Iraque: o significado da queda de Mossul

O espelho de um sistema mundial em crise.

Em 28 de maio, num discurso na escola militar de West Point, Obama, triunfante, declarou: “Retiramos as tropas do Iraque. Vamos finalizar a guerra no Afeganistão. A direção da Al-Qaeda foi dizimada eBin Laden está morto.” Dias depois, o grupo “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” (ISIL, da sigla em inglês) toma a cidade de Mossul, a segunda do Iraque,e passa a controlar a região onde se situam algumas das maiores reservas de petróleo do País. ISIL é uma milícia ligada à Al-Qaeda que se fortaleceu pela participação na guerra civil provocada pelos EUA para derrubar o regime deBashar al-Assad, na vizinha Síria.

Assim, ISIL vem recebendo financiamento das monarquias petroleiras do Golfo Pérsico, fiéis aliadas dos EUA. Agora, o Iraque está fragmentado em três grandes regiões: um território sunita onde ISIL quer implantar um califado (sistema monárquico dos primórdios das sociedades muçulmanas no qual o poder é exercido pela autoridade política e religiosa do soberano, denominado califa); a região dos curdos que povoam o norte do Iraque e territórios na Síria e Turquia; e, finalmente, a parte sul do país controlada pelo governo “oficial” xiita.

Fator de crise nos EUA

Esse é o resultado da política dos EUA que, em 2003, invadiu o Iraque, desmantelou a infraestrutura econômica e o equilíbrio social e entronizando governos que, como o atual, baseia-se no sectarismo religioso dos xiitas. A queda de Mossul provocou uma crise particularmente nos Estados Unidos. Impotente para manter, ao mesmo tempo, a ocupação militar do Iraque, a guerra no Afeganistão, além de conter a onda revolucionária no Egito e na Tunísia, o imperialismo estadunidense apoiado pelos imperialismos francês e britânico mal enfrenta essa situação com uma política de desagregação dos estados da região.

Para conter o avanço do ISIL, Obama cogitou uma aliança com quem declarava até agora ser seu arqui-inimigo: o governo do Irã (que é xiita, apoia Bashar al-Assad na Síria e é adversário do ISIL). A tentativa de colaboração com o Irã provocou uma crise entre os EUA e seus aliados mais próximos na região, seus “parceiros”, como é o caso do Estado de Israel e a Arábia Saudita. A crise se desenvolve também no interior dos EUA, onde se elevam vozes, não apenas dos republicanos, mas também do próprio partido democrata de Obama que denuncia a paralisia do governo e sua incapacidade de enfrentar os desequilíbrios mundiais.

A queda de Mossul, na verdade, expressa a fraqueza do imperialismo mais poderoso do mundo em crise. Um espelho da imagem da decomposição do regime capitalista Mundial.

Artigo originalmente publicado na edição nº 750 do jornal O Trabalho.