Crise permanente é o método de Bolsonaro

Nos quatro meses de governo Bolsonaro foi raro o dia em que não ocorreram ataques e provocações recíprocas entre os núcleos que o compõe.

Tresloucados “olavetes”, como o astrólogo e os filhos do presidente, contra generais, viúvas da ditadura militar; se é Moro ou Guedes que fica com a COAF; ressentimentos no PSL, partido de aluguel para eleger Bolsonaro, diante da falta de orientação do Planalto para sua ação no parlamento, preferindo negociar com o centrão etc.

Enquanto isso, a “guerrilha vir­tual” nas redes sociais, comandada por Carluxo, alveja, além do general Mourão, também o Supremo Tribu­nal Federal (STF) e seus juízes, em defesa das propostas absurdas de mi­nistros como Damares e Weintraub.

Uma das ultimas do capitão reformado foi dizer que garantirá uma vaga no STF para Moro. Este não confirmou, nem desmentiu. Especulações de que seria um “abraço de urso” – afastar o atual ministro da Justiça das eleições de 2022 – aparecem.

Colunistas políticos, espantados com a fuzarca, pedem aos generais que abandonem o barco para salvar a “honra do Exército”. Outros, inclusi­ve gente do PCdoB, dizem que defen­der o STF é “defender a democracia”, esquecendo-se do papel dos togados na pavimentação da via para a elei­ção de Bolsonaro (impeachment de Dilma e prisão de Lula).

A Globo e os jornalões se enervam com a estupidez do presidente, mas ressalvam que se o ministro Paulo Guedes entregar a “Nova Previdên­cia” – o que quer “o mercado”– tudo se resolverá.

Bolsonaro, por seu lado, esforça­-se em aparecer como o árbitro de toda essa confusão, comparando-a a “brigas de casal”, buscando uma relação direta com sua base eleitoral como figura providencial – acima de todas as instituições – que vai resolver a parada. Por isso mesmo ele faz da sucessão de crises o seu método. Onde está então o “fascismo”, agitado por setores da esquerda? Onde estão a disciplina, o partido único, o Estado totalitário erguido sobre os escombros das organizações operárias, democráticas e populares, que caracteriza tal regime? Atitudes fascistas existem, dentro e fora do governo, mas isso não basta, como se vê. O que é então o governo Bol­sonaro?

Um minigolpe de Estado por dia

Marx vem em nosso socorro em “O 18 Brumário de Luís Bonapar­te”, obra de 1852 na qual é dada a base para definir o fenômeno do bonapartismo. As raízes do governo de Luis Bonaparte, sobrinho de Na­poleão, estão na crise dos partidos da burguesia francesa da época, que faz surgir um “salvador”, eleito pelo povo, que parece pairar acima das classes, mas que age em nome do capital.

É uma leitura indispensável para ajudar a entender que o governo Bolsonaro é de tipo bonapartista, com a particularidade de subordi­nar-se ao imperialismo dos EUA (Trump) na atual situação mundial tumultuosa. Como aperitivo, uma citação:

“Impelido pelas exigências contra­ditórias dessa situação e, ao mesmo tempo, como um ilusionista sentin­do-se na obrigação de apresentar constantes surpresas para manter os olhos do público fixos nele, ou seja, de realizar todo dia um novo golpe de Estado em miniatura, Bonaparte (…) esculhamba toda a economia burguesa, toca em tudo que parecia intocável (…), deixa uns aguardando a revolução com paciência e outros com vontade de fazer a revolução e gera a pura anarquia em nome da ordem, enquanto simultaneamente despe toda a máquina do Estado da sua aura de santidade, profanando­-a, tornando-a ao mesmo tempo asquerosa e ridícula.”

Lauro Fagundes