Sobre o movimento Mulheres contra Bolsonaro – artigo de Misa Boito

É mais que compreensível, é plenamente justa, a repulsa da esmagadora maioria das mulheres a Jair Bolsonaro.

Figura inexpressiva no cenário político nacional, apesar de estar há décadas na Câmara Federal, Bolsonaro ganha relevância a partir de 2016. As instituições golpistas abriram o esgoto do qual ele emergiu com o asqueroso voto a favor do impeachment de Dilma dedicado ao torturador Ulstra.

O golpe promoveu o recrudescimento da opressão da mulher – nos direitos democráticos e trabalhistas –opressão  a qual ele propaga e da qual se vangloria. Mas atenção! Bolsonaro é produto da falência das instituições e dos partidos pró-imperialistas que, incapazes de derrotar a maioria trabalhadora nas quatro últimas eleições presidenciais, deram o golpe para viabilizar, sem qualquer obstáculo, a implementação no Brasil das políticas exigidas pelo capital financeiro que em todos os países retira direitos, pilha riquezas, esmaga a soberania do povo  e promove guerras.

Perseguido, o PT resistiu ao golpe e não desapareceu conforme previam o imperialismo e classes dominantes. Seguiu em pé!

O PT se apresenta à nação, primeiro com Lula, impedido, e agora com Haddad, como a única alternativa para derrotar o golpe. E isso se expressa num programa que propõe explicitamente revogar as contrarreformas de Temer, restituindo direitos e soberania e avançar as reformas populares há século represadas, através da convocação de uma Assembleia Constituinte. E assim Lula liderou com folga todas as pesquisas antes de sua impugnação e agora Haddad ganha espaço.

É nesta situação que surgem pressões por “todos contra Bolsonaro”, como o movimento criado via face book “mulheres unidas contra Bolsonaro”. Movimento, nas palavras das criadoras do grupo, que “aceita qualquer uma, de direita ou esquerda”, que vote em qualquer candidatura no primeiro turno, “desde que não seja Bolsonaro” e que, “caso ele alcance o segundo turno, votem no adversário do militar, seja quem for”.  (Revista Carta Capital)

Ora, ora! Quando Bolsonaro votou o golpe estava acompanhado de muitos candidatos e seus partidos que estão na disputa. O programa de todos os demais candidatos, à exceção do PT, se mantém no quadro das atuais instituições golpistas.

Então a tarefa central é “todos contra Bolsonaro”, venha quem vier em seu lugar? Não, não e não!

As mulheres das camadas oprimidas do país, aquelas que fazem tripla jornada, que não têm creche para seus filhos, que recebem salários menores, a quem é negado o direito ao aborto, que sofrem a violência e a discriminação do reacionarismo aguçado pelo golpe, estas mulheres não podem ser enganadas!

Não há várias alternativas para derrotar o golpe e tudo que ele representa, a começar pela projeção de Bolsonaro.

Ou os oprimidos com todas suas componentes, ou trabalhadores, as mulheres, os jovens, os negros têm a opção de voto 13 – a única candidatura que se propõe a romper com as instituições que a todos oprime – ou irão se dissolver em um movimento que a todos “une”, para combater o “fascismo” que seria representado por Bolsonaro.

É mais do que questionável dizer que Bolsonaro é igual ao fascismo. Com algumas ideias fascistas, evangélicas, ele é, antes de tudo, a expressão de um autoritarismo que se insinua, na incapacidade dos partidos tradicionais das classes dominantes de apresentarem uma liderança para derrotar o PT e, ao lado dos militares, tutelar os rumos do país.

A bandeira da unidade contra o fascismo, não seria uma armadilha para diluir o verdadeiro combate ao golpe?

A Secretaria Nacional de Mulheres do PT, buscando responder à situação que por certo é difícil, adotou orientações que considero não ser o melhor caminho. A decisão reafirma o voto 13 e as propostas do partido, mas adere à mobilização nas redes de Mulheres contra Bolsonaro:“acompanhar as mobilizações contra Bolsonaro, tendo em vista a extensão que elas já têm, e a centralidade de estarmos unidas contra nosso verdadeiro inimigo, o projeto fascista de sociedade”.

Mas nosso verdadeiro inimigo não se resume a Bolsonaro! São todas as candidaturas que se propõem a conviver com as instituições golpistas pois, seja quem for o governo eleito, elas impedirão qualquer avanço favorável à luta contra a opressão da mulher.

Alimentar um movimento anti-Bolsonaro não seria diluir o combate para derrotar o golpe que teima em se expressar – mesmo após a impugnação de Lula – ao redor do PT?

Os que achavam que iriam se beneficiar da perseguição ao PT e da injusta condenação de Lula, atraindo seus votos, seguem nos atacando a cada pesquisa que crescemos. Ciro Gomes, com muitas adeptas neste “todas contra Bolsonaro”, busca surfar no movimento apresentando-se como o único que tem condição de derrota-lo no segundo turno. E, é bom lembrar, para fazer um governo que se propõe a fazer um ajuste que equilibre as contas em dois anos, o povo já sabe o que isso representa, e transformar a Previdência em capitalização individual, quando o povo já demonstrou que não quer que mexam na Previdência Pública.

Adeptas de Amoedo, do Partido Novo – um dos protagonistas, ao lado do PSL de Bolsonaro do pedido de impugnação de Lula- e Marina Silva, esta dispensa apresentação, compõem este movimento. Tanto faz Marina, Amoedo, Ciro ou Haddad para impor uma verdadeira derrota a Bolsonaro, a melhor personificação do Brasil pós golpe?

O movimento “unidas contra Bolsonaro” convoca atos pelo país, tendo o PSOL abraçado sua convocação.

Participar ou não dos atos é uma questão tática. Muitas irão convictas de estarem fazendo o melhor. Outras não irão, desconfiadas, para dizer o mínimo, com a confusão que o movimento representa.

Mas nós petistas estamos chamadas a ter a clareza sobre o que está em curso.

Quando milhões de mulheres na Espanha, independentemente das colorações partidárias, uniram-se em torno de suas reivindicações e para protestar contra decisões da Justiça; quando na Argentina milhões de mulheres foram às ruas para exigir o direito ao aborto; são dois bons exemplos de unidade em relação a questões práticas, concretas.

Mas, no Brasil onde o povo, e as mulheres em particular, está sendo jogado à desgraça como resultado do golpe, a questão que se coloca é: que governo, que candidato nas eleições de 2018, pode impor uma verdadeira derrota ao golpe?

Acenar com o fantasma do fascismo, unindo-se a eleitoras de “direita ou de esquerda, de qualquer candidato, não importa qual” é diluir o combate que a maioria oprimida busca realizar através do voto PT.

Nós petistas, neste momento estamos chamadas a dobrar os esforços, dialogar nos bairros, nas fábricas, nas feiras, nas escolas explicando que não basta derrotar Bolsonaro. Para frear o recrudescimento da opressão da mulher imposto pelo golpe e avançar a conquistas de direitos é preciso abrir uma saída para o país: é Haddad/Lula, é voto 13 em defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras!

São Paulo, 21 de setembro, 2018

Misa Boito

Membro da Executiva Estadual do PT-SP