Brumadinho: tragédia anunciada

31 de janeiro: deputado Betão em ato em BH, onde falou da necessidade de reestatização da Vale

A Vale, privatizada por FHC, é, de novo, responsável por centenas de mortes

A tragédia de Brumadinho, deixou centenas de mortos e desapare­cidos, grande parte trabalhadores da Vale, além da devastação ambiental. Estatal criada em 1942, a Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada, a rigor, doada, por $3 bilhões, quan­do seu valor era estimado em cerca de $100 bi, no governo de FHC, em 1997.

Após o acidente de Mariana em 2015, o governo de Pimentel (PT), apesar de proibir novas barragens do tipo da que se rompeu, não suspen­deu os processos de liberação já em curso e não desativou as barragens deste tipo existentes, como a do Córrego do Feijão (OESP 29/01/19). Com os novos governos, Bolsonaro e Zema de Minas, privatistas desen­freados e que falaram em flexibilizar ainda as normas e controles, se re­ascende a questão da reestatização da Vale

O Trabalho conversou com o depu­tado estadual Betão (PT-MG), sobre a tragédia de Brumadinho.

Você esteve na Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, o que diz?

Betão: Quando você observa ao vivo vê o tamanho da catástrofe, uma cena muito pior do que aquela que a gente vê pela televisão. É um crime contra a classe trabalhadora, para além de um crime ambiental.

Como denunciou o procurador­-geral do Trabalho Ronaldo Curado Filho, este pode ser o maior acidente de trabalho ocorrido no Brasil. São 160 mortos e 165 desaparecidos! A gente percebe a perplexidade das pessoas diante do desastre criminoso que ocorreu no local onde moram e onde até então levavam suas vidas. A grande maioria dos mortos e desapa­recidos são trabalhadores da Vale, o que demonstra um enorme descaso da empresa, hoje multinacional, de­pois da privatização promovida pelo governo de FHC.

Diante deste “maior acidente de trabalho”, como reagem os sindicatos?

B: Acho que deveria ter uma par­ticipação mais ativa dos sindicatos. Tentamos contato com os sindicatos dos Mineiros, até para colocar o man­dato à disposição, mas infelizmente ainda não tivemos resposta.

Os sindicatos, até o momento, estão um pouco silenciosos. Vejo no que aconteceu em Brumadinho um acidente de trabalho de proporções que o Brasil ainda não conhecia. São as condições de trabalho que estão em discussão, um ano após a contrar­reforma Trabalhista que desregula­mentou as relações de trabalho. Pela nova Lei Trabalhista, por exemplo, a família de um trabalhador morto no acidente, só vale 50 salários do que ele recebe da empresa. Quanto me­nos ganhar um trabalhador menos receberá de indenização (ele ou sua família) por morte ou perda de mem­bros do corpo em acidentes de traba­lho. Antes dependia da gravidade e da decisão em Justiça. Isso acabou. E se a Vale não tiver por parte dos trabalhadores uma resposta à altura do seu crime, está aberto o prece­dente para que qualquer patrão não garanta as mínimas condições para um trabalhador voltar com segurança para a sua casa. Para mim, a CUT tem um lugar particular a ocupar nesta luta contra o que fez a Vale.

A Vale está sendo punida com multa e bloqueios financeiros, só isso basta?

B: Não basta. Em um governo sério, a diretoria da Vale já deveria estar afastada por ter cometido esse crime. E como é uma empresa que foi privatizada a preço de banana, a questão da reestatização deveria já ser pauta prioritária dos governos estadual e federal. Digo isso, porque participei, na década de 90, da luta contra a privatização da Vale, quando a empresa foi vendida para grandes acionistas, nacionais e internacio­nais. E nós sabemos que uma em­presa privada, uma multinacional, visa principalmente o lucro. Além de todas as benesses que conseguiram com a privatização, ainda obtém do Estado isenções fiscais, que tiram dinheiro do orçamento público, para saúde e educação, por exemplo. Na busca do lucro, uma empresa priva­da não tem como prioridade gastos com a segurança dos trabalhadores e com a população que vive ao redor da empresa.

Uma empresa pública, como era a Vale, tinha mecanismos de controle de segurança da mineradora onde havia participação da estatal, dos empregados e da população. Por isso, estamos trazendo essa discus­são da reestatização da Vale para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Já no início dos trabalhos do ano legislativo, pau­tamos esse tema. Existem também inciativas de Comissões Parlamentar de Inquérito (CPI). Agora, na Câ­mara Federal,o deputado Rogério Correia (PT-MG) colhe assinaturas para um plebiscito sobre reestatiza­ção da Vale. Nosso mandato apoia esta iniciativa. Aliás lembro que em 2007 foi feito um plebiscito popu­lar, apoiado pelo PT por decisão de seu 3º Congresso. Cerca de quatro milhões votaram no plebiscito po­pular, dos quais 94% se declararam pela reestatização. Infelizmente nada foi feito durante os governos do PT. Depois de Mariana, e agora Brumadi­nho, a reestatização é uma bandeira a ser retomada.