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CORRENTE O TRABALHO DO PT

A organização do partido e a literatura do partido

26 de janeiro de 2016
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I.V. Lênin

13 de novembro de 1905

As novas condições do trabalho socialdemocrata que se formaram na Rússia depois da Revolução de Outubro (1) puseram na ordem do dia a questão da literatura do partido. A diferença entre a imprensa ilegal e a legal – essa triste herança da época da Rússia feudal e autocrática – começa a desaparecer. Ainda não morreu, longe disso. O governo hipócrita do nosso primeiro-ministro (2) leva ainda o arbítrio ao ponto de o Izvéstia Soveta Rabótchikh Deputátov (3) ser impresso ilegalmente, mas, além da vergonha para o governo, além dos novos golpes morais que lhe são desferidos, nada se consegue com as estúpidas tentativas de «proibir» aquilo que o governo não tem forças para impedir.

Quando existia a diferença entre a imprensa ilegal e legal a questão da imprensa do partido e não do partido resolvia-se de modo extremamente simples e extremamente falso, monstruoso. Toda a imprensa ilegal era do partido, era editada por organizações, dirigida por grupos ligados de uma maneira ou de outra a grupos de militantes práticos do partido. Toda a imprensa legal era não partidária — porque os partidos eram proibidos —mas “tendia” para um ou outro partido. Eram inevitáveis alianças monstruosas, “coabitações” anormais, falsas coberturas; com as forçadas reticências de pessoas que queriam expressar concepções partidárias misturava-se a irreflexão ou a covardia de pensamento daqueles que não se tinham elevado até essas concepções, daqueles que não eram, no fundo, homens de partido.

Um período maldito de discursos esópicos, de baixeza literária, de linguagem de escravos, de servidão ideológica. O proletariado pôs fim a esta podridão, que sufocava tudo o que de vivo e fresco existia na Rússia. Mas por enquanto o proletariado só conquistou uma meia liberdade para a Rússia.

Após 1905, mudar a forma de organizar as coisas

A revolução ainda não está concluída. Se o tsarismo já não tem forças para vencer a revolução, a revolução ainda não tem forças para vencer o tsarismo. E vivemos numa época em que por toda a parte e em tudo se manifesta esta combinação antinatural do partidarismo aberto, honesto, direto, consequente, com a “legalidade” clandestina encoberta, “diplomática”, manhosa. Esta combinação antinatural manifesta-se também no nosso jornal: por mais que o Sr. Gutchkov graceje acerca da tirania socialdemocrata, que proíbe a publicação de jornais moderados liberais-burgueses, um facto continua a ser um facto — o Órgão Central do Partido Operário Socialdemocrata da Rússia, o Proletário, continua fora das fronteiras da Rússia autocrática-policial.

Seja como for, a meia revolução obriga a todos nós a passar imediatamente a uma nova maneira de organizar as coisas. Agora a literatura pode, mesmo “legalmente”, ser 90% partidária. A literatura deve tornar-se partidária. Em oposição aos costumes burgueses, em oposição à imprensa empresarial e mercantil burguesa, em oposição ao carreirismo e ao individualismo literários burgueses, ao “anarquismo aristocrático” e à corrida ao lucro, o proletariado socialista deve avançar o princípio da literatura do partido, desenvolver este princípio e aplicá-lo da forma mais completa e integral possível.

Em que consiste este princípio da literatura de partido? Não é só no fato de, para o proletariado socialista, a atividade literária não poder ser um instrumento de lucro de pessoas ou grupos; ela não pode ser, de modo algum, uma atividade individual, não dependente da causa proletária geral. Abaixo os literatos apartidários! Abaixo os literatos super-homens! A atividade literária deve tornar-se uma parte da causa geral proletária, uma engrenagem e um parafuso de um só grande mecanismo socialdemocrata posto em movimento por toda a vanguarda consciente de toda a classe operária.

A atividade literária deve tornar-se uma parte do trabalho partidário socialdemocrata organizado, planificado, unificado.

“Todas as comparações são mancas”, diz um provérbio alemão. Também manca a minha comparação da literatura com um parafuso do movimento vivo com um mecanismo. Talvez se encontrem mesmo intelectuais histéricos que ergam brados a propósito desta comparação, que rebaixa, paralisa, “burocratiza” a livre luta ideológica, a liberdade de crítica, a liberdade da criação literária, etc., etc. No fundo semelhantes brados seriam apenas uma expressão de individualismo intelectual burguês. Não se discute que a atividade literária é a que menos se submete à igualização e nivelamento mecânicos, à dominação da maioria sobre a minoria. Não se discute que nesta atividade é absolutamente necessário assegurar maior amplitude à iniciativa pessoal, às inclinações individuais, amplitude ao pensamento e à fantasia, à forma e ao conteúdo. Tudo isto é indiscutível, mas tudo isto apenas prova que a parte literária da atividade partidária do proletariado não pode ser mecanicamente identificada com outras partes da atividade partidária do proletariado. Tudo isto de modo nenhum refuta a tese, alheia e estranha para a burguesia e para a democracia burguesa, de que a atividade literária deve necessária e obrigatoriamente tornar-se uma parte, indissoluvelmente ligada às outras partes, do trabalho partidário socialdemocrata. Os jornais devem tornar-se órgãos das diferentes organizações do partido. Os literatos devem obrigatoriamente fazer parte das organizações do partido. As editoras e depósitos, lojas e salas de leitura, bibliotecas e diferentes comércios de livros, tudo isto deve tornar-se do partido e ser sujeito a prestação de contas. O proletariado socialista organizado deve seguir todo este trabalho, controlá-lo todo, introduzir em todo este trabalho, sem qualquer exceção, a corrente viva da causa proletária viva, retirando, deste modo, toda a base ao velho princípio russo semioblomoviano (4) e semi-mercantil: o escritor escreve como lhe convém, o leitor lê como lhe convém.

Liberdade de imprensa. Liberdade de associação

Não diremos, evidentemente, que esta transformação da atividade literária, que foi estropiada pela censura asiática e pela burguesia europeia, possa dar-se de repente. Estamos longe de pensar em defender qualquer sistema uniforme ou a resolução da tarefa com alguns decretos. Não, neste domínio menos do que em qualquer outro não se pode sequer falar de esquematismo. A questão consiste em que o nosso partido, em que todo o proletariado socialdemocrata consciente de toda a Rússia, tenham compreensão desta nova tarefa, a coloquem corretamente e se lancem em toda a parte à sua resolução. Ao sair do cativeiro da censura feudal, nós não queremos e não iremos para o cativeiro das relações literárias burguesas-mercantis. Queremos criar e criaremos uma imprensa livre não apenas no sentido policial, mas também no sentido da liberdade em relação ao capital, da liberdade em relação ao carreirismo; mais ainda: também no sentido da liberdade em relação ao individualismo burguês-anarquista.

Nessas últimas palavras parecerão um paradoxo ou uma troça de que são objeto os leitores. Como! Gritará talvez um intelectual, ardente partidário da liberdade. Como! Quereis subordinar à coletividade uma coisa tão sutil e individual como a criação literária! Quereis que os operários resolvam por maioria de votos as questões da ciência, da filosofia, da estética! Negais a liberdade absoluta da criação ideológica individual!

Tranquilizai-vos, senhores! Em primeiro lugar, trata-se da literatura do partido e da sua subordinação ao controle do partido. Cada um é livre para escrever e dizer tudo o que queira, sem a menor limitação. Mas cada associação livre (incluindo um partido) é também livre de afastar aqueles membros que utilizam o nome do partido para defender concepções antipartido. A liberdade de palavra e de imprensa deve ser completa. Mas a liberdade de associação também deve ser completa. Eu sou obrigado a atribuir-lhe, em nome da liberdade de palavra, o pleno direito de gritar, de mentir e de escrever o que quiseres. Mas tu és obrigado a atribuir-me, em nome da liberdade de associação, o direito de estabelecer ou de romper a associação com pessoas que dizem isto e aquilo. O partido é uma associação voluntária, que se dissolveria inevitavelmente, primeiro ideologicamente e depois também materialmente, se não se depurasse dos membros que defendem concepções antipartido. E para definir as fronteiras entre o que é de partido e o que é antipartido existe o programa do partido, existem as resoluções tácticas do partido e os seus estatutos, existe, finalmente, toda a experiência da socialdemocracia internacional, das associações voluntárias internacionais do proletariado, que incluiu constantemente nos seus partidos determinados elementos ou correntes não de todo consequentes, não de todo puramente marxistas, não de todo corretas, mas que também empreendeu constantemente “depurações” periódicas no seu partido. Também assim será conosco dentro do partido, senhores partidários da “liberdade de crítica”. Agora, nosso partido está para tornar-se de repente massivo. Estamos agora a atravessar uma transição brusca para uma organização aberta, à qual aderirão inevitavelmente muitas pessoas inconsequentes (do ponto de vista marxista), talvez até alguns cristãos, talvez até alguns místicos. Temos estômagos fortes, somos marxistas duros como pedra. Digeriremos essas pessoas inconsequentes. A liberdade de pensamento e a liberdade de crítica dentro do partido nunca nos obrigarão a esquecer a liberdade de agrupamento das pessoas em associações livres chamadas partidos.

Em segundo lugar, senhores individualistas burgueses, devemos dizer-vos que os vossos discursos sobre a liberdade absoluta não passam de hipocrisia. Numa sociedade baseada no poder do dinheiro, numa sociedade em que as massas dos trabalhadores vivem na miséria e em que um punhado de ricos vive como parasitas, não pode haver “liberdade” real e efetiva. É livre em relação à sua editora burguesa, senhor escritor? Ao seu público burguês, que lhe exige pornografia sem limites (5) e quadros, a prostituição sob a forma de “complemento” da “sagrada” arte cénica? Esta liberdade absoluta é uma frase burguesa ou anarquista (porque, como concepção de mundo, o anarquismo é o “burguesismo” voltado do avesso). Não se pode viver na sociedade e ser livre em relação à sociedade. A liberdade do escritor, do artista, da atriz burguesa é apenas uma dependência mascarada (ou que hipocritamente se mascara) do saco do dinheiro, do suborno, da situação de viver por conta de alguém.

E nós, socialistas, desmascaramos esta hipocrisia, arrancamos as tabuletas falsas, não para obter uma literatura e uma arte não de classe (isto só será possível na sociedade socialista sem classes) mas para contrapor a uma literatura hipocritamente livre, mas de fato ligada à burguesia, uma literatura realmente livre, abertamente ligada ao proletariado.

Será uma literatura livre porque não será para o proveito e a carreira, mas para a ideia do socialismo e a simpatia com os trabalhadores que recrutarão novas e novas forças para as suas fileiras. Será uma literatura livre porque servirá não uma heroína saciada, não os “dez mil de cima” aborrecidos e sofrendo de obesidade, mas milhões e dezenas de milhões de trabalhadores que constituem a flor do país, a sua força, o seu futuro. Será uma literatura livre, que fecundará a última palavra do pensamento revolucionário da humanidade com a experiência e o trabalho vivo do proletariado socialista, que criará uma interação constante entre a experiência do passado (o socialismo científico, que concluiu o desenvolvimento do socialismo desde as suas formas primitivas, utópicas) e a experiência do presente (a presente luta dos camaradas operários).

Ao trabalho, pois, camaradas! Temos perante nós uma tarefa difícil e nova, mas grande e gratificante: organizar uma atividade literária ampla, multilateral e multiforme em estreita e indissolúvel ligação com o movimento operário socialdemocrata. Toda a literatura socialdemocrata deve tornar-se partidária. Todos os jornais, revistas, editoras, etc., devem lançar-se imediatamente a um trabalho de reorganização, preparação de uma situação em que eles sejam integrados, na base de uns ou outros princípios, numas ou noutras organizações do partido. Só então a literatura “socialdemocrata” tornar-se-á, de fato, socialdemocrata. Só então ela será capaz de cumprir o seu dever, só então ela será capaz, mesmo no quadro da sociedade burguesa, de escapar à escravatura da burguesia e de se fundir com o movimento da classe realmente avançada e revolucionária até ao fim.

Notas:

(1) Lênin refere-se à greve geral de toda a Rússia de outubro de 1905 que se realizou sob as palavras-de-ordem: fim da autocracia e convocação da assembleia constituinte entre outras.

(2) S. I. Vitte.

(3) Izvéstia Soveta Rabótchikh Deputátov (Notícias do Soviete de Deputados Operários): órgão oficial do Soviete de Deputados Operários publicado de 17 (30) de outubro a 14 (27) de dezembro de 1905.

(4) Oblómov: personagem principal do romance homónimo do escritor russo I. A. Gontcharov. Oblomovismo era compreendido com sinônimo de falta de força de vontade, de um estado de falta de atividade e de preguiça.

(5) aqui, pode ter havido um erro de edição na origem. Onde se lê ramkakh (limite), quando pelo sentido devia ser romanakh (romance).



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