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A situação na Síria

23 de dezembro de 2016
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1 – As manobras das grandes potências na Síria

A batalha de Aleppo ocupa as primeiras páginas dos meios de comunicação social. Será por causa das atrocidades cometidas sobre as populações civis?

Na sua última conferência de imprensa, em 16 de dezembro, Barack Obama foi formal: “A responsabilidade de toda esta brutalidade está num único lado – o regime de Assad e os seus aliados, a Rússia e o Irã, e este sangue e estas atrocidades estão nas suas mãos”.

Portanto, os grupos “rebeldes” (isto é, pró-americanos), a Turquia, a Arábia Saudita, a França, o Reino Unido e os próprios EUA não têm nenhuma responsabilidade no caos atual? Nas diversas entrevistas de especialistas, pudemos ler recentemente as explicações de Bertrand Badie, professor em ciência política (Le Parisien, 10 de Dezembro), recordando que “o movimento iniciado em março de 2011 está alicerçado numa revolta contra o poder, rapidamente alimentada pela repressão de Damas (a capital do governo da Síria – NdT). Mas não se pode negar que estes movimentos populares tenham sido apoiados, ou mesmo organizados, por milícias armadas por potências regionais, tais como a Arábia Saudita ou a Turquia”.

É forçoso constatar, uma vez mais, que a opinião e a indignação de circunstância dos “grandes” deste mundo – a começar pelas do Presidente da República da Franca, François Hollande – seguem uma dada orientação política. É forçoso constatar que até mesmo a imprensa israelita expressou a sua emoção perante o destino dos habitantes de Aleppo!

A realidade é que, atualmente, as bombas americanas, russas, sírias, francesas, … devastam a Síria e o Iraque e matam civis sem qualquer distinção. Em Aleppo, os grupos “rebeldes” arrasaram, durante meses, os bairros cuja população tinha ficado do lado do regime sírio. Os outros bairros – sob influência do Daesh (Estado Islâmico) – foram arrasados pela aviação russa e síria. Os números detalhados dos massacres e dos assassinatos são dificilmente verificáveis, mas mostram, sobretudo, que a guerra em curso – como todas as guerras – não tem qualquer piedade para com os civis. Devido à crise da Administração dos EUA, todos procuram agir em defesa dos interesses que lhes são próprios. A Arábia Saudita, aliada dos EUA, financia milícias islamitas; Israel bombardeia, na Síria, as milícias libanesas do Hezbollah que lutam contra o Daesh; tanto o Irã como a Rússia fizeram-se convidar para o conflito armado. É um verdadeiro imbróglio.

Ao mesmo tempo, a Turquia – que é um peso-pesado da NATO (Acordo Militar do Atlântico Norte) e aliada histórica do imperialismo norte-americano no Médio-Oriente – procura eliminar todos os bastiões territoriais curdos que possam constituir-se e prossegue a sua guerra contra as forças curdas enquadradas, armadas e financiadas pelos EUA (forças que também combatem o Estado Islâmico – Daesh), fazendo incursões no norte da Síria e do Iraque. Em 14 de Dezembro, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergueï Lavrov, garantia que a cooperação com a Turquia, na crise síria, era “mais eficaz que as discussões com os EUA”. Isto é, devido à crise da Administração dos EUA, cada um toca a sua própria partitura.

Putin declarou, em 16 de dezembro, que estava trabalhando estreitamente com o Presidente turco, Erdogan, para a organização de conversações para a paz na Síria, visando conseguir um cessar-fogo durável à escala nacional. O assassinato do Embaixador russo na Turquia surge no momento oportuno para pôr em causa o Acordo Turquia-Rússia. A quem serve o crime?

Paralelamente aos propósitos de Obama que referimos acima, Trump declarou pelo seu lado: “Assad é mal, mas a oposição poderia ser pior”. A crise na cúpula da potência norte-americana – que se agravou com a eleição presidencial – faz com que todos os analistas estejam na expectativa.

A Administração dos EUA decidiu, de fato, passar para as mãos da Rússia e da Turquia a gestão direta da situação na Síria, ao mesmo tempo que continua a sua venda maciça de armas à Arábia Saudita – que bombardeia quotidianamente o Iêmen – longe das lições de moral dadas a nível internacional.

Artigo de François Lazar, traduzido de “Informations Ouvrières” – Informações operárias, o semanário do Partido Operário Independente, da França – edição nº 433, de 21 de dezembro de 2016.


2 – O horror

A imagens de Aleppo são desumanas: cadáveres na ruas, pessoas que fogem dos bombardeios russos e do exército sírio sem saber para onde ir, alimentos e medicamentos em falta, milhares de pessoas à espera de ônibus para deixar a cidade.

Desde 2011, a guerra na Síria já matou 400.000 pessoas e lançou milhões no caminho do exílio dos quais mais de um milhão estão na Europa recolhidos em campos de concentração pelos governos “democráticos” da União Europeia.

Os meios de comunicação, os grandes deste mundo, os intelectuais estão indignados; denunciam os massacres de Aleppo como uma nova Guernica(1). Mas Aleppo não é um fenômeno isolado. A várias centenas de quilômetros de Aleppo, em Mosul no Iraque, e, desta vez sob os auspícios da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, incluindo a França, há bombardeios: cem mil pessoas foram obrigadas a fugir da cidade de Mosul.

Não há guerra limpa ou guerra suja. A guerra traz consigo o seu cortejo de mortos, de feridos e de refugiados. A primeira guerra do Iraque, em 1990, matou duzentos mil iraquianos. O embargo ao Iraque imposto pelos Estados Unidos, França e outras grandes potências entre 1993 e 2001 matou mais de um milhão de pessoas das quais metade eram crianças.

Em 2003, sob o pretexto desse possuir armas de destruição em massa, houve uma nova intervenção militar no Iraque – pura invenção do governo dos EUA. Um intervenção que. imediatamente, matou dezenas de milhares de pessoas, seguindo-se os bombardeios, numa guerra civil entre 2003 e 2006 onde morreram seiscentas mil pessoas.

Em 2001, após os ataques do 11 de setembro, ocorre nova intervenção militar do governo estadunidense, agora no Afeganistão. Em dez anos, entre 2001 e 2011 –  a data oficial da retirada dos Estados Unidos – duzentos e cinquenta mil  homens , mulheres e crianças afegãs foram mortas.

A essa pode-se adicionar outras longas listas: Iugoslávia, Ucrânia, Sudão, Iêmen, Líbia, Mali …

A guerra é morte e desolação. A guerra, na sua forma atual, é produto da decomposição do sistema imperialista que, para sobreviver, não tem outro caminho que não seja a marcha para a barbárie.

Combater a guerra é lutar contra o capital pela ação da classe trabalhadora e suas organizações; é lutar contra todos os governos imperialistas para defender os direitos e garantias dos trabalhadores. Ao afirmar os seus direitos e reivindicações, a classe trabalhadora unifica as demandas da humanidade contra a barbárie que o capital engendra.
E são precisamente estas questões que serão o foco da Conferência Mundial que discutirá em 20 e 21 de abril em Argel a Coordenação do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AcIT).

Lucien Gauthier

(1) Referência as ações militares das forças conduzidas pelo General Franco, em 26 de abril de 1937, contra a população que habitava o território espanhol, principalmente a vila de Guernica, situada na região norte da Espanha com cerca de 6 mil habitantes. Guernica sofreu ataques dos aviões da Luftwaffe (Força Aérea Alemã), vinculados a Franco. Os alemães usaram os ataques a Guernica como experiências para ataques posteriores contra os seus inimigos na Segunda Guerra Mundial.


3 – Abaixo a guerra! Abaixo a exploração!

No momento em que fechávamos a edição deste jornal (Informações Operárias, do Partido Operário Independente de 21 de dezembro, NdT), a Coordenação do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos acabara de se reunir em Argel para discutir os preparativos para a Conferência Mundial contra a exploração e da Guerra a ser realizada em 2017.

As grandes potências querem nos chocar com a violência da guerra na Síria para fazer-nos esquecer sua responsabilidade na barbárie que está rasgando aquele país. Em 2010-2011, essas mesmas potências foram surpreendidas pelo desenvolvimento das revoluções na Tunísia e no Egito, que, apesar da repressão, derrubaram os regimes de Ben Ali e Mubarak, que davam sustentação ao imperialismo estadunidense e francês.

As grandes potências desencadeiam a guerra na Síria

O “contágio” dessas revoluções no Oriente Médio chocou-se com a reação das grandes potências e seus aliados regionais. Em 2011, tiveram lugar manifestações de massa na Síria contra o regime de Bashar al Assad. O regime respondeu imediatamente com repressão, como como fizeram Ben Ali e Mubarak. Mas o movimento das massas sírias não puderam tornar-se revolução, porque os governos locais subordinado ao imperialismo estadunidense, principalmente da Turquia e Arábia Saudita,interviram com o pretexto de defender o povo sírio.

E, na Síria, permaneceram as milícias armadas financiadas que iniciaram uma guerra contra o regime; esse respondeu da mesma forma. O desencadeamento “voluntário” desta guerra afastou das massas o povo sírio mobilizados. As pessoas tinham que se refugiar em suas casas para escapar das balas. As potências imperialistas, especialmente dos EUA e francês interviram para constituir, financiar e armar um suposto “Exército Sírio Livre”, chamado de moderado. Ao mesmo tempo, se inicia um levante popular no emirado de Bahrein. Em 14 de fevereiro de 2011, cinco mil soldados sauditas entram no Bahrein se afogar em sangue a revolta popular; nenhum dos supostos “grandes democratas” encontrou nada censurável nessa repressão sangrenta. Mesmo a Arábia Saudita, fiel aliada dos Estados Unidos, com outros países do Golfo, em seguida, desencadeia uma guerra de repressão e de massacre no Iêmen.

Daesh (Estado Islâmico), um parceiro

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Petróleo: riqueza que realimenta conflitos

Aí está a explicação para o fato de a região tem sido envolvido em chamas. Aí está a origem para o desenvolvimento da Daesh, constituindo um “Estado islâmico” regional numa parte do Iraque e da Síria. A venda de petróleo no mercado mundial aportava para o Daesh quase 750 milhões de dólares por ano. As atividades financeiras do Daesh através do controle dos bancos na região, principalmente a partir da tomada de Mosul, aparentemente lhe permitiu recuperar quatrocentos e cinquenta milhões de dólares em dinheiro que esse reciclou nos circuitos financeiros globais para a compra de armas e vários equipamentos. Além disso, a venda de grãos e algodão no mercado mundial reportou-lhes duzentos milhões de dólares. Para isso,ele precisava de compradores. Um relatório de uma comissão da União Europeia teve que reconhecer que tudo isso transitou pela Turquia e que foram empresas europeias e norte-americanos que compraram!

A responsabilidade das guerras é o produto do domínio do grande capital. Os trustes e monopólios estão travando uma luta de vida ou morte para controlar uma parte do mercado mundial em plena recessão. O deslocamento das nações e  as guerras são um dos meios para saquear recursos minerais e energéticos dos países e, ao mesmo tempo, para que a indústria de armamento não pare de trabalhar.

Monopólios saqueiam …

Após a ocupação militar do Iraque em 2003, dois trustes estadunidenses, desfrutaram de um quase monopólio de reconstrução do Iraque: Halliburton para reconstrução da infra-estrutura de petróleo e Bechtel para a reconstrução de edifícios. A ocupação militar do Iraque levou ao deslocamento do país de um território majoritariamente habitado por xiitas, de uma parte do território predominantemente sunita – agora sob o controle do Daesh e Curdistão iraquiano – que, contra os acordos, foi autonomizado cada vez mais e a dar um passo para a formação de um governo do Curdistão iraquiano. É preciso dizer que um terço da produção de petróleo do Iraque encontra-se no Curdistão iraquiano. Em novembro de 2011, a petroleira estadunidense Exxon Mobil US firmou diretamente com o “governo” do Curdistão um acordo para extração de óleo. O governo central do Iraque protestou, ainda mais porque, ele próprio, havia assinado um acordo com a mesma Exxon Mobil para extração do petróleo do sul iraquiano. Rex Tillerson, o próximo secretário de -Ministro de Estado do Exterior – tornou-se presidente executivo da Exxon Mobil em 2006!

… e empurram para a guerra

Ao mesmo tempo, aumentava as cifras nos negócios da indústria de armamento que representa mais de 55% da venda mundial de armas. Depois da retirada oficial do Iraque em 2011, Obama reduz o orçamento militar dos Estados Unidos da América. Os grandes trustes da indústria de armamento fizeram a campanha e pressão e, em 2014, Obama modifica claramente o orçamento militar, aumentado em 600 bilhões de dólares, metade dos orçamentos militares mundiais. A indústria de armamento necessita que seus mercadorias sejam vendidas, usadas, renovadas; portanto, que haja guerras. Na lista da cem maiores industrias de armamento do mundo, as cinco primeiras são estadunidenses: A Lockheed (37 bilhões), a Boeing (28 bilhões), a Raytheon (21 bilhões),a Northrop (19,2 bilhões), a General Dynamics (18,6 bilhões).

 

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Armamentos: uma das industrias mais rentáveis do mundo

Os capitais financeiros, os monopólios – fundamentalmente petroleiros e de armamento – usam os governos e os estados e pisoteiam constantemente suas prerrogativas e exigem que defendam os seus interesses. Nessas guerras, no Mali, no Iraque, na Síria, na República Centro-Africana, na República de Camarões. O governo Hollande – governo dos patrões e da destruição do Código Laboral – foi um governo belicista em nome do capital financeiro e da industria de armamento. Sob a presidência de Hollande, o faturamento da indústria de armamento na França passou de 4,8 Bilhões, em 2012, para 6,8 Bilhões em 2013 e para 8,2 bilhões em 2014, até alcançar os 16,9 bilhões em 2015!

 

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Estados Unidos da América: o maior produtor mundial de armas

 


4 – “Não se esqueça, o inimigo está em nosso próprio país

Intervenção de Karl Liebknecht, único deputado que, em 1914 na Alemanha, votou contra os créditos de guerra – o orçamento de guerra – às vésperas da primeira guerra mundial.

“O capitalismo traz a guerra como a nuvem traz a tempestade” (Jean Jaurès, o discurso na Câmara dos Deputados em 07 de março de 1895).

Lutamos e perseguimos o capitalismo porque outorga ao homem poder sobre o homem; se combatemos a força do capital, o prolongamento de seu espírito de dominação e conquista, não iremos suportar esse velho espírito de dominação e conquista em sua forma mais brutal, quando abertamente violenta a consciência dos povos. Se combatemos o militarismo, não é para deixar-lhe o seu último troféu. Em nossos conflitos internos, nas nossas greves, nas nossas lutas econômicas, ficamos indignados quando o soldado da França é exposto para disparar contra seus irmãos. Mas a que ficam expostos os que são alistados pelo militarismo imperial senão para atirar um dia contra os seus irmãos?

Por isso,  importa dizer isso desde o alto dessa tribuna: na consciência do proletariado universal, não há um único protesto contra o regime capitalista que não se condene por sua lógica invencível, as anexações violentas praticados contra povos que não aceitam a autocracia, imposta pela força militar estrangeira”.



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