Venezuela: protestos de petroleiros em todo o país

Trabalhadores exigem resgate de seus salários e direitos

Desde o início do ano, segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais (OVCS), ocorreram 943 conflitos trabalhistas no país, em meio à pandemia da Covid-19.
Na semana iniciada em 20 de julho, em que houve nova quarentena decretada, iniciou-se uma mobilização nacional dos trabalhadores da PDVSA (estatal do petróleo) através de uma jornada nacional de luta com atos e assembleias no dia 21, retomada em 28 de julho.
As sanções e o bloqueio de Trump, é claro, afetam a PDVSA, a maior empresa do país. Os ativos de sua subsidiária Citgo foram bloqueados nos EUA, que também suspenderam a compra de petróleo cru venezuelano, gerando uma perda estimada em 11 bilhões de dólares nas exportações. O que, somado à falta de investimento, à corrupção e ineficiência da direção da estatal e às pressões de grupos privados nacionais e internacionais, levou ao colapso da produção petrolífera.

Desde Maracaibo, em entrevista concedida ao companheiro Alberto Salcedo, ouvimos em 28 de julho a companheira Denis Ospina, trabalhadora da PDVSA, que participa da Coordenação Autônoma e Independente de Trabalhadores (CAIT).

Denis, o que motiva essa mobilização dos petroleiros?
É pública e notória a precariedade que afeta os nossos trabalhadores e aposentados. Isso é consequência de políticas econômicas que fizeram retroceder os avanços em direitos e conquistas da classe trabalhadora ocorridos durante os primeiros 12 anos do processo iniciado por Chávez. A uma hiperinflação que esmigalha o poder aquisitivo de nossos salários e benefícios soma-se a falta de atenção à saúde, um bônus alimentação irrisório e a falta de respostas da PDVSA para solucionar esses problemas.

O que vocês exigem diante dessa situação?
Nosso plano de luta reivindica uma recomposição salarial real; defende a soberania econômica diante da abertura petroleira, com a aplicação do decreto 5.200, que obriga a PDVSA a ter maioria acionária de 60% nas  parcerias com capitais estrangeiros; um bônus alimentação equivalente ao custo da cesta básica; atenção integral à saúde, com a recuperação da nossa rede de clínicas, hospitais e farmácias internas para atender trabalhadores e aposentados;  garantir o que estabelece a LOTT (lei orgânica do trabalho, NdT), que todos recebam em igualdade de condições os mesmos benefícios; a prestação de contas das gerências quanto à realidade financeira da empresa.
Além da pauta dirigida à PDVSA, exigimos da Federação Unitária de Trabalhadores Petroleiros da Venezuela (FUTPV) que respeite as decisões das assembleias dos trabalhadores e que faça cumprir a Constituição, a LOTT e o contrato coletivo.

Qual o papel das sanções neste quadro?
A agressão imperial dos EUA contra a nossa soberania, ao impor um bloqueio comercial e fazer constantes ameaças de intervenção, tem a finalidade de implodir os trabalhadores e o povo. Mas, o Plano de Recuperação Econômica, implementado pelo governo desde 2018, pretende responder a essa crise despejando-a nas costas dos trabalhadores. Os salários não cresceram o suficiente para manter o pão em nossas mesas, enquanto empresários e comerciantes colocam fermento inflacionário nos preços de bens e serviços, sem qualquer controle dos órgãos de Estado.

O resultado é a desvalorização do processo de trabalho, com a precarização da vida de milhões de trabalhadores e suas famílias. Para nós só resta mobilizar em defesa do que a lei nos confere, junto com o desafio de recuperar a independência de nossas organizações sindicais, que hoje estão tuteladas pelo patrão Estado.

Alberto Salcedo