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	<title>Arquivo de Cultura - O Trabalho</title>
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		<title>Um olho na luta dos povos e outro na Copa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Jun 2026 17:56:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No último 11 de junho, enquanto a Copa do Mundo de Futebol era aberta na Cidade do México, um precário acordo entre Estados Unidos e Irã era celebrado, para, nos dias seguintes, ser violado diretamente, com novos ataques a alvos iranianos e, indiretamente, pela ofensiva israelense contra o Líbano. Enquanto a bola rola, o genocídio [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">No último 11 de junho, enquanto a Copa do Mundo de Futebol era aberta na Cidade do México, um precário acordo entre Estados Unidos e Irã era celebrado, para, nos dias seguintes, ser violado diretamente, com novos ataques a alvos iranianos e, indiretamente, pela ofensiva israelense contra o Líbano. Enquanto a bola rola, o genocídio na Faixa de Gaza prossegue e a Europa segue ampliando os orçamentos para alimentar a guerra entre Ucrânia e Rússia, uma necessidade econômica incontornável do imperialismo. No mesmo momento em que os meios se concentram na transmissão de jogos e eventos relativos à Copa, a intervenção aberta dos EUA na América Latina não cessa, como no caso do sufocamento assassino do povo cubano.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-12f2ab04945d10e39d13ccbcb95f9e2f" style="font-size:21px"><strong>Trump e Infantino, muy amigos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O evento, uma gigantesca operação de marketing que tem pouco a ver propriamente com campo e bola, uma orgia das grandes multinacionais de diversos ramos, em especial das bets, foi inaugurado ao cabo de um ano e meio de uma duríssima guerra desencadeada por Donald Trump contra os migrantes em território norte-americano. Meses antes da abertura do torneio, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, havia agraciado Trump com o “prêmio da paz da FIFA”. A bizarra homenagem pretendia aliviar o peso de realizar a Copa nos EUA, em pleno momento de maior agressividade de Trump contra os povos e contra a classe trabalhadora estadunidense.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-f9a9b2116a226bcb69fb2a27083695b7" style="font-size:21px"><strong>Agressões de Trump durante a Copa</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A política de ataque à fração migrante do proletariado vem tendo sua versão antes e no curso do torneio. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada negada no Aeroporto de Miami e foi cortado da Copa do Mundo, pela FIFA. Milhares de torcedores de países em conflito com o imperialismo tiveram seus vistos negados. A própria seleção do Irã, classificada para o torneio regularmente pelas regras da FIFA ficou ameaçada de ser cortada e não pode pernoitar nos lugares onde joga a fase inicial da Copa, tendo de se deslocar após seus jogos para o México, numa violação flagrante até mesmo da isonomia esportiva. Incrivelmente, até poucos dias antes do início do evento, a FIFA não ofereceu tradução para os jornalistas que cobrem o torneio em língua espanhola, o que fez apenas depois de intensa denúncia internacional.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-63541252da340d4528f9039edf2e73cd" style="font-size:21px"><strong>Protestos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, mesmo no quadro estritamente controlado imposto pelas polícias locais e pelo ICE, torcidas como a da Argélia, Bósnia, Escócia e Coreia do Sul têm ido aos jogos com bandeiras da Palestina e cantando “Palestina livre” em inglês. As meninas mortas pelos bombardeios numa escola de Minab, no Irã, também foram lembradas e se sucedem protestos no México que têm entrelaçado reivindicações populares e demonstrações contra o regime israelense pelo genocídio palestino. Mesmo nas delegações, diante de abordagens humilhantes na recepção de algumas equipes (revista ostensiva ainda no campo de pouso, com agentes armados e cães), há manifestações de resistência. O técnico do Irã já disse que não vai abrir mão de chegar ao local do jogo da terceira rodada com uma mínima antecipação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como em todas as Copas, a classe trabalhadora aproveita a atenção internacional para levantar suas bandeiras que, neste caso, unem as lutas dos povos com a batalha da classe contra o ICE e Trump no interior dos EUA.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não menos emblemática foi a realização neste último 20 de junho, nos dias da Copa, em Londres do comício de mais de 3 mil representantes de toda a Europa contra a guerra (ver págs. 6 e 7), um contraponto ao espetáculo de subserviência dos governos e federações nacionais, bem como da FIFA, a Trump nesta pantomina que encobre o espetáculo genuíno do futebol que Messi, Mbappé, Mané e uma imensidão de imigrados que povoam as seleções nos proporcionam.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eudes Baima</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>“Dois Procuradores” relembra a farsa criminosa dos Processos de Moscou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Feb 2026 12:15:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Michail Kornev graduou-se advogado há apenas três meses e acaba de ser nomeado pela Promotoria Pública da URSS ao cargo de procurador da oblast (província) de Briansk. Seu antecessor fora preso algumas semanas antes pela NKVD[1]. Algo comum naqueles anos, em que profissionais técnicos, quadros dirigentes e importantes militantes comunistas desapareciam e eram substituídos por [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Michail Kornev graduou-se advogado há apenas três meses e acaba de ser nomeado pela Promotoria Pública da URSS ao cargo de procurador da <em>oblast</em> (província) de Briansk. Seu antecessor fora preso algumas semanas antes pela NKVD<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>. Algo comum naqueles anos, em que profissionais técnicos, quadros dirigentes e importantes militantes comunistas desapareciam e eram substituídos por novatos. Mal toma posse, Kornev recebe misteriosamente um bilhete de um prisioneiro político, Ivan Stepniak, conhecido dirigente local do Partido Comunista, herói da Revolução de Outubro. Alquebrado pelas ininterruptas sessões de tortura e confinado numa solitária, ele havia escrito com seu próprio sangue num pedaço de cartolina amarrotada um pedido de recurso de seu caso à procuradoria regional. O bilhete deveria ter sido queimado junto com todas as demais cartas de prisioneiros do “Bloco Especial” do presídio – reservado aos enquadrados no “Artigo 58”<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>. Mas conseguiu driblar os grossos muros do campo prisional e encontrar seu muito improvável destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ano é 1937, o terror stalinista está para atingir seu ápice, com já bem mais de um milhão de militantes comunistas arrastados a prisões e campos de trabalho forçado, onde são torturados e enclausurados até definharem. Muitos, assim que presos, já são executados sumariamente pela NKVD. Outros tantos – incluindo os principais dirigentes históricos do partido bolchevique e da Revolução de Outubro &#8211; são antes levados a um tribunal farsesco, onde são chantageados e obrigados a “confessar” algum crime “contrarrevolucionário” que jamais cometeram.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-aede58a384cc70ccad4742b50338acea" style="font-size:21px"><strong>“Fascistas na NKVD”?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem Kornev, embora mal saído dos bancos da universidade, assume seu novo cargo com muita disposição e seriedade profissional. Diligente e persistente, ele vai à procura da verdade. Dirige-se ao presídio e faz de tudo para cumprir sua missão de defender aquilo que considera ser a democracia operária e o Direito soviético. A despeito de inúmeras tentativas em dissuadi-lo com embromação e sobretudo com muita intimidação, a direção do presídio não consegue impedi-lo de ter uma conversa a sós com o velho Stepniak. Contorcido de dor, este explica ao procurador que ele, bem como milhares de “camaradas comunistas de primeira ordem” daquela região, “haviam sido injustamente presos por um grupo de traidores, fascistas infiltrados na NKVD” local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Meu rapaz”, diz Stepniak, “eu já estou praticamente morto. Não faço isso por mim, mas pela defesa da Revolução. Se você é realmente um bolchevique, não um covarde; se você é um procurador soviético honesto, vá a Moscou ainda hoje. Consiga uma audiência com Stalin. Ou ao menos com um dos membros do Politburo — Yezhov, Vorochilov, Molotov… Relate a eles que aqui neste presídio, a nata do Partido Comunista está sendo exterminada.” O veterano comunista não percebia, contudo, que seu pedido levaria o jovem Kornev a uma missão, se não suicida, ao menos para lá de arriscada. Afinal, todo Politburo – a começar por Stalin e os três nomes por ele sugeridos &#8211; estava absolutamente comprometido com a política que ele mesmo convocava a combater.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-1335d0e2b03fd02ba6186f1c086ab70b" style="font-size:21px"><strong>Ilusões no Politburo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nicolai Yezhov, era o chefe da NKVD desde 1936. Dali, comandou prisões em massa, torturas e fuzilamentos. Em 1938, porém, viria a cair em desgraça junto a Stalin. Preso, seria forçado a confessar “atividades antissoviéticas”, sendo assim executado em 1940. Kliment Vorochilov era um militar pouco expressivo, mas alçado ao marechalato exclusivamente por ser um bajulador de Stalin – sem preparo técnico-militar, substituiu os aclamados marechais Tukachevsky, Blyuker e Yegorov, todos executados às vésperas da invasão nazista na II GM. Já Viatcheslav&nbsp;Molotov, além de primeiro ministro, era ministro das Relações Exteriores – foi ele quem negociou o pusilânime Pacto com Hitler assinado por Stalin em 1939.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto Kornev quanto Stepniak tinham pouca ou nenhuma noção de que essas monstruosidades que pretendiam combater não apenas envolviam, mas partiam do próprio Politburo. Militante comunista comprometido, o jovem procurador assume a tarefa dada a ele pelo velho camarada. Consegue uma audiência com o todo poderoso Andrey Vyshinsky, Procurador Geral da URSS, que estava naquele exato momento presidindo os “Julgamentos” do Grande Expurgo stalinista. Vyshisnky foi um membro do partido menchevique. Mas acabou dedicando-se à advocacia e, assim atuando regularmente junto ao regime czarista. Após a queda do czar, em fevereiro de 1917, retomou posição dirigente no menchevismo, assumindo cargo no Governo Provisório de Kerensky. Dali combateu ferozmente a Revolução de Outubro: foi ele quem assinou a ordem para prender Lenin logo após as Jornadas de Julho mediante a falsa acusação do bolchevique ser “agente do imperialismo alemão”. Após a tomada do poder pelos sovietes em outubro de 1917, ele aproxima-se de Stalin, sendo por este convidado a aderir ao partido dos bolcheviques (Comunista). Só veio a fazê-lo ao fim da Guerra Civil, quando notou que a vitória deles era irreversível. Alguns anos mais tarde, aceitou do mesmo Stalin a tarefa de presidir os “tribunais” farsantes para de forma implacável humilhar e exterminar toda velha guarda bolchevique, toda a geração que dirigiu a Revolução de Outubro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tal impostor, o infame anticomunista Vyshinsky, recebe em sua suntuosa sala da Procuradoria Geral da URSS sua persistente contraparte, o honesto comunista Korniev. Reunidos, enfim, são eles os “Dois Procuradores”.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-13ba1d04abf0723b0f1a74120ec85029" style="font-size:21px"><strong>Cadeados, burocratas e canções alegres</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com este filme, o premiado cineasta Sergei Loznitsa produziu uma obra magistral. De forma intensa e cativante, ele projeta na tela do cinema o pesado e claustrofóbico clima do período. Envolve a audiência na evolução dos dramáticos eventos, mantendo-a, porém, como observadora externa. Não há movimentos de câmaras. Suas lentes não expõem cores mais vivas. O sombrio autoritarismo da burocracia se faz sentir em intermináveis e estridentes abrir e fechar de cadeados, portões e livros de registros no presídio em Briansk. Personagens bizarras, que nos lembram romances de Dostoievsky, aparecem do nada, marcando uma presença grotesca e sinistra a um só tempo: de burocratas estatais arrogantes e mal encarados a camponeses maltrapilhos e falastrões. A desconfiança e o medo de tudo e de todos contaminam os poros da sociedade de alto a baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme termina tenebroso, mas ironicamente ao som de uma alegre e contagiante canção, tornada muito popular à época: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=M7EroSwIMYo">“O Contra Plano”</a>. Ela mesma, aliás, fora a música tema de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=VMTJqoOSjTU">filme com o mesmo título</a> , o qual era peça importante da massiva propaganda stalinista do período. Produzido em 1932 bem ao estilo do “Realismo Socialista”, ele foi o primeiro filme inteiramente falado da URSS. Em plena brutalidade da fome camponesa resultante da Coletivização Forçada e do atraso na industrialização com o atabalhoado Plano Quinquenal, o filme era parte de campanha governamental voltada a culpabilizar supostos “sabotadores contrarrevolucionários” por todos os problemas e fracassos econômicos e industriais soviéticos. A burocracia instrumentalizava tal campanha tanto para se esquivar de suas responsabilidades frente a seus próprios erros e incompetências, quanto para desenvolver implacável perseguição política a críticos ou rivais &#8211; reais, potenciais ou imaginários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jovial canção, não custa lembrar, foi escrita por Boris Kornilov e sua melodia composta pelo famoso maestro Dimitri Shostakovich. Ambos perseguidos pela NKVD nos anos seguintes, o primeiro foi “julgado” nos Processos de 1937, condenado e fuzilado no início de 1938.</p>



<p class="has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-0444edc7c789cb9be1292217cec82f67 wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Cientistas contra o fascismo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O roteiro de “Dois Procuradores” elabarado por Loznitsa é todo baseado no livro de mesmo título, escrito por Georgy Demidov. Jovem físico promissor, em sua vida real, ele mesmo fora preso pela NKVD em 1938 junto com vários outros cientistas soviéticos &#8211; incluindo seu orientador, o futuro recipiente do Nobel de Física Lev Landau. Por serem comunistas críticos do stalinismo, foram todos acusados de “trotskismo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pesquisadores do renomado Instituto de Física e Tecnologia da Ucrânia Soviética (IFTU), eles lançaram um panfleto ao ato de 1º de maio de 1938. Chamando “trabalhadores do mundo a unirem-se” contra o fascismo, acusavam o governo soviético de ter “traído a grande causa da Revolução de Outubro, inundado o país em rios de sangue e lama. A camarilha stalinista cometeu um golpe de tipo fascista. O socialismo existe apenas nas páginas de jornais repletos de mentiras. Em seu ódio furioso ao verdadeiro socialismo, Stalin, para preservar seu poder, prefere destruir o país, tornando-o presa fácil ao nazismo alemão”<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a>. Dezesseis pesquisadores do IFTU, incluindo Demidov, foram presos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Condenado a 18 anos de prisão, Demidov foi enviado ao campo de concentração de Kolyma, Sibéria. Foi retirado de lá em 1951 para, mantido em prisão administrativa, trabalhar como físico experimental em projeto da corrida atômica soviética. Reabilitado em 1958, ele começou a escrever artigos e livros sobre suas experiências nas prisões de Stalin. Concluiu “Os Dois Procuradores” nos anos 1960. Mas seus escritos acabaram todos censurados e confiscados pela KGB. Após a sua morte, sua filha conseguiu resgatar cópias de seus livros e publica-los – quase meio século após terem sido escritos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O roteiro desenvolvido por Loznitsa é articulado de maneira inteligente e, no geral, fiel ao enredo de Demidov. Ainda assim, o cineasta parece não ter enfatizado a problematizção do stalinismo &#8211; não sendo ele mesmo um socialista, tal questão tende a ser menos central em sua obra. Em entrevista, o diretor explica psicologicamente suas personagens, mas politicamente parece não ir muito além de um certo fatalismo: “A Revolução foi concebida e realizada por um grupo de pessoas, mas seus frutos foram usurpados por outro grupo. Stalin, em sua luta pelo poder, destruiu quase todos os seus próprios camaradas. Nosso protagonista, um jovem promotor recém-formado, pertence à primeira geração pós-revolucionária, criada em um espírito romântico e idealista [&#8230;] destemido e entusiasmado da sociedade do futuro, confiante em sua própria retidão. Ele nem sequer suspeita [&#8230;]. Tais personagens frequentemente se tornavam vítimas do regime [&#8230;]. Aqueles que tiveram a sorte de sobreviver foram libertados de suas ilusões por décadas no Gulag” <a href="#_ftn4" id="_ftnref4">[4]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que a ingenuidade de Stepniak e sobretudo de Kornev (interpretados no filme pelos excelentes atores A. Filippenko e A. Kusnetsov) é patente tanto no livro quanto no filme. Ambas personagens acreditam que as injustas prisões em massa seriam apenas circunstanciais e decorrentes de uma corrupção pontual – alguma infiltração de elementos contrarrevolucionários de tipo fascista na NKVD. Ambos queriam crer que a cúpula partidária, Stalin à frente, não estaria sabendo o que o ocorria. A dificuldade de ambos superarem tal ilusão quase lúdica, de fato, não era incomum à época. Ela decorria da incompreensão do que era o processo contrarrevolucionário e termidoriano da burocratização stalinista que assolava a União Soviética.</p>



<p class="has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-0fd5edc3ae0ecd44477aa2a0984da433 wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>O que explica a violência stalinista?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O programa da Revolução de Outubro visava a rápida superação do atraso econômico russo, com acelerado avanço técnico-científico, por meio da socialização dos meios de produção e da planificação econômica. Tudo isso para tornar possível a construção de uma sociedade sem distinções de classe que, portanto, pudesse ser gerida pelo próprio povo trabalhador, no lugar da tecnocracia estatal-profissional. De fato, a economia planificada, a despeito de certa procrastinação burocrática, havia permitido considerável avanço em pouco mais de uma década. Todavia, o isolamento internacional da Revolução na Rússia e o enorme desgaste na organização de sua classe trabalhadora, esmagada por uma impiedosa guerra civil, acabou por esvaziar os sovietes no avançar dos anos 1920. Tais estruturas, expressão outrora do legítimo poder operário-camponês, tornaram-se ocas de democracia interna e, assim, foram sendo controladas por uma casta de burocratas estatais cada vez mais empoderada e que passou a estorvar o caminho ao socialismo. Pois as diferenças sociais, ao invés de serem progressivamente superadas, reapareceram e intensificaram-se com o fortalecimento dessa casta. Privilegiada e concentradora do poder, ela passou a auferir crescentes parcelas da renda nacional às expensas do povo trabalhador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Stalin e seus comparsas instalados na cúpula partidária e estatal eram apenas os representantes na esfera público-política de tal casta de funcionários e carreiristas do aparato institucional. As ações e orientações políticas que implementavam eram expressão das necessidades e desejos de tal casta. Para garantir a estabilidade no poder da burocracia que representavam, preferiam evitar confronto com as potências imperialistas. Eram mansos e colaboradores com elas – tendo, aliás, tentando a todo o custo conciliação com o nazi-fascismo às vésperas da Guerra. Brutais e irreconciliáveis mesmo, eles eram com comunistas e com as massas trabalhadoras – cujos interesses revolucionários não defendiam, nem nacional, muito menos internacionalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Líder da Revolução ao lado de Lenin, Trotsky explicava que “essa casta encontra-se em uma posição contraditória. Em palavras, diz defender o comunismo; em atos, luta por seu próprio poder ilimitado e por colossais privilégios materiais. Cercada pela desconfiança e pelo ódio das massas enganadas, a nova aristocracia não pode tolerar a menor brecha em seu sistema. Em nome da autopreservação, vê-se compelida a sufocar o menor sinal de crítica e oposição [&#8230;] e é sistematicamente compelida a mentir, a se maquiar, a usar uma máscara e a atribuir aos críticos e oponentes motivações diametralmente opostas às que os impulsionam. Qualquer um que se manifeste em defesa dos trabalhadores contra a oligarquia [estatal] é imediatamente rotulado pelo Kremlin como apoiador da restauração capitalista”<a href="#_ftn5" id="_ftnref5">[5]</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-0d5aa6df9ed2d777fc3b61ec805dd00b" style="font-size:21px"><strong>Expurgos contra o socialismo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É isso o que explica a lógica dos Grandes Expurgos stalinistas. Eles foram implementados por meio de um conjunto de processos pseudo-judiciais nos quais milhões de cidadãos soviéticos eram farsescamente julgados e condenados. A maioria deles eram militantes comunistas e simpatizantes, incluindo alguns estrangeiros, dirigentes de partidos comunistas de outros países que visitavam a URSS. Os “tribunais” eram montados na forma de um “show” para o público: embora o veredito já tivesse sido decidido antecipadamente, as sessões acusatórias eram filmadas (com presença da imprensa internacional) e amplamente divulgadas. Os acusados eram previamente torturados, chantageados e, por fim, desmoralizados. Para tentar desesperadamente salvar sua vida e de sua própria família, muitos confessavam crimes que jamais haviam cometido (como comprovado décadas adiante, após a abertura de arquivos oficiais), tais como o de serem “espiões nazistas” ou “sabotadores imperialistas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A despeito de vários tribunais-show terem sido deslanchados no decorrer de décadas, dentre eles, destacam-se por sua magnitude os chamados “Processos de Moscou”, ocorridos respectivamente em 1936, 1937 e 1938. A eles adiciona-se ainda o de 1939-41, voltado ao <a href="https://otrabalho.org.br/80-anos-da-operacao-barbarossa-a-invasao-nazista-e-a-politica-stalinista/">extermínio do grosso dos quadros militares</a>. No Comitê Central (CC) do Partido Bolchevique eleito em 1917 – aquele que deslanchou a Revolução de Outubro -, dos treze membros que sobreviveram a Guerra Civil, dez foram assassinados por Stalin nos anos 1930. Algo similar ocorreu com os CCs eleitos nos Congressos partidários seguintes, bem como com os Comitês Regionais. Essa dinâmica manteve-se mesmo quando o partido já estava bastante stalinizado, como no caso do 17º Congresso (1934). Ali, os dois mil delegados competiam entre si nos elogios ao “Grande Líder” Stalin e, não obstante, sua imensa maioria viria a ser perseguida pela NKVD já nos três anos seguintes: quase 60% deles foram condenados, presos e/ou – boa parte – fuzilados; dos 139 membros – plenos e suplentes – eleitos ao CC, 97 foram fuzilados nos Processos de 1937 e 1938.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com dados oficias da KGB e da Comissão de Controle do PCUS desclassificados no início dos anos 1990, o número de pessoas presas e condenadas por razões políticas entre 1929 e 1954 &#8211; período em que Stalin centralizou mais diretamente o poder em suas mãos – aproximava-se dos 3,7 milhões. Dessas, 643 mil foram fuziladas<a href="#_ftn6" id="_ftnref6">[6]</a>. A grande maioria era de militantes comunistas. Apenas entre 1936 e 1939, mais de 1,2 milhões de comunistas foram presos, metade dos quais foram fuzilados ou mortos devido a maus-tratos nos campos prisionais<a href="#_ftn7" id="_ftnref7">[7]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A burocratização stalinista gerou um duplo resultado: o terror termidoriano e o enfraquecimento da URSS e da luta internacional dos trabalhadores. Havia uma alternativa que poderia evitar a ambos. Ela pressupunha a mobilização da própria classe trabalhadora russa e do internacionalismo anti-imperialista e socialista que combatesse e derrotasse o stalinismo, revertendo a burocratização. Algo que, entretanto, não ocorreu. O falecimento de Stalin manteve essencialmente inalterada a natureza da “nomenclatura” governante. Antes e depois dele, a degeneração que ela gradativamente impunha ao regime produzido pela Revolução de 1917 foi se tornando irreversível. Sedenta por poder e privilégios e sonhando cada vez mais em tornar-se burguesa no limite, ela só poderia fazê-lo se destruísse antes a própria URSS para, enfim, restaurar a grande propriedade privada no país. Um feito que, ao final, tal nomenclatura stalinista acabou por realizar em 1991. Ao revisitar algumas páginas mais críticas e dramáticas dessa longa história, o filme “Dois Procuradores” nos ajuda a refletir sobre os desafios que os trabalhadores e a humanidade enfrentaram à época bem como os que ainda seguem por enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Alberto Handfas</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a id="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos) era a polícia política e agência secreta stalinista, antecessora da KGB.<br><a id="_ftn2" href="#_ftnref2">[2]</a> O “Artigo 58” do Código Penal da Rússia soviética referia-se a casos (supostamente) relacionados a &nbsp;“atividades contrarrevolucionárias”.<br><a id="_ftn3" href="#_ftnref3">[3]</a> ROGOVIM, “<em>Stalin´s Terror of 1937-1938: Political Genocide in the USSR</em>”. Mehring Books, 2009, pp. 267-9.<br><a id="_ftn4" href="#_ftnref4">[4]</a> <a href="https://cdn.festival-cannes.com/media/uploads/2025/05/188907.pdf">Entrevista no Festival de Cannes com Sergei Loznista, 2025</a>.<br><a id="_ftn5" href="#_ftnref5">[5]</a> TROTSKY, L., “Writings of Leon Trotsky: 1939-1940”, pp. 349-50. Pathfinder Press Inc. New York. 2<sup>nd</sup> Ed., 1972.<br><a id="_ftn6" href="#_ftnref6">[6]</a> ROGOVIM, V., Op.Cit., pp. 443-4<br><a id="_ftn7" href="#_ftnref7">[7]</a> Idem, pp. 448-9.</p>
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		<title>&#8220;No other land&#8221; (Nenhuma outra terra)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Mar 2025 02:12:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Documentário vencedor do Oscar 2025, feito numa produção independente por um palestino e um israelense, denuncia a ocupação da Cisjordania por colonos israelenses e o exército de Israel. Veja a fala do vencedor do Oscar Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Sanaúd &#8211; Juventude Palestina (@juventude_sanaud) Assista o documentário abaixo ou clicando [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Documentário vencedor do Oscar 2025, feito numa produção independente por um palestino e um israelense, denuncia a ocupação da Cisjordania por colonos israelenses e o exército de Israel.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-a73c7f48b2c8354a67bc9e0427b364b8" style="font-size:21px"><strong>Veja a fala do vencedor do Oscar</strong></h2>



<blockquote class="instagram-media" data-instgrm-captioned data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DGuHRzbxhGg/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14" style=" background:#FFF; border:0; border-radius:3px; box-shadow:0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width:540px; min-width:326px; padding:0; width:99.375%; width:-webkit-calc(100% - 2px); width:calc(100% - 2px);"><div style="padding:16px;"> <a href="https://www.instagram.com/reel/DGuHRzbxhGg/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" background:#FFFFFF; line-height:0; padding:0 0; text-align:center; text-decoration:none; width:100%;" target="_blank" rel="noopener"> <div style=" display: flex; flex-direction: row; align-items: center;"> <div style="background-color: #F4F4F4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div> <div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;"> <div style=" background-color: #F4F4F4; 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overflow:hidden; padding:8px 0 7px; text-align:center; text-overflow:ellipsis; white-space:nowrap;"><a href="https://www.instagram.com/reel/DGuHRzbxhGg/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; font-style:normal; font-weight:normal; line-height:17px; text-decoration:none;" target="_blank" rel="noopener">Uma publicação compartilhada por Sanaúd &#8211; Juventude Palestina (@juventude_sanaud)</a></p></div></blockquote>
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<p class="wp-block-paragraph">Assista o documentário abaixo ou clicando <a href="https://drive.google.com/file/d/1FSX0QQrQzZbo6tRcyFy7EX4EbpoAEBOu/view"><mark style="background-color:#cf2e2e" class="has-inline-color has-white-color"><strong>aqui</strong></mark></a></p>



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		<title>Ainda Estou Aqui</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Dec 2024 19:33:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui”, o filme narra um dos muitos crimes da Ditadura Militar. O pai de Marcelo, Rubens Paiva, foi assassinado pela ditadura. “Ainda estou aqui” joga luz ao fato que os assassinos também continuam aqui, impunes. Na madrugada do dia 20 de janeiro de 1971, seis agentes [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui”, o filme narra um dos muitos crimes da Ditadura Militar. O pai de Marcelo, Rubens Paiva, foi assassinado pela ditadura. “Ainda estou aqui” joga luz ao fato que os assassinos também continuam aqui, impunes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na madrugada do dia 20 de janeiro de 1971, seis agentes da repressão da ditadura invadiram, sem mandado judicial, a casa da família Paiva, no bairro do Leblon, Zona Sul do Rio. Com a edição do AI-5, em 1968, os órgãos de repressão policial-militar prescindiam da ordem judicial para devassar as residências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De lá, saíram com o ex-deputado do PTB, Rubens Beirodt Paiva, que nunca mais seria visto, vivo ou morto. Paiva, eleito por São Paulo em 1962 foi cassado por ter apelado, em discurso em 31 e março de 1964, à resistência ao golpe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até 1995, Rubens Paiva, como centenas de brasileiros, militantes políticos e sindicais, estudantes, camponeses, jornalistas, professores, profissionais liberais de posições democráticas, foram considerados apenas como desaparecidos, assassinados que foram nos porões da ditadura.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-acd58b1b86fd5871108c228dbe9844e2" style="font-size:21px"><strong>O filme narra esta história em três atos.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro, acompanha o dia-a-dia da família Paiva, por volta do momento de seu sequestro. Rubens Paiva se exilou, após sua cassação, na Iugoslávia e depois na França. Em 1965, volta ao Brasil, se mudando com a família de São Paulo para o Rio, onde retomou a profissão de engenheiro. A única atividade política que desenvolveu neste período foi o de proporcionar o contato dos militantes exilados ou clandestinos com suas famílias,como portador da correspondência entre eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Monitorado pelos órgãos da repressão, Paiva é sequestrado, torturado e morto entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1971. Sua família é mantida em cárcere privado por vários dias, com sua casa ocupada por agentes do DOI-CODI. Paiva saiu de sua casa guiando o próprio carro, o que depois se tornou uma evidência de seu sequestro, pois, dias após, uma irmã foi buscar seu carro no quartel e recebeu um comprovante com o carimbo do Exército.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua esposa Eunice Paiva (Nice) foi conduzida com sua filha Eliana ao mesmo quartel onde o marido havia sido morto. Ficou incomunicável sob duro interrogatório por cinco dias. Sua filha foi libertada um dia depois da detenção da mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este primeiro ato, o mais dramático do filme, tenta situar as circunstâncias do sequestro e morte de Rubens Paiva, numa detalhada reconstituição de época, onde o diretor não se interessa em um painel mais amplo da situação do país. A repressão atingia vastos setores sociais, o que levou ao desmantelamento das organizações políticas e sindicais construídas antes do Regime Militar. Mas, o primeiro ato é impactante e recoloca em jogo os horrores da Ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os outros dois atos são curtos. O segundo põe foco em quando, 24 anos depois do martírio de Rubens Paiva, o Estado brasileiro foi obrigado a reconhecer a morte dos chamados desaparecidos, graças à edição da Lei 9.140/1995, que determinava a expedição dos atestados de óbito dos cidadãos assassinados pelo regime de 1964. Esta conquista trará a marca da batalha de Nice Paiva -interpretada extraordinariamente por Fernanda Torres &#8211; já então uma respeitada advogada da área dos direitos humanos e ambientais, pelo reconhecimento da verdade, isto é, do assassinato de seu marido. Mas, ainda que a expedição da certidão de óbito tenha sido uma vitória, ainda mantinha a imputabilidade do Estado nas execuções dos opositores da Ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalmente, o terceiro ato põe em cena a família Paiva à época da constituição da Comissão Nacional da Verdade, numa longa sequência em que Fernanda Montenegro (interpretando Nice nesta fase), sem dizer uma palavra, rouba a cena, num ponto alto do filme. Nice Paiva, acometida de Mal de Alzheimer morreu em 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme traz à baila o problema fundamental e irresoluto da responsabilização e punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura e a questão da tutela militar que permanece até hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É emocionante a cena em que Nice recebe o atestado de óbito de Rubens Paiva, mesmo se não trate da imensa limitação daquele ato. Por anos, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) &#8211; constituída em 1995 e dissolvida por Bolsonaro em 2022 &#8211; lutou para que os atestados trouxessem a data, o lugar e as causas das mortes dos “desaparecidos”. Em 2009 o Supremo admitiu a revisão dos atestados, mas estabeleceu que as famílias deveriam entrar com ação judicial e a decisão caberia aos juízes. Em 15 anos, apenas 13 decisões judiciais foram tomadas em favor das famílias.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-e984196d8b7b1a44094968a866eaedfc" style="font-size:21px"><strong>“Ainda estou aqui”, é a arte que nos traz à realidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A exibição do filme coincide com a divulgação do relatório da Polícia Federal sobre o golpe que vinha sendo tramado por vários generais, nas entranhas das Forças Armadas, para impedir a posse de Lula em 2023. Os fatos retratados no filme têm toda relação com os fatos revelados neste relatório da PF.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A recente tentativa de golpe não é questão de CPF (pessoa física), como alguns querem fazer parecer, mas de CNPJ (pessoa jurídica), a própria instituição Forças Armadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A anistia dada em 1979 aos agentes da ditadura e a tutela militar consagrada na Constituição de 1988 (artigo 142), permitem que eles também &#8211; torturadores, assassinos, generais golpistas e seus aprendizes &#8211; ainda estejam aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No final do filme, a música “É preciso dar um jeito, meu amigo” de Erasmo Carlos é superposta ao registro da impunidade dos militares. Salas cheias aplaudem entusiasticamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ainda estou aqui” dá ânimo à luta que continua.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eudes Baima</strong></p>
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		<title>O filme “Argentina, 1985”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Mar 2023 23:09:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lançado em 2022, o filme dirigido por Santiago Miltre está disponível em plataforma streaming. Nele, desenvolve-se o tenso processo no qual o alto escalão militar da ditatura (1976-83), como Videla e outros, vai à julgamento na justiça civil. O filme retrata o momento após as eleições diretas de 1983, quando cresce a exigência de punição. [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Lançado em 2022, o filme dirigido por Santiago Miltre está disponível em plataforma streaming. Nele, desenvolve-se o tenso processo no qual o alto escalão militar da ditatura (1976-83), como Videla e outros, vai à julgamento na justiça civil. O filme retrata o momento após as eleições diretas de 1983, quando cresce a exigência de punição. É revogada a autoanistia dos militares e se inicia o processo do julgamento com a promotoria coletando depoimentos e provas numa corrida contra o tempo frente a ameaças e pressões institucionais para salvar os criminosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa luta por memória e justiça na Argentina ocorre num contexto de crise na década de 1980 com alta da inflação, carestia, aumento da pobreza e mobilizações de massa. Esse caldo abala os alicerces das ditaduras bancadas pelos EUA na América Latina. No Uruguai, em 1983, a ditadura é derrotada no plebiscito por uma reforma constitucional. Já no Brasil, em 1979, as greves operárias, da qual nascem o PT e, depois a CUT, abrem o caminho para as Diretas Já. Esse pano de fundo, da mobilização popular, foi o fator decisivo na Argentina para que se impusesse às instituições o julgamento e punições inéditas da cúpula das Forças Armadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certamente, o registro do protagonismo das ruas permitiria ver o movimento vivo da luta de classes, sem o qual não haveria tal desfecho. O que, evidentemente, não tira o mérito e a qualidade do filme que é dramaticamente atual, em especial para o Brasil. Aqui, não houve punição dos militares com o fim da ditadura. Pelo contrário, a Lei da anistia (1979) os absolveu e, ainda, foi ratificada pelo STF em 2010. Sem uma reforma estrutural, veio o golpe que pariu Bolsonaro e acentuou a tutela militar com o agigantamento da militarização do Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grito do “sem anistia” na posse de Lula é a exigência de hoje e de ontem, não tem nada de pacificar, sobretudo após a conspiração de 8 de janeiro que, no andar das investigações, não chegou aos generais. A luta deve seguir, porque, cedo ou tarde, as ruas voltarão mais fortes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na história, como retrata o filme, não se perdoa o imperdoável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo Riela</p>
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		<title>Leitura de férias: Kanikosen &#8211; O Navio dos Homens</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Jan 2022 13:56:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2021, a Editora Veneta lançou o Kanikosen – O Navio dos Homens, adaptação em mangá de Gõ Fujio para o livro de Takiji Kobayashi. Kobayashi foi um nome destacado da chamada literatura proletária japonesa das primeiras décadas do Século XX. Esta corrente literária se caracterizou por registrar a difícil transição do Japão a uma [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Em 2021, a Editora Veneta lançou o Kanikosen – O Navio dos Homens, adaptação em mangá de Gõ Fujio para o livro de Takiji Kobayashi.<br><br>Kobayashi foi um nome destacado da chamada literatura proletária japonesa das primeiras décadas do Século XX. Esta corrente literária se caracterizou por registrar a difícil transição do Japão a uma economia industrial e urbana que se dará, como observa Ciro Seiji Yoshiyasse, na apresentação da obra, “no interior da mesma aristocracia secular”.<br><br>Um dos ramos onde o pior de dois mundos (os métodos pré-capitalistas de opressão e a moderna exploração do capital) se projetava era o da pesca de caranguejos gigantes nos mares gelados do Norte, na fronteira marítima do Japão com a URSS. O ciclo da pesca, beneficiamento e embalagem do caranguejo se completava inteiramente nos navios que, por isso mesmo, abrigava diferentes categorias de trabalhadores, pescadores, operários, etc., além do corpo de comando da embarcação. A hierarquia naval, contudo, tinha papel apenas formal, uma vez que os feitores e gerentes das empresas proprietárias é que ditavam as cruéis regras trabalhistas em vigor. Importante observar que as incursões aos limites marítimos da Rússia tinham também o objetivo de ameaçar a nascente república soviética.<br><br>Os navios-fábrica passaram à história como palcos das piores condições de trabalho e exploração a que trabalhadores eram submetidos naquele período. Os vínculos de trabalho beiravam o escravismo, com pescadores e operários pagando por tudo que usavam no seu ofício, de forma que não chegava a se pagar um salário real ao final do mês. Em grande parte, eram jovens, inclusive estudantes, aliciados sob falsas promessas.<br><br>Em Kanikosen – O Navio dos Homens, Takiji Kobayashi narra a primeira greve de trabalhadores destes navios, neste caso, no navio Hakuko Maru. Submetidos a condições desumanas, vivendo por meses em meio à podridão dos porões da embarcação, assombrados pelo iminente risco de morte, enquanto os oficiais, funcionários do Império e representantes das empresas se refestelavam em banquetes no convés do Capitão, aqueles jovens trabalhadores descobrem sua força numérica e a necessidade de sua organização. A força do mangá de Gõ Fujio, advinda da potência dramática do clássico de Takiji Kobayashi, reside justamente no registro vivo da trajetória de tomada de consciência da classe e da luta que se segue.<br><br>Takiji Kobayashi começou a reunir os materiais de pesquisa para Kanikosen em 1926, e escreveu o livro ao longo do ano de 1928. O realismo da obra e sua narração que usa técnicas de vanguarda (por exemplo, a montagem de tipo cinematográfico) a serviço de uma vigorosa denúncia da exploração daqueles trabalhadores teve enorme impacto entre os leitores japoneses, quando do seu lançamento em 1929. A censura e proibição de circulação que o livro sofreu não diminuiu sua popularidade e influência. Takiji Kobayashi, que se filiará ao PC do Japão, se projetou como um ativista nos círculos culturais, com audiência nas camadas proletárias e jovens. Por isso pagou com seu sequestro e morte pela temida Kempeitai, o braço policial-militar do Exército Imperial Japonês, de 1881 a 1945. A adaptação de Gõ Fugio incorpora o destino de Kobayashi na narrativa de Kanikosen, com sua morte abrindo e fechando o mangá.<br><br>As férias escolares são ocasião para conhecer Kanikosen – O Navio dos Homens, que além de ser um grande momento dos quadrinhos, nos traz este episódio do movimento operário japonês que conhecemos tão pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eudes Baima</strong></p>
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		<title>Pagu: revolucionária na arte, na política e na vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Jun 2021 18:22:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há 111 anos, em 9 de junho de 1910, nascia Patrícia Galvão, mulher que gravou uma obra artística, crítica e militante através de 4 décadas, entre os anos de 1920 e sua morte, em 1962, de intensa presença na arena pública. Escritora de vanguarda, crítica de arte e literatura de pena implacável, militante comunista, que, [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Há 111 anos, em 9 de junho de 1910, nascia Patrícia Galvão, mulher que gravou uma obra artística, crítica e militante através de 4 décadas, entre os anos de 1920 e sua morte, em 1962, de intensa presença na arena pública.<br><br>Escritora de vanguarda, crítica de arte e literatura de pena implacável, militante comunista, que, rompida com o partido stalinista, se aproxima dos trotskistas (pagando por isso nas prisões de Vargas, tanto apanhando dos esbirros do Estado quanto dos membros do PCB), seguiu vida afora sem nunca abandonar suas convicções socialistas.<br><br>Patrícia, que se eternizou como Pagu, um apelido nascido de um poema de Raul Bopp onde a chamava assim por pensar que seu nome era Patrícia Goulart, surge na vida literária no final dos anos de 1920 como colaboradora da segunda e mais radical fase da Revista de Antropofagia, animada por Oswald de Andrade. Já neste momento, sua obra poética se destacava pela radicalização do modernismo literário, uma forma de fidelidade à atitude artística inaugurada pela Semana de 22 e que, pouco a pouco, foi abandonada pelos seus principais representantes, que foram se acomodando esteticamente às formas artísticas mais comportadas.<br><br>A colaboração artística e teórica com Oswald se converte por um breve período em um casamento. A união dos dois coincide com a aproximação e filiação do casal ao Partido Comunista Brasileiro. Neste período, Oswald e Pagu editam um jornal de agitação política e artística chamado O Homem do Povo (1931), onde Pagu escrevia uma página intitulada A Mulher do Povo. Oswald e Pagu tentam conciliar em O Homem do Povo sua liberdade criativa e a militância política no PCB. O jornal durou apenas 8 edições, sendo fechado depois de escaramuças com estudantes de Direito ligados à reação e com a polícia. O PCB fingiu que não era com ele.</p>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img fetchpriority="high" decoding="async" width="412" height="600" src="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.18.jpeg" alt="" data-id="13583" data-link="https://otrabalho.org.br/?attachment_id=13583" class="wp-image-13583" srcset="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.18.jpeg 412w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.18-206x300.jpeg 206w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.18-103x150.jpeg 103w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.18-288x420.jpeg 288w" sizes="(max-width: 412px) 100vw, 412px" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" width="987" height="1024" src="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-987x1024.jpeg" alt="" data-id="13584" data-full-url="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55.jpeg" data-link="https://otrabalho.org.br/?attachment_id=13584" class="wp-image-13584" srcset="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-987x1024.jpeg 987w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-289x300.jpeg 289w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-145x150.jpeg 145w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-768x797.jpeg 768w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-696x722.jpeg 696w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-1068x1108.jpeg 1068w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55-405x420.jpeg 405w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.41.55.jpeg 1234w" sizes="(max-width: 987px) 100vw, 987px" /></figure></li></ul></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Oswald de Andrade logo se enfastia da militância e se retira da cena política após o episódio, mas Pagu se engaja a fundo, sendo figura presente nas lutas proletárias, em especial entre os estivadores de Santos. Sua ruptura com o PCB se precipitará quando, numa manifestação, ainda em 1931, em defesa da vida de Sacco e Vanzetti, Pagu enfrenta a Polícia a Cavalo para recolher o corpo do estivador negro Herculano de Souza, morto no confronto. O PCB não se solidarizará e não a reconhecerá como militante, afirmando ser Pagu “uma agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”. O fato a levou à prisão, fazendo dela a primeira mulher presa política na história do Brasil.<br><br>Pagu não foi membro da Oposição de Esquerda, mas se aproximou dos trotskistas, a partir de seu afastamento do PCB (Pagu, contudo, só se desfiliará do partido oficialmente em 1945). O resultado literário de sua experiência militante será o romance Parque Industrial, escrito em 1932 e publicado sob o pseudônimo de Mara Lobo, em 1933, chamado por ela mesma de “romance proletário”. Parque Industrial é um exercício ousado de renovação temática e formal do romance brasileiro, aparentado do experimentalismo de Oswald de Andrade em Memórias Sentimentais de João Miramar e em Serafim Ponte Grande, mas muito mais mergulhado na temática política. Distinto do chamado romance social, para o qual a abordagem da temática política e social implicava um recuo na inovação formal, Parque Industrial combina a denúncia social com a recriação da linguagem e da narrativa tradicionais. Passado na região do Brás, então coração operário da cidade de São Paulo, o romance “detém-se no comportamento do proletariado urbano feminino. Criticando a sociedade burguesa, de um ângulo socialista, é levada a ferroar a aristocracia paulista, ferindo velhos círculos sociais frequentados pelo modernismo de 22. Concentrando-se nas mulheres operárias (…), satiriza o feminismo burguês”, nos diz Augusto de Campos.<br></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="649" src="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-1024x649.jpeg" alt="" class="wp-image-13585" srcset="https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-1024x649.jpeg 1024w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-300x190.jpeg 300w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-150x95.jpeg 150w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-768x487.jpeg 768w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-696x441.jpeg 696w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-1068x677.jpeg 1068w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24-663x420.jpeg 663w, https://otrabalho.org.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Image-2021-06-10-at-11.01.24.jpeg 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Parque Industrial foi vítima do silêncio da crítica, inclusive de figuras do modernismo, considerado escandaloso, por não se furtar a explicitar a violência, inclusive sexual, contra a mulher operária. Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu e igualmente crítico literário, observa que o livro “deve ter desagradado também aos comunistas, em estado de policiamento moralizante”.<br><br>Como resultado da rebelião militar encaminhada pela Aliança Nacional Libertadora, frente política animada pelo PCB, e esmagada por Vargas, Pagu, como centenas de militantes foi novamente presa, desta vez por 5 anos. Libertada, incursionou pelo extremo oriente. Curiosamente, nesta viagem, entrevistou Sigmund Freud, presente no mesmo navio que a levava à China. Depois se exilou na Europa, onde amargou uma crise depressiva, mas não se afastou da luta contra o nazi-fascismo, se filiando ao PC Francês, sob o codinome de Leone, mas se ligando a artistas que com ele tinham rompido mais ou menos pelos mesmos motivos pelos quais ela se afastou do PCB: André Breton, Benjamin Péret. Acabou presa pelo Governo Laval e ameaçada de ser deportada ou para a Itália ou para a Alemanha, destino do qual acabou sendo salva pela interferência da diplomacia brasileira.<br><br>De volta ao Brasil, retoma a atividade literária e desenvolve intensa militância crítica, tanto na imprensa independente, como no caso de sua colaboração no jornal Vanguarda Socialista, ao lado de Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz, como na grande imprensa.<br><br>Pagu perseverará na luta por uma arte e uma literatura independentes, denunciando tanto a tentativa da burguesia de institucionalizar o fazer artístico quanto o chamado “realismo socialista” com que o stalinismo pretendia regulamentar a arte.<br><br>Na sua atividade crítica se enfrenta com o conservadorismo literário, ao qual se converteu boa parte dos rebeldes de 22, e com o autoritarismo burocrático que caracterizava a linha cultural do stalinismo. Colocará em circulação no meio nacional nomes decisivos da vanguarda literária nacional e internacional, como Stéphane Mallarmé, Paul Valéry, James Joyce (foi a primeira tradutora no Brasil de fragmentos do Ulysses), e será uma das principais representantes, mesmo que quase espontaneamente, das ideias contidas no Manifesto por Uma Arte Independente e Revolucionária, de Breton e Trotsky.<br><br>Pagu desapareceu em 1962, em plena atividade como artista e como crítica. Augusto de Campos resumiu a importância de sua figura em nossa história política e cultural de uma forma que segue atual neste seu 111º aniversário: “Mas nada de homenagens póstumas. Deixemos isso para os literatti ávidos de comemorações acadêmicas. O que conta é a homenagem viva. A que reconhece as implicações políticas, estéticas e culturais de uma vida militante. Porque Pagu foi revolucionária na arte, na política e na prática da vida”.<br><br><strong>Eudes Baima</strong><br><br><em>Para saber mais:</em><br>-CAMPOS, Augusto (Org.). Pagu: vida-obra. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.<br>-GALVÃO, Patrícia (como Mara Lobo). Parque Industrial. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006.<br>-Filme: Eternamente Pagu, de Norma Bengell (1988). Disponível: https://www.youtube.com/watch?v=MFylqrCYB_U</p>
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		<title>&#8220;Judas e o Messias Negro&#8221; resgata história e coloca questões muito atuais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 May 2021 16:00:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filme&#160;Judas e o Messias Negro&#160;foi um dos destaques na última premiação do Oscar com 6 indicações (Melhor filme, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Canção Original por ‘Fight For You’), levando duas estatuetas para casa, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Daniel Kaluuya) e Melhor Canção Original na voz da [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O filme&nbsp;Judas e o Messias Negro&nbsp;foi um dos destaques na última premiação do Oscar com 6 indicações (Melhor filme, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Canção Original por ‘Fight For You’), levando duas estatuetas para casa, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Daniel Kaluuya) e Melhor Canção Original na voz da cantora e compositora H.E.R. A fotografia do filme é belíssima e nos leva ao final da década de 60 em Chicago, acredito que deveria ter levado também essa estatueta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A trama do filme se passa na cidade de Chicago, relatando parte da história de Fred Hampton (Daniel Kaluuya), jovem de apenas 20 anos que se tornou líder do Partido dos Panteras Negras no estado de Illinois. Sob a direção de Shaka King (de&nbsp;Newlyweeds&nbsp;— filme de 2013), a história retoma o ano de 1969, e gira em torno de&nbsp;Fred Hampton e&nbsp;Bill O&#8217;Neal (Lakeith Stanfield), homem negro e informante do FBI no partido, que contribui para o assassinato de&nbsp;Hampton&nbsp;aos 21 anos. Nessa época os Panteras Negras já eram considerados “a maior ameaça a segurança interna americana”, segundo o FBI. Como diria Steve Biko, se os negros decidem se organizar e reagir de forma coletiva “o sistema liberal parece encontrar nisso uma anomalia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme levanta questões na luta ao combate ao racismo que tem toda atualidade. Um dos destaques é a importância dada à questão de que para pôr um fim ao racismo nos EUA, é preciso combater toda sua estrutura capitalista, que golpeia e oprime todas as camadas exploradas da sociedade, como os negros, latinos, brancos pobres etc. A passagem no filme em que Hampton se dirige e propõe unidade aos Young Patriots (organização que reunia brancos pobres do Sul) e os Young Lords (Organização que luta pelos direitos humanos e civis porto riquenhos), reflete a necessidade de união da atualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano passado, após o assassinato de Goerge Floyd, presenciamos uma explosão social no coração dos Estados Unidos, com mobilizações que extrapolaram as questões comunitárias ou raciais, e que uniu negros, latinos, juventude branca, que se alastrou por mais de 150 cidades e diversos países do mundo. A frase “não consigo respirar”, últimas palavras de Floyd ecoaram por todo o mundo, representando o sufocamento que o sistema capitalista causa em toda a sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia 1 de setembro de 2007 tive a oportunidade de presenciar o discurso de um ex-militante do Panteras Negras em Nova Orleans, durante o Tribunal Internacional Furacão Katrina. Malik B. Rahin, foi uma das pessoas que testemunhou durante o tribunal internacional, relatando como a população negra em Nova Orleans ficou entregue a própria sorte após a passagem do furacão e todo trabalho comunitário que realizaram. Malik foi co-fundador da Common Ground Collective, uma rede de suporte para os residentes da cidade após a tragédia do furacão. Em conversa com Malik, no intervalo das atividades ele destacou que muitos negros foram salvos por um grupo de militantes brancos do Texas, que tinham acesso livre na cidade pelo simples fato de serem brancos; qualquer negro que transitasse na cidade, mesmo que não estivesse fazendo nada, tinha grande possibilidade de ser assassinado, como muitos negros infelizmente foram. Reforçando a necessidade e importância da unidade de todos aqueles que se opõem a esse sistema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Judas e o Messias Negro é um ótimo filme, com uma fotografia belíssima e que resgata parte importante da história da luta dos negros nos EUA, que muitas vezes foram deturpadas pelo FBI.<br><br><strong>Joelson Souza</strong></p>
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		<title>Diego Armando Maradona, presente!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Nov 2020 21:38:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com apenas 60 anos, completados em 30 de outubro, morreu o extraordinário jogador de futebol e um “esquerdista de pé, de fé e de cérebro”, como ele próprio dizia, Diego Maradona. Os que o viram jogar jamais esquecerão os momentos de pura arte, espontaneidade e garra que marcaram a sua carreira no esporte mais popular [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Com apenas 60 anos, completados em 30 de outubro, morreu o extraordinário jogador de futebol e um “esquerdista de pé, de fé e de cérebro”, como ele próprio dizia, Diego Maradona.</p>
<p>Os que o viram jogar jamais esquecerão os momentos de pura arte, espontaneidade e garra que marcaram a sua carreira no esporte mais popular do planeta. Fora de campo, Maradona nunca renegou a sua origem pobre numa favela da periferia de Buenos Aires, Villa Fiorito, onde o Dieguito já fazia das suas.</p>
<p>Sem ser um militante político organizado, Diego aproveitou os holofotes de sua fama mundial para várias vezes colocar-se ao lado dos oprimidos contra os opressores, com a consciência de que a pobreza da qual conseguira escapar graças ao futebol, não era algo natural, era responsabilidade de um sistema injusto e continuava açoitando a grande maioria dos povos do mundo.</p>
<p>Uma imagem de Maradona, tão presente como a de seus gols e jogadas mágicas, é a da sua entusiasmada participação no “enterro” da ALCA em Mar del Plata em 2005, ao lado de Nestor Kirchner, Lula, Hugo Chávez e milhares de manifestantes que comemoravam a derrota do projeto imperialista de George W.  Bush de anexar toda a América Latina a uma zona de livre comércio com os EUA.</p>
<p>Diego tinha um sentimento antiimperialista genuíno, que o levava a orgulhar-se de ser compatriota do Chê Guevara, a ser amigo de Fidel Castro, defensor de Lula, Evo e outros líderes hostilizados pelas elites submetidas aos “gringos” em nosso continente.</p>
<p>Milhares de jovens argentinos de sua geração perderam a vida ou ficaram mutilados pela máquina de guerra britânica na Guerra das Malvinas em 1982. Imagine-se o que sentiram os “hermanos” com os gols de Maradona – o de mão e o de placa – contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986!</p>
<p>O mesmo vale para o povão de Nápoles, discriminado, tal como seus vizinhos do sul da Itália, como “beduínos” pela elite do norte, ao verem o seu time ser duas vezes campeão contra as equipes de Turim e Milão, graças ao gênio de Maradona.</p>
<p>O negócio futebol, com os bilhões que movimenta, é cheio de tentações e Diego nunca foi “santo” ou um atleta exemplar. Tal como Garrincha, como lembrou Juca Kfouri, nunca poderia ter sido tenista, nadador ou jogador de vôlei ou basquete. É impossível qualquer comparação entre o que ele foi no futebol com outros ídolos como Pelé ou Messi (para não falar de Zico ou Rivelino, que uma imprensa “bairrista” chegou a comparar com Diego).</p>
<p>Ele foi um caso único, um jogador que apontava o dedo acusador contra a cúpula da FIFA presidida por Havelange, tanto no penalty inexistente que deu o título mundial de 1990 à Alemanha, como no episódio de sua suspensão da Copa de 1994 por um doping mal explicado,  com a cumplicidade da máfia que dirigia a AFA (Associação de Futebol Argentino) então.</p>
<p>Maradona fará falta num mundo em crise, cuja falência do sistema imperialista se tenta maquiar com doses maciças de mediocridade e conformismo para tentar anestesiar a resistência dos povos. Diego foi todo o contrário do medíocre e conformista, foi um homem de nosso tempo que tomou partido contra os poderosos. Diego Armando Maradona, presente!</p>
<p>Julio Turra</p>
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