A presidente Gleisi desmentiu. Mas depois recuou e admitiu tais alianças, que vários líderes defenderam na CEN. Ela explicou que à diferença da extrema-direita “PSDB e DEM não são uma ameaça à democracia”. Mas quem, então, deu o golpe do impeachment?

Esta minha emenda – o ponto 45 do 7º Congresso – obteve mais um voto de um companheiro do CNB e foi recusada. Os demais da CEN se entenderam com algumas emendas secundárias, na minha opinião, bastante secundárias.

Ilusão e desarme
Nos últimos meses, prevalecia no discurso de Lula e do PT o lançamento de candidaturas próprias aonde for possível. Isso mudou nesta CEN que fala de “participar” aonde for possível, o que é bem diferente!

A postura anterior era combativa, mas incompleta. Tendo rejeitado lutar pelo Fim do Governo Bolsonaro no 7º Congresso, a direção entrou pelo caminho de esperar as eleições presidenciais de 2022. Pouco depois, o voto da bancada junto com a direita no “pacote anticrime” já mostrou uma política de “redução de danos”. Nesta CEN, a linha de “esperar 22” avançou mais, como se fosse possível “ganhar tempo” até lá e evitar o choque com Bolsonaro e Guedes que militarizam o país, como se Maia e outros ex-bolsonaristas da véspera fossem aliados etc. Uma ilusão e um desarme!

Havia muita energia entre os 5 mil petistas que acorreram ao Festival 40 Anos no Rio, inclusive muitos petroleiros em greve. Mas ela contrasta fortemente com as decisões melancólicas da CEN simultânea, que revisou o 7º Congresso.

O PT completou 40 anos, apesar das perseguições das instituições do sistema. Ele tem condições para empolgar a resistência nas eleições municipais. Mas para isso tem que falar claro o que o povo precisa e não se desacreditar.

Uma coisa é realizar amplas frentes pontuais por questões concretas – como a unidade para enquadrar Bolsonaro por crime de responsabilidade, por exemplo -, outra coisa é juntar-se em alianças eleitorais sem programa, para governar com os políticos ex-bolsonaristas de ontem.

Também não é realista, apenas fazer críticas e esperar o governo cair no colo em 2022. Isso é subestimar o inimigo poderoso, que pode não esperar 22, é muito perigoso.
O PT está frente ao maior desafio de sua história: já não há espaço para conciliação possível, e para um partido como o PT só há o terreno da mobilização popular sem trégua contra o sistema.