O aparelho democrata ataca Sanders

As primárias que elegem os delegados que decidirão o candidato do Partido Democrata às próximas eleições dos EUA já têm dado quase que irreversível vantagem a Joe Biden sobre Sanders. Se já no início de março, após a “Super Terça” (várias primárias estaduais simultâneas), todos os demais pré-candidatos tinham sido eliminados, nos últimos dias Biden, o representante do aparelho democrata tradicional, foi sendo imposto. Ele foi vice de Obama e representa a continuidade da política pró-Wall Street que, aliás, acabou resultando na eleição de Trump.

O eleitorado negro dos estados do sul votou majoritariamente em Biden, seguindo as orientações das igrejas reformadas negras. Mas é importante dizer também que Sanders tem negligenciado a questão negra como particular, negando a especificidade dada aos negros pelos séculos de escravidão e depois de segregação, rejeitando, portanto, a urgência de políticas específicas a eles.

Mas o fato mais determinante mesmo é a decisão do conjunto do aparelho Democrata, controlado pelas grandes corporações privadas e pelo mercado financeiro, de jogar todo peso em Biden e contra Sanders.

Sistema federal público e a classe trabalhadora
A oposição entre Biden e Sanders se cristaliza em uma questão: Medicare for all (sistema estatal de planos de saúde para todos os trabalhadores americanos). Sanders é a favor; Biden contra, defendendo a “melhoria” do Obama Care, que entrega os trabalhadores ao mercado de planos privados de saúde.

Os trabalhadores estadunidenses têm apenas poucas garantias comuns: seus direitos são codificados em contratos coletivos por empresa – cobertos apenas em uma cidade, um condado, ou um estado. Assim, a perspectiva de um sistema federal de saúde é central na unidade da classe trabalhadora americana.

O último congresso da AFL-CIO adotou a reivindicação de um sistema de cobertura para o estado, depois de muita batalha. Mas, num país onde os sindicatos apoiam o partido democrata, poucos deles declararam apoio a Sanders. Seus dirigentes alegam que o Medicare for all seria inferior aos planos privados negociados por eles com o patronato, por empresa.

Os muitos militantes sindicalistas pró Sanders fizeram uma campanha paciente de explicação junto à base, demonstrando que as garantias de um sistema estatal seriam mais seguras (no caso de perda ou mudança de emprego, ou de renegociação do contrato) e superiores (especialmente para as doenças graves, hospitalizações) àquelas propostas pelos planos privados.

Mas o jornal New York Times, em sua campanha pró Biden, publicou um artigo (9/3), “Mesmo que Sanders ganhe, Medicare for all não será implementado”, explicando que mesmo com Sanders sendo presidente e tendo maioria no Congresso, o aparelho democrata barrará essa reforma.

Pois tal aparelho não vai se alinhar com Sanders como o aparelho republicano fez com Trump, e será a luta de classe, que se intensifica nos EUA, a única capaz de arrancar esta conquista.


Corona: Empresas contra a Saúde Pública

A licença por enfermidade não existe nos EUA. Certos contratos coletivos, estados ou cidades preveem a possibilidade de uma semana de licença médica por ano a funcionários. Mas a maioria do povo não tem tal benefício. Não há direito à assistência médica gratuita, exceto a idosos e muito pobres. Mesmo com plano de saúde privado, se o tratamento não estiver coberto, ou você paga por fora, ou morre.
Depois de negar os riscos do Coronavírus, só em 5 de março Trump adotou as primeiras medidas, foram os parcos US $ 8,3 bilhões em pedidos de equipamentos médicos, pesquisa etc.
Em 11 de março, pressionado pelo colapso das bolsas, Trump anunciou um 2º pacote, muito mais demagógico do que efetivo. Prometeu liberar US$ 50 bilhões de ajuda às empresas, caso o Congresso aprove lei de compensação por afastamento ao trabalhador doente. E, em procedimento de emergência, pediu ao Tesouro adiamento da cobrança de imposto aos afetados.
Até o dia 18 de março, 10 mil casos já tinham sido registrados nos EUA, com 155 mortes.