Os desafios na Saúde para enfrentar o Covid-19

Juliana, no centro, em manifestação em defesa da saúde pública

A doença se alastra rapidamente e com um alto poder de contágio. Nos deparamos com a realidade:  se muitas pessoas adoecerem juntas não poderão ser atendidas ao mesmo tempo.

O isolamento social reduz essa velocidade de contágio. Mesmo assim seria preciso 200% a mais de leitos de terapia intensiva(UTI) para atender os doentes, segundo os estudos de projeção.

A realidade é que no Brasil só 15% dos municípios possuem leitos de UTI. O Imperial College de Londres fez cálculos baseados na velocidade de contágio associados a como o vírus se comportou em diversos cenários e demonstrou para o Brasil que, sem as medidas adequadas, podemos ter mais de 187 milhões de infectados, com 1.152.283 mortes. Ao fazer o controle da circulação da doença com testagem e isolamento de positivos mais o distanciamento social pelo tempo necessário,  podemos chegar a menos de 50 mil mortes. Um milhão de mortes a menos!

Governo atende planos de saúde e não o SUS
Além do isolamento social precisamos de testagem em massa, ampliando o isolamento de pacientes com doença e limitando a circulação do vírus. Porém aqui desde semana passada só estão sendo testadas as pessoas que chegam em estado grave nos hospitais.

É preciso também preparar leitos, insumos e equipamentos, inclusive os leitos de UTI, não só os de hospitais de campanha (que não são de UTI). Seria necessário um Estado forte e um SUS forte para coordenar a resposta e o acesso igual a todos os leitos. Mas este governo faz o contrário.

O sistema privado tem mais de 50% de leitos de UTI e atende a menos de 30% da população. Quem tem plano hoje faz o teste e tem o resultado em 48 horas. Quem faz o teste no SUS demora até 20 dias para receber o resultado. O governo, ao invés de investir no setor público – até agora menos de 1,5 bilhões foram propagandeados de ajuda ao SUS – liberou 10 bilhões para os planos privados. Além disso o recurso público pode ir para pagar atendimento privado, mantendo a política desse Ministério da Saúde de privilegiar a saúde suplementar. Um exemplo é a recente homologação em 20 de março da Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (ADAPS) que contratará médicos CLT para os vazios assistenciais em substituição aos Mais Médicos. É mais uma terceirização aos moldes das OSS (Organizações Sociais) que precarizará o atendimento dos municípios nas Unidades Básicas de Saúde.

Juliana Salles, é médica infectologista e dirigente da CUT SP