Entrevista com Yasemin Zahra, presidente da USLAW – Trabalhadores dos EUA contra a Guerra

Entrevista com Yasemin Zahra, presidente da USLAW (US Labor Against the War – Coalizão de trabalhadores norte americanos contra a guerra)

Quais os aspectos mais relevantes das manifestações atuais, desencadeadas pelo assassinato de George Floyd?

Nos Estados Unidos, há muito tempo não vemos manifestações dessa intensidade, com tanta energia e recebendo tal atenção nacional sobre a questão do terror policial nas comunidades negras. Os protestos surgiram em todas as grandes cidades, e até nas zonas rurais, e receberam um forte apoio da comunidade internacional. A polícia e o exército do nosso governo foram utilizados contra os manifestantes, e usaram armas de guerra, incluindo helicópteros Black Hawk, gás lacrimogêneo, balas de borracha e granadas de cerco. Nos Estados Unidos, não é novidade a polícia matar indivíduos negros; no entanto, num contexto no qual o movimento Black Lives Matter estava crescendo, o policial que matou George Floyd, indefeso, o fez em plena luz do dia e em um local bastante movimentado. O vídeo provocou uma onda de choque no país inteiro.

Essas manifestações ocorrem em meio à crise do Covid, a crise sanitária e a explosão do desemprego. Como elas estão relacionadas a esta situação social?

Isso contribui para a maneira como as pessoas estão fartas. O homicídio de George Floyd foi a faísca que colocou fogo no pavio, mas também foi a gota d’água que fez transbordar o copo para muitos estadunidenses que estão cansados do alto desemprego e do tratamento injusto, racista que o sistema impõe aos negros durante séculos. O Covid atingiu as comunidades de forma desproporcionada, com taxas muito mais altas, e a inação do governo para apoiar os trabalhadores negros tem sido desastrosa.

Qual é a reação do movimento operário a essas manifestações?

A reação dos sindicatos tem sido muito decepcionante. Alguns sindicatos internacionais (1) adotaram declarações em apoio ao Black Lives Matter, e a AFL-CIO, a maior federação sindical, colocou grandes faixas com essa palavra de ordem em sua sede em Washington D.C. Além desses gestos simbólicos, os principais sindicatos não fazem muita coisa concretamente, sobretudo por estar sendo questionado o poder da polícia. A Associação de Escritores do Leste da América (2) publicou um apelo à AFL-CIO pela exclusão da União Internacional das Associações Policiais (3) mas, por enquanto, os demais sindicatos não aderiram. A Associação de Comissários de Bordo (4) adotou uma resolução em favor do Black Lives Matter. No nível das seções sindicais, continua um trabalho para participar das manifestações e para acabar com os contratos e as vinculações com a polícia (5). Nosso movimento operário é poderoso e deve sempre agir no interesse dos trabalhadores. Enquanto movimento operário, é nosso dever nos colocar ao lado da família de George Floyd e de todos os nossos irmãos e irmãs negros, cujas comunidades têm sido atacadas pela violência policial.

Deseja adicionar uma palavra em conclusão?
Estamos profundamente gratos aos sindicalistas e aos camaradas da França por sua solidariedade. A classe operária internacional deve ser firme em sua luta contra o racismo e a militarização. Nossa luta é comum.
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(1) Sindicatos que possuem seções no Canadá, como o ILWU (sindicato dos estivadores da costa oeste, não filiado à AFL-CIO) ou o ILA (sindicato dos estivadores da costa leste, filiado à AFL-CIO), que organizaram, ambos, uma greve em apoio às manifestações.
(2) Writers Guild of America East, sindicato dos roteiristas e jornalistas da televisão da costa leste, membro da AFL-CIO.
(3) International Union of Police Associations, federação dos sindicatos de policiais, membro da AFL-CIO.
(4) Association of Flight Attendants, sindicato do pessoal de vôos comerciais, filiado à AFL-CIO.
(5) Em particular na educação: os distritos escolares fazem contratos com os serviços de polícia para que eles intervenham nas escolas.