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“Abaixo os dez ministros capitalistas” ganha adesão das massas – parte 5

4 de julho de 2017
lenin-pbolchevique]

O 1º Congresso dos Sovietes de toda a Rússia se reúne em junho com maioria conciliadora

Logo após a formação do segundo governo provisório (Leia artigo parte 4), reuniu-se, entre 3 e 24 de junho (1), o 1º Congresso dos Sovietes de toda a Rússia (“panrusso”).

São 777 delegados de 305 sovietes locais, 53 regionais, de organizações militares do “front” e retaguarda e de organizações de camponeses, representando cerca de 20 milhões de homens e mulheres. Uma força concreta que pesava sobre todo o desenvolvimento da situação.

Desses delegados, 285 são Socialistas Revolucionários (SR), 248 mencheviques e os bolcheviques são minoria, com apenas 105. Logo, a grande maioria (68%) era ligada a partidos que tinham ministros no governo provisório de coalizão com a burguesia.

Assim, no início de seus trabalhos, o Congresso dos Sovietes chegou a recusar uma resolução dos bolcheviques a favor da jornada de 8 horas.

Em 9 de junho, o Congresso é impactado pela convocação de uma manifestação pelos bolcheviques em Petrogrado no dia 10, para exigir melhorias nas condições de trabalho, as quais, desde a revolução de fevereiro, em nada haviam mudado.

A iniciativa tinha sido tomada pela organização militar do partido, refletindo o mal-estar existente nas tropas com as declarações guerreiras do governo. Ela foi apoiada pelo Soviete central dos comitês de fábrica, que reunia a vanguarda mais combativa da classe operária. Os bolcheviques trabalhavam duas palavras de ordem para essa manifestação: “Todo o poder aos sovietes!” e “Abaixo os dez ministros capitalistas!”.

A mesa do Congresso dos Sovietes, controlada pelos conciliadores, exige dos bolcheviques que suspendam a manifestação, proibindo por três dias toda ação de rua com o argumento que soldados armados poderiam dar pretexto para ações contrarrevolucio­nárias.

Ao mesmo tempo, ela envia comissões às fábricas e casernas para expor essa posição, mas elas se chocam com o ânimo dos operários e soldados, que chegam a declarar que só seguiriam as orientações dos bolcheviques.

Em 10 de junho chovem ameaças dos conciliadores contra os bolcheviques no Congresso. Depois de muito tumulto, se chega a um acordo: mencheviques e SR retiram uma moção que pedia o “desarmamento dos bolcheviques” – uma verdadeira provocação que haviam montado para julgá-los no Congresso – e estes últimos se comprometem a não chamar manifestações por três dias.

Em 18 de junho, as massas transbordam os conciliadores

O ministro da Guerra, Kerensky, havia anunciado uma grande ofensiva conjunta com os Aliados (França e Inglaterra) para 17 de junho. A massa dos soldados e o povo eram completamente hostis a ela, pois rejeitavam a guerra desde a revolução de fevereiro.

Preparada desde o início do mês, a ofensiva é adiada várias vezes e, ao final, limita-se a algumas incursões sem resultados militares concretos, salvo vítimas entre os soldados. O Governo Provisório já não tinha controle absoluto sobre suas próprias tropas.

Diante disso, os cadetes, principal partido burguês da coalizão, propõem aos dirigentes do Congresso dos Sovietes uma manifestação “democrática e patriótica” no dia 18 em Petrogra­do para apoiar a política do governo. Tentando jogar as massas contra os bolcheviques, se propunha anunciar então a dissolução da Duma imperial e a convocação da Assembleia Constituinte para 30 de setembro. O tiro saiu pela culatra.

Em 18 de junho a manifestação é imensa, entre 400 e 500 mil pessoas. No palanque, lado a lado, membros do Governo Provisório e os dirigentes conciliadores do Congresso dos Sovietes.

Uma maré de bandeiras vermelhas dos bolcheviques tomou conta da manifestação e as palavras de ordem que submergiram todas as outras foram: “Abaixo a ofensiva!”, “Todo o poder aos sovietes!” e “Abaixo os dez ministros capitalistas!”.

Comentando esse episódio, Leon Trotsky escreveu:

“Os operários que ainda eram hostis ao bolchevismo não sabiam o que lhes opor. Em seguida, sua hostilidade se transformou em neutralidade expectante. Sob as palavras de ordem bolcheviques haviam marchado um bom número de mencheviques e socialistas revolucionários que ainda não tinham rompido com seus partidos, mas que já tinham perdido a fé em suas palavras de ordem” (2).

Os últimos dias de junho são de efervescência. Os operários, em greve permanente, buscam aproximar-se ainda mais dos soldados. Em 22 de junho o comitê central dos bolcheviques chama a suspender o movimento, pois sabia que a hora da insurreição não havia chegado.

A tática bolchevique nos Sovietes

A palavra de ordem de “Abaixo os dez ministros capitalistas!” foi elaborada pela direção bolchevique em maio e é incorporada pelas amplas massas, como vimos, em 18 de junho.

Alguém poderia perguntar porque Lênin e seus camaradas não lançaram a agitação por “abaixo o governo provisório”?

Não cabe dúvida que os bolcheviques eram pela derrubada desse governo, mas é aqui que encontramos a riqueza e importância da tática revolucionária.

Os bolcheviques consideravam que a presença dos socialistas conciliadores, que eram maioria nos sovietes, no governo provisório é o que lhe dava vida e criava ilusão ou expectativa nas massas.

Logo, era preciso formular uma palavra de ordem de transição que fosse a expressão mais simples da exigência de uma ruptura da coalizão com a burguesia. Os ministros capitalistas concentravam a hostilidade das massas, que se indagavam por que seus “chefes” mencheviques e SR não rompiam com eles. Daí a sua adesão espontânea, natural, à essa palavra de ordem bolchevique.

Muito longe do “reflexo condicionado” de grupos sectários – “abaixo tudo e todos já” – a tática dos bolcheviques se alimentava de sua imersão nas fábricas, nos agrupamentos operários, construída ao longo de vários anos, que lhes permitia palpar o estado de espírito das massas e as bruscas mudanças que ele sofre numa revolução em curso.

Enfim, se o eixo da política revolucionária era “Todo o poder aos sovietes”, exigir dos conciliadores a ruptura com a burguesia preparava o caminho para os bolcheviques conquistarem a maioria nesses órgãos de poder, condição para a vitória da revolução.

O primeiro efeito da política bolchevique de junho de 1917 se deu no Congresso dos Sovietes. Muitos delegados mencheviques e SR que seguiam seus chefes na abertura de seus trabalhos em 3 de junho, ao seu final vão se reagrupar, seja como “SR de esquerda” ou como “mencheviques internacionalistas”, se aproximando do partido bolchevique e irão com ele marchar até a vitória da revolução em outubro.

Julio Turra

Notas

  1. As datas mencionadas são todas do “antigo calendário” vigente então na Rússia, defasado em 13 dias a menos em relação ao calendário atual (assim, 3 de junho equivale a 16 de junho).
  2. Leon Trotsky in “A História da Revolução Russa”.- Tomo 1 – “O Congresso dos Sovietes e a manifestação de junho”.


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