Fraude, intimidações e crime eleitoral

Em 24 de janeiro de 2018, com a confirmação da condenação de Lula pelo Tribunal Regional Federal (TRF-4) de Porto Alegre, começava a corrida eleitoral mais fraudulenta das últimas eleições presidenciais no Brasil. As mesmas instituições que forjaram a retirada de Lula da disputa, fizeram, ao longo dos meses, vistas grossas à todas as irregularidades. À co­ação patronal, à incitação à violência, ao uso de caixa dois no uso e abuso das redes sociais e notícias falsas, etc, etc, etc. Tudo no “santo nome” do combate à corrupção, que há anos vem sendo urdido pelo Judiciário, com amplo apoio da mídia, para destilar o sentimento de antipetismo, intoxican­do a população, o que pavimentou a eleição de Bolsonaro.

Coação patronal

A Procuradoria-Geral do Trabalho (PGT) recebeu, até 20 de outubro, uma semana antes do 2° turno, 199 denúncias em 14 estados relacionadas a coação eleitoral. Levantamento da Agência Pública junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) nos esta­dos revela também que, nos casos em que o MPT abriu parte do conteúdo das denúncias de coação, a maioria das empresas acusadas foram favoráveis ao candidato Jair Bolsonaro (PSL). A PGT registrou denúncias contra mais de 60 empresas pelo país. Em 57 des­tas empresas denunciadas foi possível identificar a motivação eleitoral dos casos de coação. 28 delas são acusadas de coação em favor de Bolsonaro e apenas uma foi contrária ao candidato do PSL. A região Sul concentra 157 denúncias, ou seja, 79% do total registrado pela PGT. Há casos de camisetas e comunicados idênticos distribuídos em empresas diferentes, o que sugere uma comunicação entre os empresários nos atos denunciados. Palestras, reuniões formais, conversas informais pelos corredores, cartas e até colinhas eleito­rais e áudios pelo WhatsApp foram denunciados como forma de indução ao voto e ameaças por parte de donos e diretores de empresas.

“Semana do Bolsonaro”

No caso da Komeco (fábrica de ar condicionado em SC), além de uma palestra sobre a eleição, na semana anterior à do primeiro turno, um áudio atribuído ao presidente da empresa passou a circular entre os funcionários: “Semana que vem, pessoal, aqui na empresa nós estamos chamando de semana do Bolsonaro. Todo funcio­nário que quiser colocar um adesivo a empresa vai pagar metade. A ca­miseta [do candidato] custa 30 pila, nós vamos estar comprando por 30 e vendendo pro funcionário por R$ 10. Vai ser a semana que a gente vai traba­lhar uniformizado de Bolsonaro: carro adesivado e camiseta vestida”.

Foi em tom de ameaça que o dono da empresa Tabacos D’Itália, Gilmar João Alba (RS) tentou convencer seus funcionários a votar em Jair Bolso­naro: “se Bolsonaro não ganhar, eu vou embora”, disse em reunião com os empregados, registrada em vídeo. “Nós dependemos de vocês ou as em­presas não vão pra frente, mas, se nós, empresas, não existirmos no mercado, quem são vocês? Quem são vocês? Vocês são menos ainda”, afirmou. A CUT-SP também recebeu mensagens de trabalhadores da Latam relatando estarem sob pressão de alguns de seus chefes por não declararem voto ou serem contrários ao candidato de extrema direita. Eles contaram que, ao optarem pela neutralidade ou por Fernando Haddad (PT), passavam a ser alvos de chacotas entre a equipe ao longo do voo, criando “um ambiente insuportável” de trabalho.

Empresário invade assembleia

A quatro dias do segundo turno, em 24 de outubro, Emílio Dalçoquio Neto – empresário herdeiro da Transportes Dalçoquio e mais três bolsonaristas invadiram uma assembleia do Sinasefe (Sindicato Na­cional dos Servidores Fe­derais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica) que ocorria no Instituto Fe­deral Catarinense de Balne­ário Camboriú (SC). Após gravar trechos da reunião, os militantes foram inter­pelados por professores que reconheceram os intru­sos. Dalçoquio acabou discutindo com os servidores e fez uma defesa do dita­dor chileno Augusto Pinochet, general que comandou a sangrenta ditadura em seus país entre 1973 e 1990. “Eu defendo Pinochet porque ele matou quem tinha que matar. Tivessem feito o mesmo que ele fez aqui no Brasil não haveria isso aí”, disse Dalçoquio. Segundo João Cichaczewski, diretor de comunicação de Sinasefe, “o que aconteceu em Camboriú é um reflexo radicalizado do que está acontecendo na sociedade brasileira. As pessoas estão se sentindo autorizadas a serem intolerantes”. Dalçoquio foi um dos responsáveis pelo programa de gover­no de Bolsonaro na área de transporte de cargas. Em maio deste ano, durante a mobilização dos caminhoneiros, sua empresa foi investigada pela Polícia Federal por suspeita de locaute.

Tiago Maciel