Escancarada a corrupção na Fifa

Prisão de dirigentes, ponta do iceberg do “grande negócio” que é a Copa do Mundo

No último dia 27, oito dirigentes da Fifa, entidade privada que organiza o futebol profissional no mundo, foram presos na Suíça após investigação do (Polícia Federal estadunidense) que aponta para a ocorrência de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro na entidade. As prisões, acompanhadas do indiciamento de outros seis dirigentes, repercutiram em todo o mundo e levaram à renúncia do presidente da Fifa recentemente de novo reeleito, Joseph Blatter.

Entre os presos está o cartola brasileiro José Maria Marín, ex-presidente da CBF e ex-governador biônico de São Paulo, que, em sua colaboração com o regime militar brasileiro, é implicado como um dos responsáveis pela perseguição política ao jornalista Vladmir Herzog, morto sob tortura nos porões da ditadura em 1975. Após as prisões, o atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, deixou a Suíça às pressas antes mesmo de poder representar o Brasil no Congresso da entidade.

O envolvimento da Fifa e da CBF escancara o “modus operandi” das entidades de futebol ao redor do mundo, com diversas acusações de contratos corruptos e fraudulentos com empresas esportivas e pagamento de propinas milionárias que envolvem desde erros de arbitragem até a escolha dos países-sede das copas do mundo desde 1998, na França, até 2022, a ser realizada no Catar. Nenhuma novidade para quem tem presenciado o futebol profissional se tornar um grande negócio, com enriquecimento de cartolas e empresários, sem prestação de contas às autoridades ou à população. Também evidencia quão sistemática é a corrupção entre empresas privadas, que não é “privilégio” do setor público, diferente do que faz parecer a grande mídia em seus ataques à gestão e aos serviços públicos.

O papel dos EUA

O fato de as investigações terem sido lideradas pelos Estados Unidos indica que pode haver outros interesses envolvidos. O presidente russo Vladmir Putin fala em pressões políticas na eleição da presidência da Fifa. Alguns analistas denunciam que o ocorrido faz parte de uma briga em torno de fatias do mercado futebolístico visado por empresas americanas, o que envolveria a candidatura dos EUA como sede para a Copa do Mundo de 2022. O mercado do futebol, crescente nos EUA, já conta com mais de 70 milhões de torcedores e algumas das principais empresas patrocinadoras do esporte são deste país.

Dessa forma, não surpreende que a declaração da procuradora-geral dos Estados Unidos de que “o Departamento de Justiça do país está determinado a acabar com a corrupção no mundo do futebol” não tenha levado à investigação e punição igualmente rigorosas às empresas estadunidenses implicadas nos escândalos. Sem nenhuma ilusão nas boas intenções do FBI e do Departamento de Justiça estadunidense, esse episódio, que reforça a ideia dos EUA como ‘xerifes do mundo’, deve levantar todas as suspeitas para os interesses financeiros deste país em um dos principais mercados esportivos no mundo.

Pablo Valente

Artigo originalmente publicado na edição nº 767 de 11 de junho do jornal O Trabalho.