União Europeia é rejeitada nas urnas

Terremoto eleitoral aprofunda crise dos partidos pró-EU

Apesar da intensa campanha midiática chamando ao voto, as eleições de 25 de maio nos 28 países da União Europeia (UE) foram marcadas por gigantesca abstenção: 60% dos eleitores não foram votar. Na França, a abstenção chegou a 57%, na Espanha, 54%, na Inglaterra e Irlanda do Norte, 65%, na Alemanha, 52%, e na Eslováquia, 87%.

Todos os governos submetidos às políticas da UE foram derrotados, aprofundando uma crise política generalizada. Na Grécia, ficou em primeiro lugar o partido Syriza (de esquerda), visto pelos trabalhadores como aquele que confrontou o “memorando” imposto ao país pela “troika” (UE, Banco Central Europeu e FMI). Em Portugal, os partidos de oposição foram vitoriosos.

Esse foi o modo de os trabalhadores e povos mostrarem seu rechaço às instituições da UE e à austeridade (28 milhões de desempregados!), fator de miséria aguda crescente.

A MENTIRA DA VITÓRIA DA DIREITA

Comentaristas na Europa e no Brasil alardeiam a vitória da direita. Emir Sader teve o desplante de dizer que a falta de uma “resistência de massas é o cenário de fundo da debilidade da esquerda europeia” (Carta Maior, 26/5). É o contrário! Na Grécia, França, Espanha, Portugal, em toda a Europa, não faltam enormes mobilizações e greves gerais.

Mas, a cada vez, elas são dispersadas por essa “esquerda europeia” que se recusa a romper com as instituições antidemocráticas da UE, que são o instrumento para esmagar os direitos dos trabalhadores a serviço do capital financeiro. Emir, na verdade, dá cobertura à política da UE – e dessa “esquerda”-, colocando na conta dos trabalhadores a responsabilidade da inexistente “vitória da direita”.

É preciso olhar os números. Na França, quem fala em vitória da direita costuma esconder o resultado mais expressivo: a abstenção de 57,6%, concentrada nos bairros operários e em alguns casos chegando a 80 e até 90%!

Depois, escondem que todos os partidos, tanto da direita como da “esquerda” francesa, receberam menos votos em comparação com as eleições presidenciais de 2012.

O semifascita Frente Nacional (FN), que chegou na frente nesta eleição, recebeu 1,7 milhão de votos a menos do que em 2012. A direitista União por um Movimento Popular (UMP) de Sarkozy, ficou em segundo, perdendo 6 milhões de votos. A Frente de Esquerda (FG, com o PC), que chamou a votar por “um outro Parlamento Europeu”, perdeu 2,7 milhões. O pior foi o Partido Socialista (PS) do presidente Hollande, que, num recuo acachapante, perdeu 8 milhões de votos.

Hollande é quem aplica a política da UE na França, que se expressa no corte de 50 bilhões de euros dos gastos públicos e na concessão de 41 bilhões aos patrões por meio da desoneração de fundos de proteção social. Mesmo com a derrota, Hollande sustenta que continuará com essa política “até o fim”. Ele o faz porque não está sozinho. Mesmo desamparado eleitoralmente, a manutenção de seu governo é sustentada por todos os partidos, da UMP ao FG e até a FN.

QUE SAÍDA?

O Partido Operário Independente (POI), do qual participa a seção francesa da 4a Internacional, boicotou essa eleição e divulgou comunicado no dia seguinte colocando a questão: “que saída Hollande deixa aos trabalhadores, aos aposentados e à juventude, à grande maioria da população que recusa a ‘reforma da proteção social’ e o ‘pacto de responsabilidade’, senão se unir com suas organizações para obrigar esse governo a recuar?”

Ainda em março de 2014, a declaração de uma Conferência Operária Europeia, que ocorreu em Paris, afirmava que “a única esperança para a classe operária é o desenvolvimento da luta de classes que obrigará cada governo a abandonar sua política de ‘reformas’ e romper com a União Europeia e seus tratados”. Conclusão cuja atualidade se impõe, pois apenas a luta dos trabalhadores será capaz de desmantelar a UE, abrindo caminho para uma verdadeira união livre dos povos da Europa.

Francine Iegelski