EUA: “Black Lives Matter” contra o racismo e a violência policial

Milhões de jovens se mobilizam pelos direitos do povo negro e da juventude trabalhadora

A promotora de Baltimore, Marilyn Mosby, desistiu do processo contra seis policiais responsáveis pelo assassinato de Freddie Gray. Ela denunciou que é virtualmente impossível condenar um policial nos EUA. “Apesar de todas as provas médicas de que Gray foi assassinado (estando algemado) dentro da viatura policial”. O processo mantinha-se tendencioso: a polícia interferiu sistematicamente no caso, falsificando provas, protegendo os policiais acusados e impedindo um julgamento minimamente sério. O departamento de polícia e o sindicato dos policiais festejaram.

Violência policial e assassinatos

Freddie Gray era um jovem negro que morava num bairro pobre de Baltimore. Como ele, apenas em 2015, 102 negros desarmados foram assassinados pela polícia dos EUA. 40% das pessoas desarmadas assassinadas pela polícia eram negras, a despeito dos negros serem apenas 13% da população. Entre os cerca de mil policiais responsáveis por esses 102 assassinatos, apenas um foi condenado, com uma leve pena de prisão.

No ano passado, um jovem branco racista entrou atirando numa igreja batista (historicamente ligada à comunidade negra) em Charleston, Carolina do Sul, matando nove pessoas e ferindo várias outras, todas negras.  A violência contra a população negra e, em boa parte dos casos, sua impunidade, começou a gerar nos últimos três anos uma onda de mobilizações.

Manifestações em todo o país

Há dois anos, o assassinato pela polícia de um negro desarmado em Ferguson, Missouri gerou uma onda de protestos com milhares nas ruas da cidade. A polícia reprimiu através de uma verdadeira operação de guerra. Uma comoção nacional se espalhou em todo o país. Atos de solidariedade usaram a palavra de ordem: “Black Lives Matter” (As Vidas dos Negros Importam), sugerida por uma “hashtag” na internet. Os organizadores de cada um dos atos — em geral jovens sem experiência de militância – passaram a constituir comitês que planejavam novas ações. Mais tarde, uma coalisão nacional, o Movimento pelo Black Lives Matter (BLM), foi formado, recebendo também a adesão de cerca de 50 grupos antirracistas regionais. Desde então, jovens ativistas antirracistas negros, hispanos e brancos agrupam-se em milhares de cidades, organizando protestos, debates e atividades culturais contra a violência policial e o sistema jurídico racista.

Em julho, novos casos de assassinatos por policiais de jovens negros desarmados provocaram grandes manifestações com fechamento de avenidas e protestos em frente a delegacias de polícia. Um caso que chocou o país foi o de Philando Castille, um jovem trabalhador negro sem nenhum antecedente criminal, foi assassinado a queima-roupa em seu carro com sua namorada e filha. Sua morte foi filmada pelo celular da namorada que implorava clemência ao policial.

Grandes atos e passeatas pacíficas foram organizadas pelo BLM no dia seguinte em milhares de cidades do país. No mesmo dia, em Dallas, Texas, um jovem negro, veterano da guerra do Afeganistão atirou em cinco policiais, matando-os. Com problemas psicológicos -como boa parte dos veteranos de guerra-  foi morto durante o tiroteio que se seguiu. Ele se dizia frustrado com a impunidade da polícia racista. A polícia e políticos conservadores, como o ex-prefeito de Nova York, Rudolf Giuliani, passaram a acusar o movimento BLM por ser “responsável pelo assassinato de policiais”. Eles querem intimidar e criminalizar o movimento dos jovens. A mídia conservadora tenta acusa-los de terroristas.

Nos últimos dias uma nova onda de passeatas foi organizada pelo BLM.

Alberto Handfas


Plataforma do BLM e independência

O Movimento pelo Black Lives Matter lançou em 1º de agosto sua plataforma política, “Uma visão ao BLM: Reivindicações por Poder Negro, liberdade e justiça”. O documento exige “reparações pelos prejuízos trazidos aos afro-americanos pela escravidão”, investimentos em educação e empregos”, “reforma da justiça e da legislação criminal” (que pune exageradamente delitos mínimos), “fim da pena de morte” e “desmilitarização dos departamentos de polícia”.

É primeira vez que o BLM lança uma plataforma. Em parte, talvez, tal atraso tenha se dado pela forma um tanto horizontal/descentralizada do movimento. A dependência financeira – portanto, política – de alguns de seus grupos locais de ONGs também deve ter atrapalhado sua capacidade de organização em nível nacional e de elaboração de um programa político independente.

Nos últimos seis meses, as pressões eleitorais (do partido Democrata) também se avolumaram. Obama, Hillary e Sanders reuniram-se com alguns de seus líderes. Outros dirigentes já se declararam contra os dois partidos capitalistas — que recusam suas demandas, como as reparações, por exemplo. “Nós lutamos por transformação radical, não reforma reacionária” disse Michaela Brown — dirigente de Baltimore. “Mas vamos exigir e cobrar dos eleitos”.


Artigos publicados na edição nº 791 do jornal O