Com os burros n’água ou a história de uma farsa “científica”

Da edição de Informations Ouvrières, no. 608, Paris, 11 de junho de 2020

Como um castelo de cartas. O famoso estudo sobre a hidroxicloroquina publicado por The Lancet (semanário médico inglês fundado em 1823 – NdT) provocou vivas reações no meio científico. Em poucos dias, The Lancet publicou uma advertência referente a esse estudo. Dois dias depois, três de seus quatro dos coautores retiraram seus nomes. Finalmente, The Lancet anunciou retirar tal estudo.

Voltemos atrás quinze dias. Todas as “autoridades científicas”, a OMS e o ministro Véran (ministro da Saúde do governo Macron – NdT) reverenciaram o estudo publicado na “prestigiada e renomada revista The Lancet” e anunciaram o fim das pesquisas em andamento sobre a hidroxicloroquina. O ministro Véran chegou a decidir, desafiando a liberdade de prescrição dos médicos, proibir esse tratamento. Uma campanha incrível foi desenvolvida na mídia de TV e impressa. O estudo publicado pelo The Lancet foi levado ao auge, em uma explosão de propaganda. Alguns jovens cientistas iniciantes também compartilharam nas mídias sociais notícias para promover o estudo da Lancet.

Depois, subitamente, quando a operação afundou, as mídias viraram a casaca. Le Monde, um dos pilares desta campanha de propaganda, como se não fosse nada de relevante, informou que The Lancet retirou o estudo. Mas no passado citou igualmente os estudos falsos publicados em The Lancet, assim como a afirmação do editor de The Lancet sobre o fato de que a metade de seus estudos são falseados.

Tudo isso estava no Informations Ouvrières há oito dias. Le Monde, com os meios enormes que tem, conhecia todos esses elementos muito antes de nós. Mas, por razões políticas, ele decidiu escondê-los, e hoje os publica para se cobrir. Le Monde faz um tipo de jesuitismo.

Subitamente, a imprensa começa, hoje, a publicar elementos sobre a empresa Surgisphère, que fez a tal “pesquisa”. Nós já tínhamos trazido, em nosso jornal, alguns elementos, mas a imprensa registra outros.

“A credibilidade do Surgisphère desmorona por todos os lados. Ainda há muitas incógnitas, neste caso, que mancha profundamente a credibilidade da comunidade científica e seu circuito de validação. Sobretudo a Surgisphère, desconhecida, ainda há poucos meses, e gera muitas preocupações (…) Por exemplo, ela foi considerada culpada pela falsa validação científica de uma ferramenta de diagnóstico rápido do Covid 19 (…). The Scientist revelou, também, que o doutor Sapan Desai (o diretor de Surgisphére) está sendo, nesse momento, processado por três ex-pacientes. O jornal The Guardian tem sérias dúvidas sobre dois empregados da mesma, um deles seria escritor de ficção científica, e o outro modelo para revistas de moda” (jornal Le Parisien, 5 de junho).

Agora, todos caem de pau sobre a Surgisphère para isentarem a si mesmos e às “autoridades científicas”. Mas por que o “comitê científico” da revista The Lancet permitiu que este artigo fosse publicado quando, assim que foi anunciado, muitos cientistas – que não são defensores da hidroxicloroquina – denunciaram esse estudo como “falso”? Por que os “conselheiros científicos” do Ministro Véran se recusaram a reconhecer que se tratava de um trabalho mal feito? Uns, como outros, se referem à “ciência” permanentemente como argumento de autoridade, ao mesmo tempo que eles pisam nela. A resposta é dada pelo doutor Lemoine numa crônica no rádio: “Quem financiou este estudo que custou tão caro?

Podemos dizer à The Lancet, se vocês publicam este estudo, vocês venderão um milhão de exemplares da revista. Por que esta pressa toda, já que quem leu o estudo sabia que ele era falso?”. Como escreveu em 2013 Richard Smith, editor do British Medical Journal, “a maioria dos estudos científicos são errados, e são errados porque os cientistas só se interessam por financiamento e por sua carreira, mais do que com a verdade”. Arnold Relman, ex-editor da New England Journal of Medicine, escreveu, já em 2002, que “As instituições acadêmicas destes países aceitam ser agentes remunerados da indústria farmacêutica. Eu considero isso uma vergonha”.

Muitos médicos e cientistas resistem a esta dominação do capital financeiro, em detrimento de suas carreiras e sua fama. Nesta coluna, nas últimas semanas, não deixamos de alertar para as supostamente infalíveis “autoridades científicas”. Lembrem-se: o “Conselho Científico” do governo Macron justificou, por razões “científicas” (sic), a decisão política do governo de instaurar o confinamento. Durante semanas, o “Conselho Científico” defendeu o confinamento a unhas e dentes. E agora, numa entrevista ao Journal de Dimanche (Paris), 7 de junho, o presidente do Conselho Científico, Jean-François Delfraissy, declara, a respeito do confinamento, que “essa decisão não foi nossa, ela pertence ao político. Não é uma boa decisão, mas a menos ruim, dadas as ferramentas que tínhamos: 3.000 testes por dia, quando os alemães tinham mais de 50.000. Nós, provavelmente, cometemos erros de avaliação inicial”. Como as coisas são bem ditas, para as falsear! Nós, que defendemos a ciência contra a dominação do capital, e a liberdade científica, não temos confiança alguma, muito pelo contrário, nestas “autoridades científicas” que são, na realidade, instrumentos políticos. Há semanas, Informations Ouvrières procura demonstrar a impostura em curso, o recurso ao argumento da “ciência” para “legitimar” decisões políticas tomadas em função do capital.

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