Análise: golpe na Bolívia com a renuncia de Evo

(Photo by PEDRO PARDO / AFP)

Na tarde do domingo 10 de novembro, o general Willams Kaliman retirou o apoio do Exército ao presidente Evo Morales, que pela manhã havia aceito novas eleições, e ele renunciou. Com ele também o vice, Garcia Linera, os presidentes do Senado e da Assembleia, todos do Movimento ao Socialismo (MAS), que até então tinha 2/3 do parlamento e a maioria dos votos no 1º turno eleitoral de 20 de outubro, contestado pela oposição como “fraude”.

Em 12 de novembro, num Senado sem quórum, Jeanine Añez auto- proclamou-se presidente, com uma Bíblia na mão e prometeu eleições “o quanto antes”.

A seu lado estava Luís Fernando Camacho, o “Bolsonaro boliviano”, empresário do “comitê cívico” de Santa Cruz que liderou atos de violência contra a “fraude”, com queima de locais públicos e agressões a militantes do MAS.

Em seguida, Jeanine reuniu-se com chefes militares, dos quais recebeu a faixa presidencial. Todas as regras da constituição boliviana foram atropeladas. O governo Bolsonaro reconheceu imediatamente a “nova presidente”, havendo indícios de sua participação no golpe.

O “Valor Econômico” (12/11) publicou que Camacho reuniu-se com membros do governo no Itamaraty e no Palácio do Planalto em maio.

No mesmo dia 12, Evo e Linera chegaram ao México, com o asilo político dado por López Obrador, após denunciarem ameaças de prisão contra si e violências a seus próximos.

As forças sociais que deram o golpe
Debaixo do guarda-chuva de Trump, elas estão nítidas: Camacho é a oligarquia de Santa Cruz, irmã siamesa dos ruralistas brasileiros da fronteira, “branca” e racista, ligada ao agronegócio, que no 1º mandato de Evo (2005-08) ameaçou separar-se da Bolívia; empresários de outras regiões, sócios menores de multinacionais; setores de classe média urbana e os cooperativistas mineiros.

É preciso notar que as minas, privatizadas nos governos anteriores, não foram renacionalizadas por Evo, como ocorreu com o petróleo e gás. A estatal Comibol é minoritária na exploração das ricas jazidas do país e a lei das minas do governo do MAS incentivou as cooperativas, entes privados que contratam terceirizados com baixos salários e jornadas exaustivas, sem direito à sindicalização.

Assim, a força que tinham os mineiros nos anos 70/80, “coluna vertebral” da classe operária, foi abalada e hoje a sua Federação sindical – esteio da Central Operária Boliviana (COB) – é minoritária diante da Federação das cooperativas mineiras. O que pode explicar a dificuldade que teve a COB em defender Evo do golpe. Seu dirigente Huarachi, em 10 de novembro, sugeriu a sua renúncia para evitar “sangue entre bolivianos”.

A renúncia de Evo
O que leva à questão da atitude de Evo. O motim de policiais, negando-se a reprimir a violência da direita, já tornara a situação difícil para o governo. Autoridades atacadas por “comitês cívicos” já haviam renunciado antes que Evo recebesse o ultimato do general Kaliman (ex-adido militar da embaixada nos EUA).
Ao renunciar, Evo disse que havia discutido com companheiros e que o fazia para evitar mais violência. Ocorre que hoje Evo está no México e os setores populares que resistem ao golpe são atacados brutalmente pelo Exército e polícia.

Acusado de fraude pela oposição, Evo confiou na OEA – agência direta de Washington – que em 48 horas declarou irregularidades no pleito, precipitando o golpe. Presidente por 14 anos, Evo aparentava apoio majoritário e se vangloriava dos avanços econômicos do período, inclusive para as empresas privadas.

O fato é que o imperialismo dos EUA não aceita qualquer governo na América Latina que não se dobre 100% às suas exigências. Por isso, a defesa do povo boliviano contra o golpe e a denúncia de seu caráter pró-imperialista é incondicional. Em 12 de novembro, em meio a mobilizações contra o golpe em El Alto, La Paz e outras regiões, a COB condenou a violência da oposição e deu prazo de 24 horas para ser restabelecida “a ordem constitucional e a paz social”, senão haveria greve geral. Parece ser uma reação tardia.

O que não quer dizer que a situação vá se estabilizar, numa região convulsionada como a nossa, como mostra a greve geral no Chile.

Julio Turra