Cala a boca Villas Boas!

A entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ao Estadão (9/9), revela a postura inaceitável de um militar que se coloca no direito de tutelar as instituições e dizer o que pode ou não pode ser feito. Ele não recebeu nenhuma punição por isso. Em abril, o mesmo militar havia emitido uma declaração, às vésperas da votação do habeas corpus de Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), com ameaças veladas, caso fosse concedida a liberdade a Lula.

Agora, ao comentar a facada em Bolsonaro, Villas Bôas estendeu sua análise para o que poderia ocorrer com o resultado da eleição, pondo em dúvida a legitimidade do novo governo antes mesmo da posse! Sua fala: “O atentado confirma que estamos construindo dificuldade para que o novo governo tenha uma estabilidade, para a sua governabilidade, e podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada. Por exemplo, com relação a Bolsonaro, ele não sendo eleito, ele pode dizer que prejudicaram a campanha dele. E ele sendo eleito provavelmente será dito que ele foi beneficiado pelo atentado, porque gerou comoção”.

Ao referir-se à tentativa de registro da candidatura de Lula, foi bem claro, mesmo sem mencionar o nome do ex-presidente: “Não se trata de fulanizar. O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira”.

A nota da Executiva Nacional do PT avalia: “É muito grave que um comandante com alta responsabilidade se arrogue a interferir diretamente no processo eleitoral, algo que as Forças Armadas não faziam desde os som- brios tempos da ditadura”. De outro lado, Alckmin, em sabatina no jornal O Globo (13/9), disse que o general “não falou nenhum impropério” e se declarou seu admirador: “Ele é um democrata”. É a sujeição tucana aos quartéis.

Exemplo do Uruguai

Enquanto isso, no Uruguai, o presidente Tabaré Vázquez ordenou a pri- são durante 30 dias do comandante do Exército, Guido Manini Ríos, por ter se pronunciado publicamente a respeito de um projeto de lei apoiado pelo governo. Ríos falou contra a proposta de reforma do sistema de pensões dos militares e uma nova lei orgânica das Forças Armadas. A Constituição uruguaia proíbe esse tipo de manifestação.

No Uruguai, assim como na Argentina, diferentemente do Brasil, houve punições para os militares que torturaram e assassinaram durante a ditadura. Não é à toa que Villas Bôas se sinta à vontade para falar o que não poderia.

Impunes pelos crimes cometidos durante a ditadura no Brasil, os militares agem para que assim siga sendo. Segundo matéria do Estadão (6/9), sobre “conversas recentes com oficiais de alta patente das três armas, quase todos da ativa, incluindo dois comandantes” nas palavras do articulista, os “oficiais registraram com alívio sinais, vindos de contatos diretos com integrantes do STF, de que ‘não haveria surpresas’ até o fim do período eleitoral, o que inclui questões envolvendo a Lei da Anistia, um ponto descrito como inegociável.”