Haiti: dois dias de revolta contra o aumento dos combustíveis

O atual presidente do Haiti, Jovenel Moise, foi colocado no poder em eleição fraudada e controlada pelos EUA e União Europeia (UE), em 2016, com o país ainda sob ocupação da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, que, co­mandada pelo Brasil, durou de 2004 até 2017).

Em 6 de julho, por imposição do FMI, seu governo, dirigido pelo primeiro ministro Jack Guy Lafontan, anunciou um aumento de 37% na gasolina, 40% no óleo diesel e 51% no querosene, muito utilizado por grande parte da população mais pobre, sobretudo para iluminação.

O anúncio foi a gota d’água que desencadeou a cólera popular. Horas depois de noticiado, as ruas das cidades mais importantes, principalmente da capital, Porto Príncipe, foram tomadas por multidões enfurecidas.

Vias foram bloqueadas por barricadas e pneus em chamas. Lojas e supermer­cados foram saqueados e incendiados. Hotéis que abrigam estrangeiros foram atacados. Voos foram cancelados. Du­rante o sábado e o domingo, 7 e 8 de julho, a revolta tomou conta do país.

Na noite do dia 7, acuado, Jovenel Moise em pronunciamento informa a suspensão provisória do aumento que, depois, também por “sugestão” do FMI, seria aplicado gradualmente e não de uma só vez.

Organizações populares, partidos de oposição, sindicatos, convocaram manifestações protestando contra o aumento e exigindo o fim do governo Moise-Lafontan.

Os trabalhadores das empresas das zonas francas, que já estavam em luta por aumento do salário mínimo (atualmente é de cerca de 100 dólares por mês), participaram dos protestos. Mas não houve a construção de um movimento organizado que pudesse abrir uma perspectiva política para a terrível situação do país, até porque a classe trabalhadora não conta com um partido político próprio.

Primeiro-ministro renuncia

Outro elemento da crise é a corrup­ção, com desvio pelos governantes de fundos obtidos a título de ajuda internacional e de acordos comerciais, como é o caso das remessas de petróleo financiadas pela Venezuela. Fundos de pensão dos trabalhadores foram igualmente dilapidados.

A repressão às mobilizações foi violenta, com mais de 20 mortos e dezenas de pessoas presas e colocadas em condições sub-humanas.

Por outro lado, diversas associações patronais consideraram insuficiente a ação das forças policiais e pediram a demissão do primeiro ministro Lafon­tan. No dia 14 de julho, convocado ao parlamento para a votação de uma moção de censura, ele anunciou sua demissão. O choque provocado pela revolta do povo retirou a sustentação que lhe davam os patrões e os deputa­dos ligados ao governo fantoche.

Empurrado pela embaixada dos EUA em Porto Príncipe, o presidente Jovenel Moise se lançou então a uma pere­grinação – ainda não encerrada até o fechamento desta edição – a associações patronais e igrejas buscando formar o que chamou de “governo de união nacional”, com objetivo de manter a mesma política de subordinação do Haiti aos interesses das grandes potên­cias e das multinacionais.

Os partidos de oposição como o Lava­las e Ptit Dessalines, além de sindicatos e organizações políticas e populares – dentre elas o Moleghaf, Movimento de Liberdade, Igualdade dos Haitianos pela Fraternidade – estão buscando construir canais de diálogo e fóruns unitários que permitam avançar a luta em defesa das reivindicações do povo e da soberania nacional do Haiti.

Rafael Potosí