Interferência dos EUA na Lava Jato é fato

Em 2019, como ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro reúne-se com o Secretário Adjunto do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, David P. Pekoske

O Departamento de Justiça (DoJ) dos Estados Unidos admitiu ter trabalhado com os integrantes brasileiros da Operação Lava Jato, durante os processos que levaram às condenações de Lula, mas não revelou detalhes dessa ação. Em agosto do ano passado, após o início das matérias da série #VazaJato, 13 integrantes do Partido Democrata dos EUA enviaram carta ao procurador-geral William Barr, chefe do DoJ, solicitando esclarecimentos sobre a atuação do órgão no Brasil.

A resposta veio somente neste mês de julho. De acordo com matéria do site “Brasil Wire” reproduzida pela Rede Brasil Atual (disponível em: bit.ly/39yNhOg), a correspondência do DoJ reconhece o fato, mas afirma que “não pode fornecer informações sobre aspectos não públicos desses assuntos”.

Por “aspectos não públicos”, leia-se: interferência indevida. Em 2015, por exemplo, membros do DoJ e do FBI estiveram em Curitiba e até interrogaram brasileiros, juntamente com os procuradores da força-tarefa. Foi uma ação ilegal, porque realizada às escondidas do governo da época (Dilma Rousseff).

Aos poucos, acumulam-se informações sobre a intromissão imperialista no golpe contra Dilma, na condenação de Lula e no ataque à economia nacional por meio da Lava Jato.

Thomas Shannon, que foi embaixador dos EUA no Brasil no governo de Barack Obama, havia citado, em entrevista publicada pelo jornal digital “Poder360” (disponível em: bit.ly/2X8bVQC) em 2019, a preocupação do governo estadunidense com a política do presidente Lula. Segundo o diplomata, havia a avaliação de que a Odebrecht participaria de seu “projeto de poder para o continente”. Isso explicaria, segundo a matéria, “as motivações” dos EUA “em colaborar e subsidiar procuradores no país com informações úteis a investigações que acabaram por atacar um dos motores desse sistema” .

Moro e os EUA
Para a Lava Jato, encontrou-se no então juiz Sergio Moro o condutor do processo político de condenação de Lula. Moro orientava a atuação de procuradores e delegados, comportando-se como uma das partes (a acusação), em vez de agir como juiz imparcial.

Moro tem convivência antiga com instituições estadunidenses. O jornal “The Washington Post” registrou em 2016 que ele havia participado, nove anos antes, de curso “para potenciais líderes” patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA. Telegrama do Wikileaks citou-o como um dos palestrantes de seminário organizado pelo consulado dos EUA no Rio de Janeiro, em 2009, sobre “crimes financeiros ilícitos”.

Depois de conseguir condenar e prender Lula, impedindo-o de participar da eleição presidencial, ele recebeu o cargo de ministro da Justiça de Bolsonaro e a promessa de indicação futura para o Supremo Tribunal Federal (STF). Os processos dos quais Moro participou estão manchados por sua parcialidade e devem ser anulados.

Cláudio Soares