O Método Histórico

Paul Lafargue •  

I – As Críticas Socialistas

Marx, depois de cerca de meio século, propôs um novo método de interpretação da História, o qual ele e Engels aplicaram em seus estudos. O que é uma hipótese plausível é que os historiadores, os sociólogos e os filósofos, temendo que o pensador comunista “corrompesse suas consciências”, fazendo perderem os favores que recebiam da burguesia, resolveram ignorá-lo. Mas é estranho que alguns socialistas hesitem em usar tal método, por temor de, possivelmente, chegar a conclusões que molestem suas ideias burguesas, pelas quais são prisioneiros pela ignorância. Em vez de primeiro experimentá-lo, para depois somente julgá-lo – tendo-o experimentado – preferem discutir o valor do método em si, abstratamente, e assim descobrem nele inumeráveis defeitos: o Método Histórico desconhece – dizem – o ideal e sua ação: animaliza as verdades e os princípios eternos; não tem em conta o indivíduo, seu destino e seu papel; conduz a um fatalismo econômico que absolve o homem de todo esforço, etc. Que pensariam estes camaradas de um carpinteiro que, em lugar de trabalhar com seus martelos, serras e com os instrumentos postos a sua disposição, ficasse a buscar as “falhas de carpintaria”, minuciosamente? Como não existe ferramenta perfeita, teriam muito a criticar. A crítica deixa de ser fútil para converter-se em fecunda só quando acontece depois da experiência, que é melhor que os mais sutis raciocínios, fazendo perceber as imperfeições e ensinado a corrigi-las. O homem serviu-se primeiramente do grosseiro martelo de pedra e o uso deste ensinou-lhe a transformá-lo em mais de uma centena de tipos, diferentes pela matéria prima, peso e forma.

Leucipo e seu discípulo Demócrito, cinco séculos antes de Jesus Cristo, introduziram a concepção de átomo para a compreensão da constituição do Espírito e da matéria. Durante mais de dois mil anos, os filósofos, em lugar de pensar em recorrer à experiência para provar a hipótese atômica, discutiram sobre o átomo em si, sobre o pleno da matéria, indefinidamente contínua, sobre o vazio e o descontínuo, etc. e foi somente no final do século XVIII quando Dalton, utilizando a concepção de Demócrito, explicou as combinações químicas. O átomo, com o qual os filósofos nada souberam fazer ou criar, converteu-se, nas mãos dos químicos, em “uma das mais potentes ferramentas de investigação que a razão humana já tenha criado”. Mas é aqui, somente depois do uso, que este maravilhoso achado é chamado de “imperfeito”. A radioatividade da matéria obriga os físicos a pulverizar o átomo, que era tido como a partícula última, indivisível e impenetrável da matéria, em partículas “ultraúltimas”, que têm a mesma natureza em todos os átomos e portadores de eletricidade: os elétrons (“atomúsculos”), mil vezes menores que o átomo de hidrogênio, o menor de todos os átomos, o qual gira numa velocidade extraordinária ao redor de um núcleo central, como fazem os planetas e a Terra em torno do Sol. O átomo seria um minúsculo sistema solar e os elementos químicos que conhecemos diferem entre si simplesmente pelo número e pela velocidade dos movimentos giratórios de seus elétrons. Os recentes descobrimentos acerca da radioatividade, que transtornam as leis fundamentais da física e da matemática, arruinaram a base atômica do edifício químico.

Não se pode citar um exemplo mais evidente da esterilidade de discussões verbais e abstratas contra a fecundidade da experiência prática. Só com a ação o raciocínio é fecundo no mundo material e intelectual. No princípio foi a ação.

O determinismo econômico é uma nova ferramenta posta por Marx à disposição dos socialistas para estabelecer um pouco de ordem na desordem dos fatos históricos, que os antigos historiadores e filósofos foram incapazes de classificar e explicar. Seus preconceitos de classe e sua estreiteza de espírito deram aos socialistas o monopólio desta ferramenta. Mas estes, antes de manejá-la, querem convencer-se que ela é absolutamente perfeita e que pode converter-se na chave de todos os problemas da História; desta maneira podem – ainda que esta tarefa leve toda sua existência – continuar escrevendo artigos e volumes sobre o materialismo histórico, sem avançar em uma só ideia sequer para resolver o problema.

Os homens de ciência não são tão covardes; pensam eles que “desde o ponto de vista prático, é de importância secundária que as teorias e as hipóteses sejam corretas, sempre que os resultados estejam de acordo com os fatos1. A verdade é que, depois de tudo, o erro é o caminho mais curto para chegar-se a um descobrimento. Cristóvão Colombo, partindo de um erro de cálculo cometido por Ptolomeu sobre a circunferência da Terra, descobriu a América, quando pensava estar chegando às Índias Orientais. Darwin reconhecia que a primeira ideia de sua teoria da seleção natural foi lhe sugerida pela falsa lei de Malthus sobre a população, a qual aceitou de olhos fechados. Os físicos podem dizer que a hipótese de Demócrito é insuficiente para compreender os fenômenos recentemente estudados, mas nunca dizer que não tenha servido para edificar a química moderna.

Marx – e este é um ponto que é pouco realçado – não apresentou seu método como um “corpo de doutrinas e axiomas”, teoremas, corolários e lemas, muito menos com aspirações de perfeição; o método é para ele tão somente um instrumento de investigação; o formula em um estilo lapidário e o põe a prova. Não pode ser criticado, portanto, senão colocando em dúvida os resultados que obteve, refutando, por exemplo, sua teoria da luta de classes. E é dela que seus críticos atentam, pois que historiadores e filósofos têm o marxismo como obra “impura”, “do demônio”, precisamente porque o método conduziu Marx ao descobrimento deste potente motor da História humana.

II – FILOSOFIAS DEÍSTA E IDEALISTA DA HISTÓRIA

A História, do ponto de vista deísta e idealista, é um caos de fatos, totalmente fora do controle humano, progressivos e regressivos, que se chocam e entrechocam, aparecem e desaparecem sem razão aparente, sendo impossível ligá-los entre si, classificá-los até chegar-se a descobrir as causas da evolução e da revolução.

O fracasso das sistematizações históricas tem provocado no espírito de homens como Helmholtz a dúvida sobre “se é possível formular uma lei histórica que a realidade confirmasse2. Esta dúvida é tão generalizada que os intelectuais já não se aventuram a construir – assim como os filósofos da primeira metade do século XIX – planos de História Universal3. Por outra parte, é um fato, entre os economistas, a incredulidade sobre a possibilidade de controlar as forças econômicas. As dificuldades do problema histórico e os fracassos na tentativa de resolvê-lo fazem com que devemos deduzir, inexoravelmente, que a sua solução está fora do espírito humano? Os fenômenos sociais instituíram, pois, uma exceção, e seriam os únicos que não poderiam ser conhecidos logicamente em suas causas e limites?

O senso comum não tem admitido jamais tal impossibilidade; pelo contrário, os homens têm crido em todas as épocas que o que lhes acontece faz parte dos desígnios de um Poder Superior. O homem faz e Deus desfaz é um provérbio histórico da sabedoria popular, que contém tanta verdade como os axiomas idealistas da geometria, não obstante, na condição de interpretar-se o significado da palavra Deus.4

Todos os povos pensavam que Deus dirigia sua História. As cidades da antiguidade possuíam, cada uma, uma “divindade municipal”, a poliada como diziam os gregos, que velava sobre seus destinos e habitava o templo que a ela havia sido consagrado. Jeová (ou Iawé), o Deus hebraico do Antigo Testamento, era uma divindade desta classe, de forte conteúdo tribal. Vivia em um cofre de madeira, chamado a Arca da Aliança5, que era transportado quando as tribos de Israel mudavam de lugar. Era também colocada à frente do exército para combater por seu povo. Tomava, diz a Bíblia, tão a sério suas querelas que exterminava entre seus inimigos homens, mulheres, crianças e animais. Os romanos, durante a segunda Guerra Púnica, acreditaram ser conveniente, para combater Aníbal, duplicar sua divindade poliada com a de Pesiononte, que era Cibeles, a “Mãe dos Deuses”6. Trouxeram sua imagem, desde a Ásia Menor, que era uma enorme e informe pedra e introduziram em Roma seu culto orgiástico. Como os romanos eram tão espertos politicamente como eram supersticiosos, apoderavam-se das divindades poliadas das cidades que conquistavam, enviando sua estátua ao Capitólio, pensando que, deixando de habitar junto ao povo vencido, cessaria de protegê-lo7.

Os cristãos não tinham outra ideia de divindade quando, para combater os deuses pagãos, destruíam suas estátuas e incendiavam seus templos, quando rogavam a Jesus e a seu Pai Eterno que combatessem os demônios suscitadores de heresias, a Allah, ou qualquer um que opunha o crescente à cruz8. As cidades medievais eram consagradas e colocadas debaixo da proteção de divindades poliadas; Santa Genoveva era a de Paris. A República de Veneza, para possuir abundantes divindades protetoras, trouxe de Alexandria o esqueleto de São Marcos e roubou de Montepellier o de São Roque. As nações civilizadas não renegaram ainda esta “ciência pagã”; cada uma monopoliza, para seu próprio uso, o Deus único e universal do cristianismo, fazendo-o sua divindade poliada, de modo que há tantos “deuses únicos e universais” como nações cristãs, as quais se destruem entre si quando declaram guerra. Cada uma roga a seu Deus único e universal que extermine seu rival e cantam os Te Deum9 se vencem, convencidos de debitar seu triunfo a sua Todo-Poderosa intervenção10. A crença na ingerência de Deus nas disputas humanas não é “simulada” pelos homens de Estado para “agradar a superstição grosseira das massas ignorantes”; eles mesmos participam destas crenças; as cartas íntimas de Bismarck, publicadas recentemente, escritas para sua mulher durante a guerra de 1870-71, mostrava que ele acreditava que Deus passava todo o tempo ocupando-se dele, de seu filho e dos exércitos prussianos.

Os filósofos que tomaram a Deus por guia e diretor da História também participam desta superstição, imaginando que este Deus, criador do universo e da humanidade, não pode interessar-se por outra coisa senão por sua Pátria, Religião e Política. No seu Discurso sobre a História Universal, Boussuet nos dá uma das mostras mais características do gênero. Os povos pagãos exterminam-se entre si para preparam a chegada de sua religião, o cristianismo, e as nações cristãs se matam para assegurar a grandeza da França, sua Pátria e a glória de Luís XIV, seu amo. O movimento histórico, guiado por Deus, dirigia o Rei Sol. Quando ele morreu, as trevas invadiram o mundo, e a Revolução Francesa, que José de Maistre chama de “obra de Satanás”, eclode.

Satanás triunfa sobre Deus, divindade poliada dos aristocratas e dos Borbons. A burguesia, classe que esse Deus tinha em pouca estima, apodera-se do poder e guilhotina o rei, que era sagrado; as ciências naturais, que eram malditas, triunfam e geram para os burgueses mais riquezas que as que Deus havia disposto a seus protegidos, os nobres e os reis legítimos; a Razão, que havia sido oprimida, rompe suas algemas e arrasa seus negócios. O “reino de Satanás” começava. Os poetas românticos, da primeira metade do século XIX, compunham hinos de louvor a Satã, o indomável vencido, o mártir grandioso, o consolo e a esperança dos oprimidos; ele simbolizava a burguesia em perpétua revolta contra a nobreza, os padres e os tiranos. Mas a burguesia vitoriosa não o adotou como divindade poliada; remendou a Deus, que a razão havia negado, e restabeleceu sua honra e culto. No entanto, não tendo tanta fé em sua Onipotência, agregou-lhe um rebanho de semideuses – Progresso, Justiça, Liberdade, Civilização, Humanidade, Pátria, etc. – que foram encarregados de presidir os destinos das nações, tendo já sacudido o jugo da aristocracia. Estes novos deuses são as ideias, as “ideias-forças”, as “forças imponderáveis”.

Hegel tentou conduzir este politeísmo das ideias ao “monoteísmo da Ideia”, a qual, nascida de si mesma, cria o mundo e a História, evoluindo a partir de si mesma.

O Deus da filosofia espiritualista é um mecânico que, para sua distração, constrói o mundo e o universo regulando seus movimentos, fabrica o homem, dirigindo seus destinos, segundo um plano só conhecido por ele. Mas os historiadores-filósofos não se aperceberam que este Deus eterno e criador não é senão criatura do homem que, a medida que se desenvolve, o reforma e, longe de ser o diretor, é um joguete dos acontecimentos históricos.

A filosofia dos idealistas, de aparência menos infantil que a dos deístas, é uma desgraçada aplicação à História do método dedutivo das ciências abstratas, cujas proporções, logicamente encadeadas, fluem de alguns axiomas indemonstráveis, que se impõe pelo “princípio da evidência”. Os matemáticos cometem a injustiça de não preocupar-se com a maneira como embutiram suas ideias na cabeça humana. Os idealistas desdenham a investigação da origem de suas ideias, não se sabe vindas de onde, limitando-se a afirmar que existem por si mesmas, que estão num processo de aperfeiçoamento e, à medida que avançam, modificam os homens e os fenômenos sociais, que estão sob seu controle. Nesta lógica, não é necessário mais do que conhecer a evolução das ideias para adquirir as leis da História. Foi desta maneira que Pitágoras chegou a conclusão que o conhecimento das propriedades dos números levaria diretamente ao conhecimento das propriedades dos corpos.

Justo porque os axiomas matemáticos não são demonstráveis pelo raciocínio, não se prova com eles que não são propriedades dos corpos, da mesma maneira que a forma, a cor, o peso e a temperatura, que só a experiência revela e cuja ideia existe no cérebro humano, por este ter-se posto em contato com a natureza. É, assim, tão impossível provar pelo raciocínio que um corpo é quadrado, colorido, pesado ou quente, como demonstrar que a parte é menor que o todo, que dois mais dois são quatro, etc. Só se pode comprovar o fato experimental e dele tirar as consequências lógicas11 correspondentes.

As ideias de Progresso, de Justiça, de Liberdade, de Pátria, etc. da mesma forma como acontece com os axiomas matemáticos, não existem “por si mesmas” e fora do plano experimental; elas não procedem senão que da própria experiência; não formam os fenômenos históricos, mas são consequências dos mesmos, os quais, em sua evolução, as criam, as transformam ou as suprimem; não se convertem em forças ativas porque procedem do meio social. Uma das tarefas do estudo histórico, do qual não se interessam os filósofos, é a descoberta das causas sociais que dão nascimento às Ideias e o seu poder de ação sobre os cérebros de homens de determinada época.

* * *

Bousset e os filósofos deístas, que promoveram Deus à dignidade de diretor consciente do movimento histórico, não fizeram mais nada além de confirmar a opinião popular sobre o papel histórico da divindade. Os idealistas, que por sua vez o substituem pelas “Ideias-força”, não fazem mais que utilizar historicamente a opinião vulgar burguesa. Todo burguês proclama que suas ações, públicas ou privadas, são inspiradas nos ideais de Progresso, Justiça, Pátria, Humanidade, etc. Não precisa de outra coisa para convencer-se do que repassar nos anúncios de industriais e negociantes, nas negociações das ações dos financistas e nos programas eleitorais dos políticos.

As ideias de Progresso e de Evolução são de origem moderna, nada mais que uma transposição para a História da perfectibilidade humana, muito em moda no século XVIII. A burguesia devia, fatalmente, considerar sua chegada ao poder como um imenso progresso social, ao mesmo tempo em que a aristocracia opunha-se a este fato como um desastroso retrocesso. A Revolução Francesa, porque ocorreu mais de um século depois da Revolução Inglesa e, em conseqüência, em condições mais maduras, substituiu de forma tão brusca e tão completa a nobreza pela burguesia, que desde então a ideia de Progresso implantou-se de vez na Europa. Os burgueses tributam a si a qualidade de fundadores do poder do Progresso. Afirmam – de boa fé – que seus hábitos, costumes, moral privada e pública, organização social e familiar, indústria e comércio, superam – de longe – tudo que antes existiu. O passado não é outra coisa senão o tempo da ignorância, barbárie, injustiça e irracionalidade: “Em fim, pela primeira vez – gritava Hegel – a Razão veio para governar o mundo”.

Os burgueses de 1793 a deificaram; já, no princípio do período burguês no mundo antigo, Platão declarava a Razão superior à Necessidade (Timea) e Sócrates contestava Anexágoras por ter explicado toda sua cosmogonia por causas materiais, sem ter feito nenhum emprego da Razão, da qual se pode esperar tudo (Fedón). O domínio da burguesia é o reino da Razão.

Mas um acontecimento histórico, ainda que seja tão importante como a ascensão ao poder da burguesia, não alcança, por si só, a qualidade de prova do Progresso. Os deístas haviam feito de Deus o único autor da História; os idealistas, não desejando que fosse possível afirmar que o Progresso havia se comportado no passado como uma Ideia preguiçosa, descobriram que, durante a Idade Média, ele havia preparado o triunfo da burguesia, organizando-a, dando-lhe cultura intelectual e enriquecendo-a, ao mesmo tempo de desgastava as forças ofensivas e defensivas da aristocracia e demolia, pedra por pedra, a fortaleza da Igreja. A ideia de evolução devia, pois, introduzir-se na continuidade da Ideia de Progresso.

Mas para a burguesia não há mais evolução progressiva do que aquela que preparou seu triunfo. E como os historiadores não podem comprovar seu desenvolvimento orgânico a não ser através de uma dezena de séculos, perderam o fio de Ariadna quando se aventuraram no decálogo da história anterior, da qual se conformaram em narrar os fatos12, sem colocá-los numa ordem progressiva. Como o ponto de chegada da evolução do Progresso histórico é a instalação da ditadura social burguesa, esse deve cessar sua evolução: com efeito, os burgueses proclamam que sua tomada do poder é um progresso social único na História, declarando que seria um retorno à barbárie, “a escravidão” como disse Herbert Spencer, se a burguesia for desalojada pelo proletariado13. A aristocracia vencida, por sua vez, não havia considerado de outra maneira sua derrota. A crença na detenção do Progresso, instintiva e inconsciente nas massas burguesas, manifesta-se consciente e arrazoada nos pensadores da burguesia.

Hegel e Comte, para citar somente os mais célebres, afirmaram rotundamente que seus sistemas filosóficos encerravam a série, que eram o coroamento e o fim da evolução progressiva do pensamento. Assim, filosofia e instituições sociais e políticas progrediram até chegar ao estágio da forma e conteúdo que a burguesia lhes deu; logo, o Progresso não progrediria mais.

A burguesia e seus mais inteligentes intelectuais, que fixaram limites intransponíveis ao desenvolvimento do Progresso, fazem, todavia, algo melhor: retiram a influência que têm os organismos sociais de primeira importância. Os economistas, historiadores e moralistas, para demonstrar de forma cabal que o modelo paternal de família e a forma individual de propriedade não se transformarão, afirmam que eles existiram desde toda a eternidade. Emitem estas imprudentes afirmações no momento em que as investigações empreendidas já há meio século revelam à luz as formas primitivas de família e propriedade, diversas, por óbvio, das formas burguesas. Estes sábios burgueses as ignoram, ou ocultam propositadamente tais informações.

As ideias de Progresso e de evolução tiveram seu apogeu de forma extraordinária durante os primeiros anos do século XIX. Nesta época, a burguesia estava embriagada com suas vitórias políticas e com o prodigioso desenvolvimento das forças produtivas. Filósofos, historiadores, moralistas, políticos, escritores e poetas adaptavam suas obras à dança do Progresso em evolução, da qual Fourier era o único, ou quase o único, a afastar-se. Mas quase na metade do século tiveram que acalmar seu entusiasmo. A aparição do proletariado no cenário político na Inglaterra e na França criou no espírito da burguesia algumas inquietudes acerca da eterna duração de seu domínio sobre a sociedade. O “Progresso” perdia seus encantos. As ideias de Progresso e Evolução deixaram de ter curso na fraseologia burguesa, não fosse o fato de que os homens da Ciência haviam se apoderado da ideia de evolução – que circulava na sociedade para explicar da formação dos mundos à organização dos animais e vegetais – dando-lhe um valor científico tais que foi impossível à burguesia escamoteá-los.

Mas comprovar o desenvolvimento progressivo da burguesia, em certo número de séculos, não explica este movimento histórico, do mesmo modo que um gráfico que traça linha da queda de uma pedra não revela as razões desta queda. Os historiadores-filósofos atribuíram a esta evolução à ação incessante das “Ideias-força”, principalmente a da Justiça, a mais forte de todas, a qual, segundo um filósofo tão idealista quanto acadêmico “está sempre presente, a pesar de que ela não chega ao pensamento humano e aos fatos históricos senão em graus”. A sociedade e a Justiça burguesas não senão, pois, as últimas e mais altas manifestações de uma “Justiça Imanente”, esta “Dama” que, para obter estes maravilhosos resultados, trabalhou durante séculos nos subterrâneos da História.

Consultemos, pois, o expediente judicial da citada “Donzela” para nos inteirarmos de seu caráter e de seus costumes.

Uma classe dominante considera sempre que o que serve aos seus interesses econômicos é justo, sendo o que os prejudica, injusto. A “Justiça” que ela preconiza se realiza quando seus interesses de classe são satisfeitos. Os interesses da burguesia são, pois, os guias da Justiça burguesa, como os da aristocracia eram os da Justiça feudal. Assim, por uma ironia inconsciente, o símbolo da Justiça é uma mulher com os olhos vendados, para que não possa enxergar os sórdidos e mesquinhos interesses que protege com seu escudo.

A organização feudal e corporativa, lesionando os interesses da burguesia era, segundo a própria burguesia, tão injusta que sua “Justiça imanente” resolveu destruí-la. Os historiadores burgueses narram que ela não podia tolerar os roubos a mão armada dos barões feudais, os quais não conheciam outros meios de aumentar sua posse de terras e encher os bolsos. No entanto, nada impede que a mesma honesta “Justiça” seja completamente cega para ver os roubos à mão armada que, sem rasgar sua pele, os pacíficos burgueses fazem os proletários – travestidos de soldados – cometerem em seu nome, nos países atrasados do antigo e novo mundo. Não é este gênero de roubo que gosta a virtuosa “Dama”; ela não o aprova solenemente e não o autoriza, com todas as sanções legais mais que o roubo econômico que, sem barulhenta violência, a burguesia pratica diariamente sobre o trabalho assalariado. O roubo econômico convém tão perfeitamente ao temperamento e ao caráter desta Justiça que ela transforma-se no cão de guarda da riqueza burguesa, pois esta é uma acumulação de roubos tão legais quanto justos.

A Justiça que, no dizer dos filósofos, fez maravilhas no passado, que reina na sociedade burguesa a conduzir o homem para um futuro de paz e felicidade é, pelo contrário, uma fértil parideira de iniquidades sociais. Foi a Justiça que deu ao homem escravista o direito de possuir outro homem na condição de “coisa” (latim: res). Foi esta mesma Justiça que abençoou o sagrado direito do capitalista explorar as crianças, as mulheres e os homens proletários, tais como animais de carga. Foi a Justiça que permitiu ao amo castigar o escravo, que endurecia seu coração enquanto desfechava seus golpes. É também ela que autoriza o capitalista a apoderar-se da mais-valia criada pelo trabalho assalariado e que tranqüiliza sua consciência quando paga salários de fome ao trabalhador que o enriquece. “Estou no meu direito” – dizia o senhor de escravos ao castigá-lo – “estou no meu direito”, diz o capitalista quando rouba do assalariado o fruto de seu trabalho.

A burguesia, confundindo toda a realidade consigo mesma, passa um verniz de “Civilização e Humanidade” em sua ordem social e na sua maneira de tratar os seres humanos. Para exportar sua civilização aos povos “bárbaros”, tirando-os de sua grosseira imoralidade e melhorar suas condições de vida, empreende suas expedições coloniais levando sua “Civilização e Humanidade”, que se manifestam sob a forma do embrutecimento pelo cristianismo, do envenenamento por álcool e o no despojo e genocídio dos povos indígenas.

Mas equivocam-se aqueles que pensam que somente os “bárbaros” são favorecidos com “Civilização e Humanidade” burguesas, não sendo as mesmas benesses repartidas entre os trabalhadores dos países que domina. Estes benefícios são medidos pela massa de homens, mulheres e crianças despossuídos de todos os bens, condenados ao trabalho forçado, diuturno, ao desemprego periódico, ao alcoolismo, à tuberculose, ao raquitismo, ao crescente número dos índices de delitos e crimes, à multiplicação de hospícios e ao desenvolvimento e “aperfeiçoamento” do sistema carcerário.

Jamais nenhuma classe dominante fez tanto alarde do “Ideal”, porque jamais nenhuma outra classe dominante teve tanta necessidade de mascarar sua verborragia idealista. Este charlatanismo ideológico é o mais seguro e eficaz meio de fraude política e econômica. A flagrante contradição entre palavras e fatos não impediu aos historiadores e filósofos tomar as “Ideias” e os “Princípios Eternos” como as únicas forças motrizes das nações dominadas pela burguesia. Seu erro monumental, que ultrapassa a medida permitida pelos mesmos intelectuais, é uma prova incontestável da ação que exercem ideias, e da astúcia com que a burguesia soube cultivar e explorar esta força para tirar delas os benefícios que lhe interessavam. Os financistas levam os anuários de suas instituições bancárias de princípios patrióticos, de ideias civilizadoras, de princípios humanitários, de investimentos de pais de família a 6%; estas são iscas infalíveis para atrair dinheiro.

Lesseps pode realizar os mais soberbo “Panamá” do século e apoderar-se das economias de 800.000 pequenos investidores, porque este “Grande Francês” prometia agregar uma auréola de glória da Pátria, ampliar a humanidade civilizada e enriquecer seus parceiros.

As ideias e os princípios eternos são apresentados de forma tão irresistível, que não existe propaganda financeira, industrial, comercial, anúncio de bebida alcoólica ou remédio nas quais elas não estejam atuando, como o propósito de aumentar seus preços. No entanto, traições políticas e fraudes econômicas mancham a bandeira das “Ideias e Princípios”14.

A filosofia histórica dos idealistas não podia ser outra coisa senão uma logomaquia15 tão insípida como indigesta, porque eles não se aperceberam que os burgueses ostentam os “princípios eternos” para mascarar os motivos egoístas de suas ações, não tendo captado a natureza charlatã da ideologia burguesa. Mas os abortos lamentáveis da filosofia idealista não provam de forma alguma que se possa chegar a leis determinantes da organização das sociedades humanas, como os químicos chegaram às leis de combinação dos átomos nos elementos compostos.

O mundo social – disse Vico, pai da filosofia da História – é certamente obra do homem, da onde resulta que se pode e se deve encontrar as origens e as modificações na própria inteligência humana… Todo homem que raciocina não achará estranho que os filósofos tenham empreendido seriamente a tarefa de conhecer o mundo e a natureza que Deus fez e para a qual reservou a ciência para conhecê-lo, esquecendo-se de usar a mesma para meditar sobre o mundo social, no qual os homens podem fazer ciência, muito embora não seja Deus, mas os homens que o fazem”16.

Os numerosos fracassos dos métodos deísta e idealista impõem o estudo de um novo método de interpretação da História.

III – Leis Históricas de Vico

Vico, autor que quase nenhum historiador ou filósofo lê, apesar de passarem de livretos a livretos em seus corsi i ricorsi duas ou três sentenças a mais, ademais tão mal interpretadas como repetidas, aquilo que foi formulado na Ciência Nova como leis fundamentais da História.

Vico tem como certa, como uma lei geral do desenvolvimento das sociedades, que todos os povos, qualquer que seja sua origem étnica ou sua situação geográfica, marcham pelos mesmos caminhos históricos, de maneira que a História de um povo qualquer é uma repetição da História de outro povo, cada qual no seu devido grau de desenvolvimento.

Existe – disse – uma história ideal interna, a qual recorrem as histórias de todas as nações, qualquer que seja seu estado de selvagismo, barbárie e ferocidade do qual partem os homens até civilizarem-se”, para domesticarem-se, ad addimesticarsi, segundo sua própria expressão (Ciência Nova, livro II, parágrafo)17.

Morgan, que provavelmente não conhecia Vico, chegou à concepção da mesma lei, só que de uma maneira mais positiva e completa. A uniformidade histórica dos diferentes povos que o filósofo napolitano atribuía seu desenvolvimento a um plano pré-estabelecido, o antropólogo americano atribuí a duas causas, a semelhança intelectual dos homens e a semelhança dos obstáculos que tiveram que vencer para desenvolver suas sociedades. Vico também acreditava numa semelhança intelectual de todas as nações. “Existe necessariamente – disse – na natureza das coisas humanas, uma língua universal mental, comum a todas as nações, a qual designa de forma uniforme a substância das coisas que jogam papel ativo na vida social dos homens e se expressa em tantas modificações como nos diferentes aspectos que podem tomar as coisas. Comprovamos sua existência nos provérbios, estas máximas de sabedoria popular que tem a mesma substância em todas as nações, antigas ou modernas, a pesar de serem expressados de maneira diferente” (Degli Elem…, XXII)

O espírito humano, disse Morgan, é especificamente o mesmo em todas as nações, tribos mas limitado no tocante à extensão de suas forças. Trabalha, e deve trabalhar nas mesmas vias uniformes nos estreitos limites da variabilidade. Os resultados aos quais chega, em países separados por espaço e tempo, formam os anéis de uma cadeia contínua e lógica de experiências comuns (…). O mesmo que acontece com as sucessivas formações geológicas, as tribos da humanidade podem estar sobrepostas em escalões sucessivos de acordo com seu desenvolvimento; classificadas dessa maneira, revelam com um certo grau de certeza a marcha completa do progresso humano, do estado selvagem à civilização”, pois, “o curso das experiências humanas têm marchado por caminhos quase uniformes”. Marx, que estudou o curso das “experiências” econômicas, confirma a ideia de Morgan. “O país mais desenvolvido industrialmente – afirma no prefácio de O Capital – mostra aos que o seguem a imagem de seu próprio futuro”.

Assim, pois, “a História Ideal Eterna”, que, segundo Vico, deve recorrer, cada um por sua vez, os diferentes povos da humanidade, não é um plano histórico pré-estabelecido por uma inteligência divina, mas sim um plano histórico do progresso humano, concebido pelo historiador, quem, depois de haver estudado as etapas percorridas por cada povo, faz o cotejo entre elas e estabelece séries progressivas, segundo seu grau de complexidade.

As investigações contínuas desde um século sobre as tribos selvagens, sobre povos antigos e modernos, demonstraram triunfalmente a exatidão da lei de Vico; está estabelecido que todos os homens, seja qual for sua origem étnica, sua localização geográfica, desenvolveram-se atravessando as mesmas formas de vida familiar, de propriedade e de produção, bem como as mesmas instituições sociais e políticas. Os antropólogos dinamarqueses foram os primeiros a comprovar o fato e dividir o período pré-histórico em idades sucessivas: idade da pedra, do bronze e do ferro, a qual ganham o nome de acordo com a matéria prima dos bens manufaturados e, em conseqüência, do modo de produção. A História Geral dos diferentes povos – quer pertençam à raça branca, negra, amarela ou vermelha, quer habitem na zona temperada, tropical ou polar – não se distinguem senão pelo estágio em que se encontram na História Ideal de Vico, na etapa histórica de Morgan – atravessando a escala econômica de Marx – aos quais eles tenham chegado, de maneiras que o povo mais desenvolvido mostra aos menos desenvolvidos a imagem de seu futuro.

Os produtos da inteligência não escapam à lei de Vico. Os filósofos e os gramáticos afirmam que, no processo de criação de palavras e línguas, os homens de todas as raças seguiram as mesmas regras. Os folcloristas têm colecionado entre povos selvagens e civilizados os mesmos mitos; Vico já havia encontrado entre eles os mesmos provérbios. Muitos folcloristas em lugar de considerar os mitos similares como produções de povos conservadas pela tradição oral, levantam a hipótese de que foram gerados em um centro único, de onde expandiram-se por sobre a Terra. Isso é inadmissível e está em contradição com o que se observa nas instituições sociais e outras produções tanto intelectuais como materiais.

A história da “ideia da alma” e de todos os mitos os quais ela gerou, é um dos mais curiosos exemplos da notável uniformidade do desenvolvimento do pensamento. A “ideia da alma”, que se encontra entre os selvagens, até nos mais inferiores, é uma das primeiras invenções intelectuais. Uma vez inventada a alma, fez-se necessário arranjar-lhe uma morada sobre a Terra e também no Céu, para hospedá-la até a morte a fim de impedi-la de vagabundear sem domicílio e importunar os vivos. A ideia da alma, muito viva entre selvagens e bárbaros, depois de haver contribuído para a fabricação da ideia do “Grande Espírito” e de Deus, desapareceu entre os povos que chegaram a um grau superior de desenvolvimento, para renascer com uma vida e uma força renovadas quando chegam a outra etapa de sua evolução. Os historiadores, depois de terem assinalado que não havia ideia de alma entre as nações da bacia do Mediterrâneo, afirmaram que esta existiu durante períodos selvagens anteriores, comprovando, também, seu renascimento alguns séculos depois da Era Cristã, bem como sua existência até nossos dias. Contentaram-se em narrar estes fenômenos de aparição e desaparecimento de uma ideia tão importante e, sem sonhar em buscar uma explicação, a qual não poderiam encontrar no campo de suas investigações, pois que não se pode ir mais além sem que aplique-se o método histórico de Marx, o qual busca as transformações do mundo econômico.

Os sábios que descobriram as formas primitivas de família, propriedade e instituições políticas, estavam por demais ocupados para inquirir acerca dos mecanismos de sua transformação. Eles fizeram uma história descritiva, sendo que, no entanto, a história social deve ser tanto descritiva quanto explicativa.

Vico pensava que o homem é o motor inconsciente da História e que seriam seus vícios, não suas virtudes, a essência de suas forças vivas. Não são a generosidade, o altruísmo e o humanismo, mas a “ferocidade, a avareza e ambição” o que cria e desenvolve a sociedade; “estes três vícios, são a causa do nascimento do exército, do comércio e do poder político – la corte – e como conseqüência, do valor; a riqueza e a sabedoria das repúblicas, de maneira que, estes mesmos vícios, que podem destruir todo o gênero humano sobre a terra, produzem a felicidade civil”.

Este resultado inesperado levou Vico a prova de que “existe uma divina providência, uma divina inteligência, a qual faz com que as paixões humanas, sua imersão inteira no seu interesse privado, os quais os fazem viver em solidão como bestas ferozes, organizem a ordem civil que nos permite viver numa sociedade humana” (I, Degli Elem., VII).

A divina providência que dirige as cruéis paixões humanas é uma nova edição do axioma popular: o homem põe e Deus dispõe. Essa divina providência do filósofo napolitano e este Deus da sabedoria popular que conduz o homem com a ajuda de seus vícios, quem são?

São os diferentes modos de produção, responde Marx.

Vico, de acordo com a razão popular, afirma que o homem somente provê as forças motrizes da História. Mas suas necessidades e paixões, más ou boas, não são quantidades invariáveis, como pensam os idealistas, para quem o homem é sempre o mesmo. Por exemplo, o amor maternal, esta herança dos animais, sem a qual o homem em estado selvagem não teria conseguido viver ou perpetuar-se, diminuiu na civilização ao ponto de desaparecer nas mães das classes ricas, que se desprendem dos filhos desde seu nascimento e os confiam aos cuidados mercenários; outras mulheres civilizadas sentem tão pouco a necessidade da maternidade que fazem o voto de virgindade. O amor paternal não podia manifestar-se nas tribos selvagens e bárbaras durante o período poliândrico, estão, pelo contrário, muito desenvolvidos entre os civilizados; o sentimento de igualdade, vivo e imperioso entre os selvagens e bárbaros que vivem em comunidade, ao ponto de proibir a qualquer um que possua um objeto que os demais não possam ter, está tão anulado desde que o homem vive debaixo da propriedade individual, que os pobres e assalariados da sociedade aceitam resignadamente, como uma fatalidade divina ou natural, sua inferioridade social.

Isto posto, no curso do desenvolvimento humano, as paixões fundamentais se transformam, se reduzem ou se extinguem, ao mesmo tempo que outras nascem e crescem. Não indagar o fator humano das causas determinantes de sua produção e evolução seria admitir que, apesar de viver na natureza e na sociedade, não sofre influência da realidade ambiente. Uma suposição tal não pode nascer nem no cérebro do maior idealista, pois que este não se atreveria a afirmar que se deve encontrar o mesmo sentimento de pudor na mulher de uma família decente e em uma prostituta; mesma rapidez de cálculo aplica ao bancário e ao acadêmico; a mesma agilidade digital ao pianista e no pedreiro. É, pois, incontestável que o homem, tanto física, intelectual ou moralmente, sofre de uma maneira inconsciente, mas profunda, a ação do meio em que vive.

IV – O MEIO NATURAL E O MEIO ARTIFICIAL OU SOCIAL

A ação do meio não é somente direta, não exerce influência unicamente sobre o órgão que funciona, sobre a mão no caso do pianista e do pedreiro, sobre uma parte do cérebro no empregado ou acadêmico, sobre a moral no caso da mulher honesta e da prostituta; é também indireta e retida em todos os órgãos. Esta generalização da ação do meio, que Geoffroy Saint-Hilaire chamou de subordinação dos órgãos e que os naturalistas modernos chamam de lei da correlação, Cuvier assim a expunha: “Todo ser organizado forma um conjunto, um sistema único e fechado, cujas partes têm correspondência entre si e concorrem para a mesma ação definitiva por uma ação recíproca. Nenhuma das partes pode modificar-se sem que as outras também sofram modificações”. Por exemplo, a forma dos dentes de um animal não pode modificar-se, por uma causa qualquer, sem modificar também a mandíbula, os músculos da face que a fazem mover, os ossos do crânio aos quais estão sujeitos, o cérebro que o crânio contém, os ossos e os músculos que suportam a cabeça, a forma e o tamanho dos intestinos, em suma, todo o corpo.

As modificações que se produziram nos membros anteriores, desde que deixaram de servir para caminhar, conduziram a transformações orgânicas que separaram definitivamente o homem dos macacos antropóides18.

Não é sempre possível prever e compreender as modificações decorrentes das modificações sobrevindas a um órgão qualquer. Assim, não se sabe o motivo, o porquê que a ruptura de uma perna ou a extirpação de um testículo nos cervos provoca atrofia de um chifre no lado oposto da cabeça, ou ainda o porquê que os gatos brancos são surdos e ainda o porquê que os mamíferos com patas que tenham cascos são herbívoros e os com patas com cinco dedos e unhas, carnívoros19.

Uma simples mudança nos costumes, que submeta a um ou vários órgãos a um uso desacostumado, tem as vezes, como conseqüência, modificações profundas em todo o organismo. Darwin afirmava que o pastar constante com as costas inclinadas ocasionou variações no esqueleto em diversas raças de vacas escocesas.

Os naturalistas estão de acordo que os cetáceos, baleias, cachalotes e golfinhos como antigos mamíferos terrestres que, tendo encontrado no mar alimentação mais abundante e mais fácil, se transformaram em nadadores, sendo que este novo modo de vida transformou seus órgãos, reduzindo ao estágio de vestígios os inúteis, desenvolvendo outros e adaptando o corpo às necessidades do meio aquático. As plantas do Saara, para adaptar-se ao seu meio árido, reduziram seu caule e o número de folhas a três ou quatro, endurecendo-as com uma capa cerosa para prevenir a evaporação e alargar prodigiosamente as raízes em busca de umidade; seus fenômenos vegetativos se efetuam contra as estações: dormem no verão e vegetam no inverno, estação mais úmida e fria. As plantas desérticas apresentam todas as características análogas, isto prova que o meio implica a existência de seres que possuam um conjunto de características determinadas.

Os meios cósmicos ou naturais, aos quais os animais devem adaptar-se sob pena de morte, formam, assim como o ser organizado de Cuvier, conjuntos, sistemas complexos e sem limites precisos no espaço, cujas partes são formação geológica e composição do solo, distância do Equador, elevação sobre o nível do mar, rios que o regam, quantidade de água que recebe e calor que armazena, etc. e as plantas e animais que nele vivem. Estas partes se correspondem, de maneira que nenhuma delas pode modificar-se sem gerar modificações em todas as outras partes; as modificações naturais, por serem menos velozes nos seres organizados, são, no entanto, apreciáveis. Os bosques, por exemplo, têm influência sobre as chuvas e, por conseqüência, sobre a umidade e o húmus do solo; Darwin demonstrou que animais, em aparência insignificantes, como os gusanos20, tiveram um papel considerável na formação da terra; Berthelot e os agrônomos Hellriegel e Willfarth provaram que as bactérias que pululam na nodosidades das raízes leguminosas são agentes fertilizantes do solo. O homem, por sua elevação natural, exerce uma ação singular sobre o meio social; os desmontes, realizados pelos romanos, transformaram desertos inabitáveis em vales férteis na Ásia e na África.

Os vegetais, os animais e o homem em estado natural, que sofreram a influência do meio natural, sem outro meio de resistência senão a faculdade de adaptação de seus órgãos, devem terminar por diferenciar-se, ainda que tendo uma origem comum, se por centenas ou milhares de gerações vivem em meios naturais diferentes. Os meios naturais diferentes tendem, pois, a diversificar os homens entre si da mesma forma que se dá com as plantas e animais; é, com efeito, durante o período do selvagismo que se deu a diferenciação das raças humanas.

O homem não modifica somente por sua indústria o meio natural no qual vive, mas sim cria um completo meio artificial ou social, que o permite, se não evitar completamente a ação da natureza sobre seu organismo, ao menos atenua-la consideravelmente. Mas este meio artificial exerce, por sua vez, uma ação sobre o homem, tal como o meio natural. O homem, assim como o vegetal e o animal doméstico, sofre, pois, a ação dos meios.

Os meios artificiais ou sociais criados pelos homens se diferenciam entre si por seu grau de elaboração e complexidade, ainda que os meios do mesmo grau de elaboração e de complexidade apresentam grandes semelhanças, qualquer que seja a raça humana que os tenham criado, não importando sua situação geográfica, de maneira que se os homens continuam sofrendo a ação diferente de meios naturais diversos, estão igualmente submetidos a ação de meios artificiais semelhantes, os quais trabalham diminuindo as diferenças raciais e desenvolvendo entre eles as mesmas necessidades, os mesmos interesses, as mesmas paixões e a mesma mentalidade. Ademais, os meios naturais semelhantes, como, por exemplo, aqueles que estão situados na mesma latitude e altitude, exercem uma ação unificante parecida sobre os vegetais e animais que ali vivem, tendo uma flora e fauna análogas. Os meios artificiais parecidos tendem, pois, a unificar a espécie humana que os meios naturais diferentes diversificaram em raças e variedades.

O meio natural evolui de forma tão lenta que as espécies vegetais e animais a ele adaptadas parecem imutáveis. O meio artificial, por sua vez, evolui com rapidez crescente; através dele a História humana, comparada com a evolução vegetal e animal, é extremamente mais dinâmica.

Os meios artificiais, como o ser organizado e o meio natural, formam conjuntos, sistemas complexos sem limites precisos no espaço ou no tempo, cujas partes se correspondem e estão estreitamente ligadas, de tal forma que uma delas, isoladamente, não pode modificar-se sem que outras não sofram transtornos ou modificações.

O meio artificial ou social, extremamente simples e composto por um número reduzido de elementos entre as populações selvagens, torna-se mais complexo a medida em que se expande, adicionando novos elementos e pelo desenvolvimento daqueles que já existem. É constituído historicamente por instituições econômicas, sociais, políticas e jurídicas; por tradições e hábitos, costumes e moral; por um sentido moral comum e uma opinião pública; pelas religiões, literaturas e artes, filosofias, ciências, modo de produção e de trocas, etc. e pelos homens que nele vivem. Estes elementos, transformando-se e relacionando-se uns com os outros, deram nascimento à uma série de meios sociais cada vez mais complexos e expandidos, que com um mesmo padrão modificaram os homens, pois como no meio natural, um meio social implica a existência de homens que possuem no físico e na moral um conjunto de caracteres análogos. Se todos estes elementos que se correspondem fossem estáveis, ou variam com demasiada lentidão, como sucede com os do meio natural, o meio artificial seria um sistema equilibrado e não haveria História; seu equilíbrio, pelo contrário, é de uma crescente e extrema instabilidade, constantemente perturbado pelas mudanças em uma de suas partes, que logo faz reagir em cadeia todas as outras.

As partes de um ser organizado, como as do meio natural, têm relação direta entre si, mecânica, podemos afirmar; quando no curso da evolução animal a posição ereta foi efetivamente alcançada pelos antepassados do atual ser humano (homo sapiens sapiens), ela converteu-se em fator de modificação de todos os órgãos; quando a cabeça, em lugar de ser suportada pelos músculos potentes das costas, como em todos os mamíferos, passou a ser suportada pela coluna vertebral, estes músculos e ossos se modificaram e, ao se transformarem, modificaram o crânio e o encéfalo, etc. Quando uma superfície de terra vegetal de uma localidade aumenta por qualquer causa, em lugar de sustentar plantas pequenas, alimenta um bosque, o que modifica o curso das águas, que aumenta o volume dos rios, etc. Mas as partes de um meio artificial não podem reagir entre si sem a intervenção humana. A parte modificada deve começar por transformar física e mentalmente aos homens que lhes causam a mudança e sugerir-lhe as modificações que devem levar as outras partes para colocá-las no mesmo nível de progresso por ela alcançado, para que não lhe dificultem o desenvolvimento e para que novamente se correspondam entre si. As partes não modificadas fazem sentir sua presença, precisamente pelas qualidades úteis que constituem seus “lados bons”; as quais, quando tornam-se antiquadas, são prejudiciais e constituem outros tantos “lados maus”, tanto mais insuportáveis quanto mais importantes sejam as modificações que elas deveriam sofrer. O restabelecimento do equilíbrio das peças do meio artificial não se efetua, sem que haja uma luta dos homens particularmente interessados na parte em vias de transformar-se contra os homens interessados na sua conservação.

A menção a fatos históricos, demasiado recentes para não serem recordados, ilustrará o jogo de peças do meio artificial por intermédio do homem. A indústria, quando instituiu o vapor d’água como força motriz, reclamou novos meios de transporte para seu combustível, sua matéria prima e seus produtos. Ela sugeriu aos industriais interessados na ideia da tração a vapor sobre estradas de ferro, que começou a ser posta em prática na bacia carbonífera do Gard em 1830 e na do Loire em 1832; em 1829 foi quando Stephenson fez circular na Inglaterra o primeiro trem movido por uma locomotiva. Mas, quando se quis estender este meio de transporte, foram sentidas vivas e numerosas resistências que durante anos retardaram seu desenvolvimento. M. Thiers, um dos chefes da burguesia censitária e um dos representantes autorizados do senso comum e da opinião pública, opõe-se energicamente, porque, como declarava, “uma trem não pode andar”. Os trens, com efeito, transtornavam as ideias mais racionais e melhor assentadas, exigiam, entre outras coisas impossíveis, graves mudanças no regime de propriedade, o qual servia de base ao edifício social da burguesia então reinante. Até então, um burguês não criava uma indústria ou um comércio senão com o seu dinheiro, adicionado com o dinheiro de dois ou três amigos ou conhecidos de confiança em sua honestidade e habilidade administrativa, no emprego de fundos, sendo proprietário real e nominal da fábrica ou do comércio. Mas os trens e as estradas de ferro tinham a necessidade, para estabelecer-se, de uma tamanha enormidade de capitais, que era impossível encontrá-los nas mãos de um punhado de indivíduos; era preciso, pois, dirigir-se a um grande número de capitalistas que cofiassem seu querido dinheiro, do qual jamais tiraram o olho, entregando-o a pessoas as quais apenas conheciam o nome e nada sobre sua capacidade ou moral. Uma vez entregue o dinheiro, eles perdiam todo o controle sobre o empreendimento; não tinham propriedade pessoal sobre as empresas ferroviárias, sobre os carros, locomotivas, etc. que haviam colaborado para criar; não tinham mais direito ao lucro, quando este existia. Em lugar de peças de ouro ou de prata, com volume e peso com sólidas qualidades mensuráveis, lhes era entregue uma simples folha de papel, que representava uma partícula infinitesimal como inapreensível da propriedade coletiva, da qual vinha o nome impresso em grossos caracteres. Para a memória burguesa, jamais a propriedade privada havia revestido-se de uma forma tão metafísica. Esta forma nova despersonalizava a propriedade, estando em tão violenta contradição com aquela que fazia as delícias dos burgueses, com aquela que conheciam e era transmitida por gerações que para defendê-la e propagá-la não foram encontrados senão homens acusados de todos os crimes e denunciados como os piores perturbadores da ordem social. Os socialistas Fourier e Saint-Simon preconizavam a mobilização da propriedade em ações de papel.

Encontram-se entre seus discípulos os industriais, engenheiros e financistas que prepararam a revolução de 1848 e fizeram-se cúmplices do 02 de dezembro; eles se aproveitaram da revolução política para revolucionar o meio econômico centralizado dos novos bancos provinciais e do Banco da França, legalizando uma nova forma de propriedade e fazendo a opinião pública aceitá-la, criando uma rede ferroviária francesa.

A grande indústria mecânica, que deve trazer de longe seu combustível e sua matéria prima, e que deve também enviar para longe seus produtos, não pode tolerar a divisão de um país em pequenos Estados autônomos, possuindo cada um suas aduanas, leis, pesos e medidas, moedas, papel moeda, etc. particulares; ela tem necessidade, pelo contrário, para desenvolver-se, de nações unificadas e centralizadas. Itália e Alemanha não satisfizeram estas necessidades da grande indústria, senão a custa de guerras sangrentas.

Os senhores Thiers e Proudhon, que tinham tantos pontos em comum e que representavam os interesses políticos da pequena indústria, se fizeram ardentes defensores da independência dos Estados Pontifícios e dos príncipes italianos.

Posto que o homem cria e modifica sucessivamente as partes do meio artificial, é nele que residem as forças motrizes da história, como pensava Vico e a sabedoria popular, não na Justiça, no Progresso, na Liberdade e outras entidades metafísicas, como repetem de forma aturdida os historiadores mais chegados à filosofia. Estas ideias confusas e imprecisas variam segundo as épocas históricas e segundo os grupos e até quanto aos indivíduos de uma mesma época, pois elas são reflexos no pensamento dos fenômenos que se produzem em diversas partes do meio artificial. Por exemplo, o capitalista, o assalariado e o magistrado têm noções diferentes sobre Justiça. O socialista entende por justiça a restituições aos produtores assalariados as riquezas que lhes são roubadas; o capitalista, a conservação destas riquezas roubadas e, como este possui o poder político e econômico, sua noção predomina sobre a Lei, que, para o magistrado, se converte na Justiça. Precisamente porque a mesma palavra recobre noções contraditórias, a burguesia fez destas ideias instrumentos de engano e dominação.

Uma parte do meio social ou artificial dá ao homem que nele atua uma educação física, intelectual e moral. Esta educação acerca das coisas, que engendra as ideias e excita as paixões, é inconsciente; deste modo, quando atua, imagina-se seguindo livremente os impulsos de suas paixões e ideias, sendo que não faz mais que ceder às influências exercidas sobre ele por uma parte dos meios artificiais, a qual não pode interagir sobre as demais senão por ideias e paixões, obedecendo inconscientemente à pressão indireta do meio. O homem atribui a direção de suas ações e agitações a um Deus, a uma divina inteligência ou às ideias de Justiça, Progresso, Humanidade, etc. Se a marcha da História é inconsciente, porque, como disse Hegel, o homem chega sempre a resultados diferentes dos que busca, é porque até hoje não tomou consciência da causa que o faz atuar e que dirige suas ações.

Qual é a parte do meio social mais instável, que modifica-se com mais freqüência em quantidade e qualidade, a que é mais suscetível de modificar todo o conjunto?

O modo de produção, responde Marx.

Marx entende por modo de produção a forma de produzir, e não o que se produz; assim, pois, temos tecidos desde os tempos pré-históricos, e não é senão desde um século se tece mecanicamente. E o modo mecânico de produção é a característica essencial da indústria moderna. Temos tido a experiência na vida de um exemplo sem precedentes de seu fulminante e irresistível poder para transformar as instituições sociais, econômicas, políticas e jurídicas de uma nação. Sua introdução no Japão elevou este país, no espaço de uma geração, de um Estado feudal-medieval ao estado constitutivo do mundo capitalista e o colocou no plano das potências mundiais.

Múltiplas causas concorrem para assegurar ao modo de produção esta ação todo poderosa. A produção absorve direta ou indiretamente a energia da imensa maioria dos indivíduos de uma nação, ao mesmo tempo que, nas outras partes constituintes do meio social (política, religião, literatura, etc.), uma minoria restrita ocupa-se – e todavia esta minoria deve preocupar-se para procurar os meios de existência material e intelectual – em conseqüência, todos os homens sofrem mental e fisicamente, mais ou menos, a influência modificante do modo de produção, mesmo que um pequeníssimo grupo esteja a ele submetido de outra maneira, ou como por intermédio humano as diferentes peças do meio social reagem uma sobre as outras, aquela que modifica mais homens possui necessariamente mais energia para transformar todo o conjunto.

O modo de produção, de importância relativamente insignificante no meio social selvagem, toma uma importância preponderante e crescente sem cessar pela contínua incorporação à produção das forças naturais a medida que o homem aprenda a conhece-las. O homem pré-histórico começou esta incorporação servindo-se de pedras como armas e ferramentas.

Os progressos do modo de produção são relativamente rápidos, não somente porque a produção ocupa uma massa enorme de homens, mas sim porque, incendiando as “fúrias do interesse privado”, põe em jogo os três vícios, que, para Vico, são as forças motrizes da História: a dureza do coração, a avareza e a ambição.

Os progressos do modo de produção se deram tão rápidos nos últimos séculos que os homens interessados na produção devem modificar constantemente as peças correspondentes do meio social; as resistências que se encontram dão lugar a incessantes conflitos econômicos e políticos; assim, pois, se se quer descobrir as causas primeiras dos movimentos históricos, é necessário buscá-las no modo de produção e na vida material, nos quais, como disse Marx, condicionam o desenvolvimento geral da vida social, política e intelectual.

O determinismo econômico de Marx libera a lei da unidade do desenvolvimento histórico de Vico de seu caráter predeterminado, que supõe que as fases históricas de um povo, assim como as fases embrionárias de um ser, como pensava Geoffroy Saint Hilaire, estão indissoluvelmente ligadas por sua natureza íntima e estão determinadas por um incalculável ação de uma força interna, de uma “força evolutiva”, a qual os conduziria por rumos preestabelecidos até fins previamente determinados, de onde se concluiria, como conseqüência, que todos os povos deveriam progredir sempre e, ademais, em igual velocidade e por um mesmo caminho. A lei da unidade do desenvolvimento, assim concebida, não se verificaria na história de nenhum povo.

A História, pelo contrário, mostra que os povos, cada um em seu nível evolutivo, que outros atravessam a passo largo, do mesmo modo que outros retrocedem das etapas as quais já haviam atingido. Estas detenções, progressos e retrocessos não se explicam mais que aclarando a história social, política e intelectual dos diferentes povos da história dos meios artificiais nos quais evoluíram; as modificações destes meios, determinadas pelo modo de produção, determinam, por sua vez, os acontecimentos históricos.

Os meios artificiais não se modificam senão à custa de lutas nacionais e internacionais; os sucessos históricos de um povo estão, pois, colocados sob a dependência de relações que se estabelecem com o meio artificial para transformar este povo, que já foi formado pelo meio natural e pelos costumes hereditários e adquiridos. O meio natural e o passado histórico imprimem a cada povo características originais, de onde se conclui que o mesmo modo de produção não engendra com uma exatidão matemática meios artificiais ou sociais idênticos entre si, bem como não ocasionam, por conseqüência, acontecimentos históricos absolutamente parecidos nos diferentes povos e em todos os momentos da história, porque a concorrência vital internacional se amplia e se intensifica a medida que cresce o número de povos que chegam às etapas superiores da civilização. A evolução histórica dos povos, tal qual a evolução embrionária dos seres, não está, pois predeterminada, se ela passa por instituições familiares, de propriedade, jurídica e políticas parecidas, bem como formas de pensamento filosófico, religioso, artístico e literário análogos, é porque os povos, qualquer que sejam as raças e sua localização geográficas, passam, ao desenvolver-se, por necessidades materiais e intelectuais sensivelmente semelhantes e devem recorrer forçosamente, para satisfazê-las, aos mesmos procedimentos de produção.

Tradução: Alexandre Magalhães

1 – W. Rucker, Discurso Inaugural do Congresso Científico de Glasgow de 1901.

2 – O historiador inglês Froude pretende que os fatos históricos não fazem da História uma ciência, por que “eles não se repetem jamais e nós não podemos esperar a repetição de um fato histórico para provar ou modificar nossas conjecturas”.

3 – Os “pós-modernismos” de toda espécie comprovam a total atualidade deste texto de Lafarge . Ver nota n° 11, abaixo (N. doT.).

4 – Sobre uma larga crítica dos postulados idealistas, ver a obra de Caio Prado Jr. Dialética do Conhecimento, editora Brasiliense, em dois tomos. (N.doT.)

5 – No texto espanhol base desta tradução o termo usado é “Arca Santa”. Historicamente, bem como nos escritos sobre religião, teístas ou ateístas, em língua portuguesa, este objeto de culto é conhecido pela expressão “Arca da Aliança”. Assim também está na versão mais usada da Bíblia em português, a tradução de João Ferreira de Almeida. Portanto, preferimos, assim, utilizar tal tradução (N.doT.)

6 – Daí o sincretismo católico (romano e ortodoxo) com Maria mãe de Jesus, chamada “Theotókos”, ou “Mãe de Deus” (N.doT.).

7 – Fenômeno muito parecido aconteceu em Meca (ou Makka em árabe), na era pré-islâmica, tempo que os muçulmanos denominam pelo termo árabe “jahilliah” (“Era da ignorância”). Ao redor do centro da cidade de Meca, fica a Kaaba (cubo negro que contém uma pedra que se acredita ser um meteorito, lugar mais sagrado do Islã), havia uma construção semelhante ao Capitólio romano, na qual localizavam-se dezenas de imagens das mais diferentes divindades pagãs, inclusive uma de Jesus e outra da Virgem Maria. Maomé (Mohammed), ao entrar triunfante em Meca, vindo de Medina, destruiu todos os ícones, considerados formas absolutas de idolatria (em árabe,”shirk”, o pior dos pecados do Islã). Tal fato é mencionado em toda a historiografia islâmica. Nossa fonte são os escritos de Karen Armstrong (“A História de Deus”, “O Islã”, “Maomé”, entre outros, obras publicadas no Brasil). (N.doT.)

8 – Os cristãos primitivos criam firmemente que os deuses pagão faziam milagres, como Jesus fez seus prodígios. Tertuliano, na sua Apologética e Santo Agostinho na sua Cidade de Deus, relatam fatos inegáveis que Esculápio havia ressuscitado alguns mortos, aos quais dava os nomes; que uma “vestal” havia levado água do rio Tibre numa peneira, que outra vestal havia rebocado um barco com seu cinturão etc.

9 – Hino latino em honra a Deus-Pai, um dos mais antigos da liturgia católico-romana. É de se destacar que Lafargue ainda dá uma imagem um tanto quanto “avançada” da “mitologia” no Ocidente. A Igreja de Roma continua pródiga ao atribuir divindades poliadas a cidades, nações e continentes, as quais continuam tendo poderes sobrenaturais contra guerras, catástrofes e toda sorte de males. É o caso das “padroeiras”. Na América Latina cada país tem uma “Nossa Senhora nacional” como “Aparecida” no Brasil” e “N. Sra. de Guadalupe” no México. Regiões, estados federados e províncias estão sob a potestade dos santos, como o Rio Grande do Sul, dedicado a São Pedro, São Paulo ao apóstolo de mesmo nome, Rio de Janeiro a São Sebastião, etc. E o processo continua, sendo que não faz ainda um século que o papa consagrou a Europa a Santa Catarina de Siena, elevada à condição de “doutora da Igreja” (a primeira mulher neste “posto”, em quase dois mil anos da história da igreja romana). (N.doT.)

10 – Em plena Áustria do século XX vários bombardeios foram considerados “evitados”, tanto na Primeira como na Segunda Guerra Mundial, por conta da intervenção da Virgem Maria, a qual teria um “carinho especial” pelos austríacos (e também pelos poloneses), por continuarem papistas, ainda que incrustados entre nações protestantes ou ortodoxas. (N.doT.)

11 – Leibnitz procurou em vão demonstrar que dois mais dois são quatro; sua demonstração, segundo os matemáticos, não passa de uma verificação. Em lugar de admitir que os axiomas da geometria sejam fatos experimentais, como o prova Freycinet no seu notável estudo Da Experiência em Geometria, Kant sustenta que eles foram descobertos por uma feliz combinação de intuição e reflexão. Poincaré, quem neste caso expressa a opinião de numerosos matemáticos, declara em A Ciência e a Hipótese que os axiomas são “convenções”. Nossa eleição, dentre todas as convenções possíveis, é guiada pelos experimentos. No entanto, ela é livre, não estando limitada senão pela necessidade de evitar toda contradição entre as proposições deduzidas e as convenções de onde se parte. Pensa como Kant que estas proposições não têm necessidade de serem confirmadas pela experiência. Assim, pois, fica absolvido o matemático cristão, levando a sério o mistério da Trindade, em convir que um mais um é igual a um, para deduzir uma aritmética que poderá ser tão lógica como as geometrias não-euclidianas de Lobatschewski e de Riemann, as quais convencionam, a primeira, que por um ponto pode-se fazer passar uma infinidade de paralelas, e a segunda, que não pode passar nenhuma.

As geometrias não-euclidianas, nas quais as proposições se encadeiam e se deduzem rigorosamente, opondo seus teoremas aos teoremas de Euclides, proclamados verdades absolutas há quase dois mil anos, são admiráveis manifestações do cérebro humano. Mas, com este título, a sociedade capitalista, que é uma realidade viva e não uma construção ideal, pode ser tomada como prova desta potência ideológica. A divisão de seus membros em classes inimigas; a cruel exploração dos assalariados, sua pauperização na medida em que aumentam as riquezas; as crises de superprodução, produzindo fome em meia à abundância, os ociosos, adulados e saciados de prazeres e os produtores, desprezados e oprimidos pela miséria, etc. A moral, a religião, a filosofia e a ciência, consagrando a desordem social. O sufrágio universal, dando poder a uma minoria burguesa. Toda, enfim, uma estrutura material e ideológica, a civilização burguesa, é um desafio à razão humana e, no entanto, se ordena numa lógica implacável. Todas as iniqüidades têm origem, com rigor matemático, no direito de propriedade, o qual concede ao capitalista o privilégio e o poder de roubar a mais-valia criada pelo trabalhador assalariado.

A lógica é uma das propriedades essenciais da matéria cerebral; de qualquer raciocínio, verdadeiro ou falso, e de qualquer fato, justo ou injusto, do qual o homem parta, pode construir um edifício ideológico no qual todas as partes se encaixam com perfeição (tenham uma “lógica interna”, N.doT.). Na história social e intelectual da humanidade abundam exemplos desta “lógica de aço” que, por desgraça, acaba voltando-se contra si mesma.

12 – No Brasil, a corrente “teórica” da História que tem como preocupação fundante datas, fatos e a narração dos “vultos históricos” como agentes protagonistas de todo o processo histórico – ignorando solenemente o papel das massas, classes e todos outros agentes sociais – foi o positivismo, de influência da doutrina de August Comte. Durante a ditadura militar (1964-1985), os livros didáticos nas escolas brasileiras eram de um positivismo rasteiro, “temperado” com um ufanismo patriótico ridículo, enaltecedor das virtudes de todos os regimes e pensamentos reacionários. Atualmente, após um período de reerguimento e certa hegemonização de teorias que se utilizavam do método histórico, mesmo que somente de “influência” marxista, o pensamento burguês volta a imperar nas salas de aula e na academia, revestido das múltiplas teorias “pós-modernas” (pós-estruturalismo”, “pós-marxismo”, “pós do pós….”). Vale a aqui a leitura do capítulo 04 (com o sugestivo título “Os Mercadores da Demolição da Realidade”) da obra “Como a Picaretagem Conquistou o Mundo: equívocos da modernidade”, do jornalista britânico Francis Wheen, editado no Brasil pela Ed. Record. (N.doT.)

13 – Visão que ciclicamente repete-se na historiografia e na filosofia. G. W. F. Hegel afirmou que o Império Prussiano significava o ápice e a forma instransponível de regime e governo, a mais perfeita possível, chegando a clamar em êxtase “Enfim a razão domina o mundo!”. Com a queda do stalinismo, um obscuro e desconhecido tecnocrata estadunidense de origem nipônica, Francis Fukuyama, declarou num artigo publicado no verão de 1989 na National Interest, “O fim da História?”, conhecidíssimo por declarar que o capitalismo e a o regime burguês tinham o mesmo caráter que Hegel – citado pelo autor – dava à monarquia alemã. Logo o artigo virou livro, e também por evidente, retirou-se a interrogação do título. (N.doT.)

14 – Vandervelde e outros camaradas se escandalizam com minha forma irreverente e “exagerada” de desnudar “Idéias e Princípios Eternos”. Tratar de besteiras metafísicas e éticas como a Justiça, Liberdade, Pátria, que fazem de conta que andam nos discursos acadêmicos e parlamentares, nos programas eleitorais e propaganda política, oh! Que profanação! Se estes camaradas tivessem vivido no tempo dos enciclopedistas, deveriam ter fulminado sua indignação contra Diderot e Voltaire, que envenenavam até o pescoço a ideologia aristocrática e a arrastavam até o cadafalso da Razão; que caçoavam das sagradas verdades do Cristianismo, da Donzela de Orleans, do sangue azul e da honra da nobreza; da autoridade, do direito divino e outras coisas “imortais”. Haveriam também de condenar ao fogo Dom Quixote, obra prima da literatura romântica, que ridicularizava sem piedade as “virtudes cavalheirescas”.

Belford Bax reprova meu desprezo no trato da Justiça, da Liberdade e outras entidades metafísicas, as quais, disse, são conceitos tão universais e tão necessários que, para criticar as caricaturas burguesas, não me sirvo de um certo ideal de Justiça e Liberdade. Por Deus! Da mesma forma que os filósofos mais espirituais, eu não posso evadir-me de meu meio social: é necessário sofrer as idéias correntes, cada um tomando seu formato e medida, tomando seus conceitos individuais para criticar as idéias e ações de outro. Mas se estas idéias são necessárias ao meio social no qual são produzidas, não se conclui, como nos axiomas matemáticos, que são em todos os meios sociais, como pensava Sócrates (que em seu Protágoras, creio, demonstrava a eterna necessidade da Justiça), afirmando que até os bandidos possuem um código ético próprio. Precisamente porque as sociedades baseadas na propriedade privada, seja familiar ou individual, são sociedades de bandidos que saqueiam as outras nações e roubam o fruto do trabalho das classes dominadas – escravos, servos e assalariados – a Justiça e a Liberdade são para eles princípios eternos. Os filósofos as declaram conceitos universais e necessários porque não conhecem outra forma de sociedade senão aquelas baseadas na propriedade privada, não podendo conceber outra sociedade baseada em outros fundamentos.

Mas o socialista, que sabe que a produção nos leva fatalmente à uma organização social baseada na propriedade comum, não duvida que estes conceitos universais se desaparecerão da cabeça humana ao mesmo tempo que a exploração do homem pelo homem seja eliminada, junto com a propriedade privada. Esta crença não nasce de sonhos sentimentais, mas sim por fatos de observação indiscutível. Está provado que os selvagens da pré-história, que viviam sob o comunismo primitivo, não tinham nenhuma noção destes valores e princípios eternos. Summer Maine, que é um sábio jurista, não os encontrou em comunidades aldeãs da Índia contemporânea, onde os habitantes têm como regras de conduta a tradição e o costume.

Os conceitos universais e necessários, utilizados pelos homens nas sociedades que vige a propriedade privada como meio de organização da vida civil e política, sendo inúteis para os homens da sociedade da propriedade social, a História os arquivará e classificará no museu das idéias mortas.

15 – Do grego logos e mach, literalmente combate ou luta de palavras ou de discursos, este termo costuma ser utilizado para significar, numa acepção restrita, uma disputa ou uma controvérsia e, num sentido lato, a natureza eminentemente dialógica do discurso. Ao considerar assim a natureza logomáquica do discurso, sublinha-se o fato de toda e qualquer prática enunciativa comportar, implicita ou explicitamente, uma dimensão agonística, por ser constituído por um combate de posições a partir de lugares ou de topoi argumentativos. Fonte: http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/L/logomaquia.htm

16 – João Batista Vico, Princípios da Nova Ciência. – Acerca de Vico, uma boa introdução, sobre sua obra e biografia, consta do famoso “Rumo à Estação Finlândia”, nos seus primeiros capítulos (N.doT.).

17 – O verbo “civilizar” não existia, provavelmente, na língua italiana na época de Vico.

18 – subordem de primatas que inclui os macacos, os monos e o homem; apresentam cérebro grande e desenvolvido, face capaz de expressar emoção, olhos voltados para a frente, um par de mamas e dedos com unhas achatadas, são diurnos e vivem nas árvores ou no chão [Nas classificações modernas, são incluídos entre os haplorrinos.] – Dicionário Houaiss

19 – Os dilemas levantados por Lafargue estão, hoje, praticamente solucionados ou, pelo menos, com hipóteses bastante sustentáveis, tendo em vista o desenvolvimento da moderna genética, da biologia e ramos afins. Por exemplo, a questão da surdez dos gatos é assim explicada: “O gen branco é associado à surdez, se este branco atinge as orelhas. A surdez pode ser bilateral e é causada por uma degeneração da Clóclea no ouvido interno, que tem início alguns dias após o nascimento. Nem todo gato branco de olhos azuis é surdo” http://www.becodosgatos.com.br/cores.htm

20 – design comum aos moluscos bivalves vermiformes, da fam. dos teredinídeos, de corpo muito alongado e cilíndrico, concha reduzida com apenas duas pequenas valvas anteriores; gusano-das-naus, gusano-do-mar, teredem, turu, ubiraçoca [Cavam galerias em madeira submersa, o que constitui um sério problema para os cais e embarcações construídos com madeira.] (Dicionário Houaiss)