Como foi a Greve Geral: a grande mídia esconde, nós mostramos

Apenas seis meses depois da posse do governo Bolsonaro e cerca de dois anos da última jornada de greve geral ocorrida no Brasil (abril de 2017), a classe trabalhadora deu uma contundente demonstração de que não aceitará sem luta que os seus direitos previdenciários – apo­sentadoria, assistência social e de saúde – sejam sacrificados no altar do capital financeiro. Se em 2017 era um governo imposto pelo golpe, odiado pelo povo, agora Bolsonaro precisou utilizar da repressão da Polícia Militar e os patrões da Justiça, para tentar im­pedir a greve geral, mas não teve êxito.

A jornada de greve geral de 14 de junho, chamada pelas centrais sindi­cais, foi marcada por paralisações em todos os estados da federação e no Distrito Federal que envolveram dezenas de milhões de trabalhadores nos mais diversos setores da economia e nos serviços públicos.

A grande mídia e deputados go­vernistas tentaram minimizar o mo­vimento, explorando o fato que nas maiores capitais, São Paulo e Rio, os ônibus urbanos não pararam (ao contrário de outras capitais, como Brasília, e cidades médias) e “as ruas não estavam vazias”. No caso de São Paulo, a direção do Sindicato dos Motoristas (UGT), depois da categoria votar pela greve, fez, às 22:30 horas da véspera, um acordo com o prefeito Bruno Covas (PSDB) e suspendeu a greve.

Mas o fato é que, mesmo numa situação de enorme desemprego e de asfixia financeira dos sindicatos, houve paralisações em mais de 380 municípios, em fábricas, refinarias de petróleo, escolas, universidades, bancos, serviços públicos, além de concentrações e grandes passeatas que encheram as ruas dos principais cen­tros urbanos, e bloqueios de rodovias.

Em que situação política?
Nos dias que antecederam a greve geral, a divulgação pelo site The In­tercept de mensagens trocadas entre o então juiz, hoje ministro, Sérgio Moro e procuradores da operação Lava Jato trazia à tona a farsa judicial que é a prisão do ex-presidente Lula.

Um dia antes da deflagração do mo­vimento, o deputado relator da con­trarreforma da Previdência apresentou uma versão desidratada do projeto original – retirando itens, como a capi­talização individual, o que desagradou o ministro Guedes – mas mantendo a imposição de uma idade mínima para aposentadorias (65 para homens, 62 para mulheres), a ampliação para 40 anos do tempo de contribuição para se obter uma aposentadoria integral e ou­tras regras “duras”. Sob forte pressão, que a preparação do 14 de junho expressava, o chamado “centrão” tenta tornar a “reforma” mais palatável e esfriar o movimento contrário a ela.

Mas a resposta foi a contundente greve geral de 14 de junho, com a CUT (a maior das centrais) rejei­tando a proposta “desidratada” da Câmara dos Deputados e indicando a continuidade da luta. O que remete, inclusive, a uma nova greve geral por ocasião da votação da proposta pelos parlamentares.

Atos políticos finalizaram a jornada de 14 de junho. Em São Paulo, na Avenida Paulista lotada, a presidente do PT, Gleisi Hoffman, reafirmou a posição do partido de rejeição global da reforma, uma posição firme que ajudou na construção greve geral.

Não faltaram nas faixas e cartazes dos manifestantes, nas falas dos di­rigentes e nos gritos das passeatas e concentrações o “Lula Livre”, dando vazão à revolta justificada contra o escândalo do conluio entre o ex-juiz e os procuradores na prisão sem provas do ex-presidente.

Obstáculos a superar
A armadilha montada é a proposta de “reforma desidratada”, para a qual contribuiu a ação de alguns governa­dores do PT, dispondo-se a negociar se alguns itens fossem retirados.

Há na direção das demais centrais – em particular a Força Sindical e a UGT – os que pressionam para uma negociação para “melhorar ainda mais o projeto” da Câmara dos De­putados, o que significaria o fim da luta para barrar a contrarreforma.

Como sempre, a última palavra será dada pela classe trabalhadora, a mesma que demonstrou enorme disposição de defender seus direitos em 14 de junho, e este movimento realizado deu o recado de que é possível avançar numa nova pa­ralisação para derrotar de vez essa reforma do governo.

Julio Turra


Por todo o Brasil… Fábricas, escolas e transportes

Em São Paulo a greve atingiu todas as regiões do estado, com ampla adesão de trabalhadores de diversas categorias. No ABCD paulista (região metropolitana que compreende os municípios de Santo André, São Ber­nardo, São Caetano e Diadema) 98% das fábricas metalúrgicas permanece­ram fechadas! 65 mil trabalhadores cruzaram os braços! Fábricas da região de Osasco também pararam. Metroviários da capital paulista paralisaram várias estações do metrô. Os bancos permaneceram fechados. Boa parte das escolas públicas das redes estadual, municipal e institutos federais também pararam.

Segundo o Sindicato dos Professores do En­sino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), houve paralisação de 70% das escolas no estado paulista. Algumas escolas privadas também não funcionaram. Professores de uni­versidades públicas, entre elas a USP e a UFABC, também fizeram greve. Houve atos em estações de metrô, em frente a fábricas e em rodovias desde a madrugada.

Em Fortaleza, Ceará, as redes públicas municipal e estadual de educação pararam em 95%. No interior a rede estadual também fez forte paralisação. Houve greve no setor operacional do Porto de Pecém, em São Gonçalo do Ama­rante. Em Russas parou o campus da UFC (Universidade Federal do Ceará). Funcionários do INSS ade­riram à greve e servidores da Sefaz (Secretaria da Fazenda), que está em estado de greve, participaram do ato. Algumas lojas fecharam as suas portas durante ato em apoio ao movimento.

Na Bahia, motoristas e cobrado­res pararam os ônibus e trens de Salvador. Petroleiros, professores do ensino básico e universitários, setores do comércio, parte do fun­cionalismo e agências dos correios também pararam na capital. No polo petroquímico de Camaçari (região metropolitana) houve pa­ralisações parciais nas fábricas. Na Refinaria Landulpho Alves-Mataripe, em São Francisco do Conde, na troca de turno dos petroleiros, os 12 micro-ônibus chegaram prati­camente vazios. Em muitas cidades do interior houve forte greve dos servidores estaduais e municipais.

No Rio Grande do Sul, a greve geral começou com milhares de tra­balhadores e estudantes ajudando os rodoviários a bloquear a saída dos ônibus, em frente às garagens, e com bloqueio nas rodovias. Os motoristas e trabalhadores dos trens da Região Metropolitana de Porto Alegre ade­riram à greve, mas foram reprimidos com violência pelas tropas de choque da Brigada Militar. Pelo estado, diver­sas categorias, como petroquímicos, petroleiros, professores, sapateiros, bancários, servidores públicos e traba­lhadores da saúde e da alimentação, pararam as atividades. Petroleiros da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas se manifestaram. Na capital e várias cidades registraram atos durante o dia, como foi o caso de São Leopoldo (região metropoli­tana), com uma grande caminhada pela cidade.

Em Belo Horizonte (MG), o metrô parou 100%. Pelo estado as paralisa­ções de servidores públicos de diversos níveis (educação, saúde, judiciário federal, auditores e fiscais do trabalho) foi muito forte. Pararam parcialmente bancários, petroleiros, eletricitários e professores da rede privada. Houve manifestações em dezenas de cidades, como em Juiz de Fora, com grande adesão de bancários e professores.

Pernambuco

Em Pernambuco o movimento teve grande amplitude em todo o estado. Pararam integralmente os petroleiros na Refinaria Abreu e Lima e na Trans­petro do Parque Aquaviário (porto de Suape). Além de 100% dos petroleiros, houve adesão de 70% dos administra­tivos e 60% de terceirizados. Pararam 100% também: educação básica do estado, todas universidades públicas e IFPEs; todas escolas privadas da região metropolitana; as agências da Previdência Social em todo estado. Além disso, a maior parte das faculda­des e universidades privadas e alguns dos principais hospitais e serviços de saúde básica também pararam. Houve atraso na entrada da fábrica da FIAT/ JEEP em Goiana. O metrô de Recife ficou sem funcionar a maior parte do dia. Os ônibus não funcionaram em alguns intervalos e menos da metade da frota, mesmo com o Sindicato dos Rodoviários (Força Sindical) não convocando a greve. No fim do dia ocorreram atos em muitas cidades, sendo que em Recife 50 mil pessoas estiveram presentes.

No Rio de Janeiro eletrici­tários e portuários pararam as atividades. Os petroleiros do Terminal da Baía de Gua­nabara e em Macaé, assim como os trabalhadores do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) também aderiram à paralisa­ção. A refinaria de Duque de Caxias ficou fechada. Houve paralisa­ção e ato dos trabalhadores em sanea­mento da capital. A UFF (Universidade Federal Fluminense) parou quase na totalidade: professores, estudantes e funcionários. A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) paralisou 90% dos funcionários.

Em Curitiba (PR) e região, pararam todas as grandes metalúrgicas, como Renault, Bosch e Volvo. Também na capital, algumas garagens de empresas de transporte coletivo amanheceram fechadas e o transporte ficou quase totalmente parado até as 10h. Petro­leiros, bancários, professores da rede estadual, servidores estaduais, UFPR (Universidade Federal do Paraná) e professores municipais de várias cida­des também aderiram. Em Londrina e em Maringá, onde teve repressão da Polícia Militar, motoristas e cobradores aderiram em peso à greve geral.

Em Alagoas, rodoviários atrasaram o início da jornada em duas horas na capital, Maceió. Teve também parali­sação na porta do CEPA (Centro Edu­cacional de Pesquisa Aplicada), maior complexo educacional de Alagoas, na capital, contra os cortes na educação e contra a reforma da Previdência. Em Arapiraca, no interior de Alagoas, o comércio parou.
No Distrito Federal, motoristas, cobradores de ônibus e BRT e trabalha­dores do Metrô pararam o transporte público de Brasília. Trabalhadores da educação, do serviço público, da iniciativa privada, terceirizados, de au­tarquias e empresas públicas também cruzaram os braços.

Em Santa Catarina, rodoviários pararam em Florianópolis e em Blu­menau. Na capital os trabalhadores da COMCAP (coleta de lixo) paralisa­ram as atividades durante o dia, além dos funcionários dos Correios e os servidores públicos. Assim como os metalúrgicos de Brusque e Blumenau.

Tiago Maciel com correspondentes