O ano de 1968 no Brasil: movimento estudantil e greves

Vimos em artigos anteriores como 1968 marcou uma virada na situação mundial, em particular com os acontecimentos na Tche­coslováquia e na França, os mais simbólicos do ano, mas que não foram os únicos.

Assim, em 4 de abril de 1968 foi assassinado o líder negro Martin Lu­ther King, que havia liderado mar­chas pela igualdade de direitos nos Estados Unidos. O movimento con­tra a Guerra do Vietnã, iniciado em universidades dos EUA, espalhou-se para outros países como Alemanha, Itália e até Austrália (que enviara tropas ao sudeste asiático). No Mé­xico, às vésperas das Olímpiadas ali ocorridas, o exército promoveu o “massacre de Tlatelolco” abrindo fogo contra 15 mil estudantes que protestavam em 3 de outubro. O Brasil também será marcado por este ano de 1968.

“Mataram um estudante, podia ser seu filho”

Em 28 de março, num protesto de estudantes contra o aumento nos preços do restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, o se­cundarista Edson Luiz é morto com um tiro no peito pela PM. O corpo foi levado em passeata até a Assem­bleia Legislativa, onde foi velado. Protestos estudantis ocorreram em várias universidades e faculdades ao longo do país e o enterro de Edson Luiz parou o Rio de Janeiro.

A missa na Candelária de 4 de abril, em memória de Edson, foi pal­co ao seu final de brutal repressão, com a cavalaria atacando a multidão a golpes de sabre. Em junho, suces­sivas manifestações são reprimidas, até que o comando militar do Rio permite a realização de uma passe­ata no dia 26.

Esta se transformou na “Passeata dos cem mil”, uma enorme ma­nifestação de estudantes, artistas, intelectuais e trabalhadores, encabe­çada por uma grande faixa “Abaixo a Ditadura. O Povo no poder”. Sua força fez com que Costa e Silva, o ditador de plantão, recebesse líderes da “sociedade civil”, dentre eles os estudantes Franklin Martins e José Dirceu, que exigiram a libertação dos presos, o fim da censura e restau­ração das liberdades democráticas.

Nada disso foi aceito, o que provo­cou nova passeata de 50 mil pessoas no Rio. Os protestos se espalharam pelo país e são acompanhados de repressão e prisão de lideranças.

No início de outubro ocorre a “Batalha da Maria Antônia”, em São Paulo, entre estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e da Universidade Mackenzie. Desde julho o prédio da USP estava ocupado pelos estu­dantes. O conflito foi iniciado por jovens direitistas do Mackenzie – ligados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – que atacaram um “pedágio” organizado na rua Maria Antônia pela turma da USP para obter fundos para o congresso da UNE.

Dois dias de “guerra”, com rojões, foguetes e coquetéis molotov joga­dos de lado a lado. Um tiro matou o secundarista José Guimarães, cuja camisa ensanguentada foi levada em passeata até a Praça da Sé onde, nas mãos de José Dirceu, então presidente da UEE, foi agitada para denunciar a ditadura assassina, “que armou alguns mackenzistas, os do CCC, contra universitários verdadeiros”. O prédio da Filoso­fia foi incendiado, o que causou a transferência da faculdade para instalações improvisadas (os “bar­racos”) na Cidade Universitária.

Em 12 de outubro a polícia cerca e prende cerca de 800 estudantes que iriam realizar o 30º congresso da UNE em Ibiúna (SP), incluindo os principais líderes do movimento.

O 1968 operário: Contagem e Osasco

Em 16 de abril de 1968 é iniciada a greve metalúrgica em Contagem (MG), envolvendo em dez dias cer­ca de 1.200 trabalhadores por um reajuste salarial de 25%. Em 24 de abril, policiais militares tomaram a região e os operários foram ameaça­dos de demissão sumária. O movi­mento terminou no dia 26 de abril.

Os trabalhadores conquistaram 10% de reajuste, abaixo da pauta, mas uma vitória frente à política de arrocho salarial imposta pela ditadura.

Na semana seguinte, no 1º de Maio de 1968, centenas de operários de Osasco (SP) vão ao ato “oficial” da Praça da Sé levando faixas “Minas é exemplo de luta” e “Só a greve der­ruba o arrocho”. Organizados pelo Sindicato dos metalúrgicos, eles estavam armados com paus, barras de ferro e pedras para impedir que o governador Abreu Sodré falasse e assim acabar com a farsa montada pelos pelegos e a ditadura. O go­vernador fugiu debaixo de pedras e ovos podres. Os operários tomaram o palanque, discursaram contra a ditadura e saíram em passeata pelo centro da cidade.

Em 16 de julho começou a greve em Osasco. A direção do sindicato, cujo presidente era José Ibrahim, decidiu adiantar a mobilização para a data base que era em novembro, deflagrando greve com ocupação de fábrica na Cobrasma e Lonaflex, logo sendo acompanhadas pelos operários da Barreto Keller, Granada e Osram.

A reação da ditadura foi imediata, pois era o mesmo sindicato que a havia humilhado no 1ª de Maio. A Cobrasma é invadida pela cavalaria, mas mesmo com a violenta repres­são militar, no dia seguinte operá­rios da Braseixos, Brown Bo­veri, Cimaf e Eternit entram em greve em solidariedade.

Mas, o movimento come­ça a refluir no dia 18, com as prisões e desocupações das fábricas. Osasco estava sitiada pelo exército e cerca de 50 militantes e dirigentes foram presos. José Ibrahim conseguiu fugir, vai para a clandestinidade até sua prisão em fevereiro de 1969.

Os dirigentes da greve, vin­culados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) como Ibrahim, pensavam criar um “foco” de resistência na Co­brasma para estimular outras greves no eixo industrial, uma espécie de “foquismo sindical”. Mas a rápida repressão militar não dei­xou tempo e nem espaço para tanto. De todo o modo, a greve de Osasco em 1968 vai influenciar toda uma geração de sindicalistas que vai se dedicar à construção de comissões de fábrica clandestinas nos anos de chumbo da ditadura.

O Ato Institucional nº 5

O pretexto imediato para a edição por Costa e Silva do AI-5 foi o dis­curso do deputado federal Márcio Moreira Alves de 2 de setembro de 1968 em que atacava o “militaris­mo” e pedia ao povo não participar das comemorações do Dia da Inde­pendência. Sua razão de fundo era a de controlar a situação diante das mobilizações estudantis e greves ocorridas ao longo do ano, de acor­do com a receita da “linha dura” das Forças Armadas.

O AI-5 editado em 13 de dezem­bro foi o mais duro de todos os Atos Institucionais com os quais a dita­dura governou desde que assumiu o poder. Ele resultou na perda de man­datos de parlamentares contrários ao regime militar, intervenções nos municípios e estados, suspensão de todas as garantias constitucionais, permitindo a institucionalização da tortura como instrumento de Estado. O AI-5 só será revogado em 13 de outubro de 1978, já no go­verno de Ernesto Geisel, através da emenda constitucional nº 11, com a ressalva de que os atos praticados com base nos atos institucionais “es­tão excluídos de apreciação judicial”.

 Lauro Fagundes