Trabalhadores e jovens franceses preparam encontro em defesa das conquistas

No dia 23 de junho, na Bolsa do Trabalho de Paris, mais de 300 militantes políticos e sindicais de diversas origens se reuniram, por iniciativa do Comitê Nacional de Resistência e de Reconquista dos Direitos Adquiridos em 1936 e 1945 (CNRR). Eles eram delegados de comitês locais constituídos em toda a França. Trabalhadores do setor público e do setor privado, estudantes secundaristas e universitários, vereadores, camponeses, médicos etc.

O CNRR foi formado em outubro de 2017, a partir de um apelo lançado meses antes, com o objetivo de batalhar em defesa de todas as conquistas ameaçadas pela política dos vários governos que se sucedem na França nos últimos anos, de direita ou de “esquerda”, e levada ainda mais longe pelo atual presidente Emmanuel Macron. A referência a 1936 e 1945 diz respeito a períodos de mobilizações revolucionárias dos trabalhadores, que obrigaram a burguesia francesa a ceder inúmeras conquistas, principalmente em Seguridade Social e nos direitos trabalhistas.

O manifesto de constituição do CNRR afirma que “não se trata de forma alguma de substituir as organizações sindicais e políticas já existentes, mas simplesmente de contribuir para o agrupamento de forças necessárias para organizar a resistência, prosseguir o combate por novas conquistas e arrancar a vitória”. Com esse objetivo, formaram-se comitês em toda a França, nos quais foram eleitos os representantes para a reunião do último dia 23.

Durante horas, mais de 30 oradores se sucederam na tribuna, num debate político que abordou as questões mais candentes às quais estão confrontados os trabalhadores e os jovens, respeitando-se as vinculações sindicais e políticas de todos. Ao final, foi aprovado por aclamação um apelo que resume as opiniões expressas e propõe a realização de um grande encontro em Paris, no outono (entre setembro e dezembro), convidando “todos aqueles que querem resistir e bloquear os planos de Macron a preparar esse encontro, inscrever-se nele e dele participar”.

Abaixo, segue a íntegra do apelo aprovado na reunião:

Apelo da reunião nacional de delegados de comitês de resistência e de reconquista de 23 de junho de 2018 – Paris

Alguns meses depois da eleição de Emmanuel Macron, 122 militantes políticos, vereadores e prefeitos, sindicalistas operários e camponeses de diversas origens decidiram constituir o Comitê Nacional de Resistência e de Reconquista dos Direitos Adquiridos em 1936 e 1945 (CNRR). Hoje, mais de 300 delegados dos comitês locais constituídos no país estão novamente reunidos para discutir a situação inédita na qual entramos e as iniciativas a tomar.

Desde a sua eleição, Macron busca realizar os objetivos formulados por Denis Kessler, vice-presidente do Medef (principal entidade patronal francesa – Nota de OT) em 2007: “Trata-se hoje de sair de 1945, de desfazer metodicamente o programa do Conselho Nacional de Resistência”. Macron resumiu seu programa: “É preciso dar fim à sociedade dos estatutos”.

Com que objetivo, a não ser o de caminhar para uma sociedade de indivíduos sem direitos, uberizados e entregues a si próprios?

Essa política é colocada em prática por todos os governos da União Europeia (UE). A UE está em via de desagregação, o que a questão dos refugiados revela de forma crua.

Democracia comunal, serviços públicos, Seguridade Social, direitos aos estudos… todos os fundamentos da República estão ameaçados. As liberdades fundamentais, a igualdade de direitos e a laicidade são colocadas em questão. O governo quer obrigar os sindicatos a participar de pseudo-negociações que levariam a sua integração. Ao mesmo tempo, se multiplicam os ataques contra os militantes sindicais e os jovens que resistem na luta por suas reivindicações.

Depois da lei contra os ferroviários, o governo anuncia agora uma “reforma” das aposentadorias, conquista emblemática entre os direitos adquiridos em 1945.

A multiplicação de greves, principalmente em nível local, exprime a resistência e a combatividade dos trabalhadores e da juventude.

Do mesmo modo, os ferroviários se mobilizam maciçamente pela retirada do pacto ferroviário e em defesa de seu estatuto.

E, ao mesmo tempo, a experiência de todo o último período não coloca várias questões?

– Por exemplo, os servidores fizeram greves em quatro ocasiões. Mas a multiplicação de jornadas de ação poderá fazer o governo ceder?

– A “negociação” pretendida pelo governo com os sindicatos sobre a convenção coletiva dos ferroviários não visa, na realidade, a homologar a liquidação do estatuto?

– Pode-se bloquear o que Macron prepara sobre as aposentadorias sem dizer não à aposentadoria por pontos (proposta do governo – Nota de OT)?

– A reconstituição de uma união de esquerda, pretendida por alguns, é uma solução para se opor a Macron? É possível reatar com aqueles partidos que contribuíram, em alternância com a direita, para questionar todos os direitos adquiridos? Esses partidos foram “afastados”, com razão, nas últimas eleições. Mas essa rejeição não resolve, por si só, a expressão necessária, no plano político, dos interesses da classe operária e da juventude.

Uma ampla discussão ocorreu com milhares de militantes que querem resistir a Macron e que querem defender e organizar a reconquista dos direitos adquiridos de 1936 e 1945. Essa discussão é realizada nos comitês nos quais se agrupam os militantes operários, sindicalistas, vereadores e prefeitos, com vinculações políticas e trajetórias diversas, mas que pretendem contribuir para essa discussão.

Esse trabalho de resistência e de reconquista diante da mudança da sociedade que Macron organiza é uma questão política essencial. Ela exige ampliar e reforçar os comitês como quadro de discussão e de ação comum.

É por isso que os delegados reunidos neste 23 de junho apelam ao conjunto dos comitês para preparar uma conferência de milhares de militantes no outono para reunir uma ampla força. Apelamos aos membros dos comitês e a todos aqueles que querem resistir e bloquear os planos de Macron a preparar esse encontro, inscrever-se nele e dele participar.