“Os problemas dos EUA não serão resolvidos com pequenas leis”

Com a palavra, Dominique Toyer, da Coalisão por Igualdade Racial do Sul do Oregon

Entrevista publicada em 18/08/2020, antes da nova agressão policial contra Jakob Blake.

Qual é a situação em Portland?
As autoridades municipais disseram que as tropas federais deixaram a cidade, mas os ativistas em Portland dizem que isso não é verdade. Na verdade, houve redução do número de soldados e eles estão se tornando mais discretos. Mas sabemos que eles estão lá, e a polícia sempre sequestra pessoas em vans. Isso é o que aprendi em minhas recentes discussões com ativistas em Portland.

Também há uma forte repressão da polícia local, certo?
Sim, eles também atuam em Portland, a diferença é que as forças federais fazem isso mais disfarçadamente em meio aos manifestantes, enquanto marcham pacificamente, sendo sua presença menos conhecida.

As manifestações ainda são massivas, quais são as reivindicações?
Um número significativo de manifestantes foi visto voltando para casa desde que relatos da mídia disseram que as tropas federais “deixaram a cidade”. Pelo que entendi, os ativistas afro-americanos que estão por trás desses protestos pacíficos são a favor do “Black Lives Matter” (BLM, em inglês: “Vida Negras Importam”). Mas há muitos grupos locais, com agenda própria, ainda que a mídia veicule muito mais os protestos de brancos, como o “Muro das Mães” (organização de mães em defesa dos manifestantes do BLM), que protegem outros manifestantes com seus corpos.

O problema com isso é que dirigentes desse grupo colheram o impacto publicitário e criaram uma associação legal sem fins lucrativos e passaram a usar o agora famoso nome “Muro das Mães”, sem as mães afro-americanas que também estavam lá presentes. As ativistas do “Muro das Mães” têm sua própria agenda, não são “Black Lives Matter”, e usaram a publicidade para seu programa ao invés de reforçar vozes negras.

Este é um exemplo de problema que os ativistas afro-americanos que estão em Portland enfrentam no momento: quando tentam divulgar a situação de opressão excessiva sobre os afro-americanos, a mídia a eclipsa, mostrando como os ativistas brancos estão tentando fazer suas vozes serem ouvidas. E é isso que enfrentamos na América: não apenas um governo injusto e tendencioso, mas também uma mídia injusta e tendenciosa.

Quais são as reivindicações mais urgentes dos afro-americanos neste momento?
O que eu acho é que muito do que está acontecendo mostra que a história está se repetindo, porque o último movimento a receber atenção internacional foi o Black Panthers Party (Partido dos Panteras Negras), nos anos 60. Era um grupo, um movimento, que mobilizou muitas pessoas. Uma vez que o presidente Nixon começou a atender a algumas de suas reivindicações, em termos de representação negra no Congresso, e a ouvir apenas algumas das muitas injustiças sociais sofridas por afro-americanos, muitos liberais moderados que inicialmente apoiavam os Panteras Negras, retiraram seu apoio depois que o presidente Nixon disse: “OK, vou aprovar uma legislação de ação afirmativa”.

Foi um problema nos anos 1960, porque a injustiça social era, e ainda é, um problema, porque apenas algumas das reivindicações do Partido dos Panteras Negras foram atendidas. Os moderados, os neutros, todos viram o movimento como desnecessário depois disso, todos eles consideraram que as injustiças sociais estavam resolvidas.

Meu problema com o movimento é que se você se contentar apenas com essas pequenas mudanças que devem ser agora realizadas, como cortar fundos da polícia e prender policiais por discriminação racial e assassinato, muitos dos outros problemas que a América negra (bem como outras pessoas de cor) enfrenta não serão tratados – e foi o que aconteceu nos anos 60. Os incidentes atuais são vistos como motins, quando na realidade são uma rebelião, porque é uma resposta à opressão que a América negra enfrenta.

E quais são as principais demandas em sua opinião?
Uma das principais reivindicações que temos é que precisamos de cobertura universal de saúde, e precisamos de maior acesso público à educação, e isso tem que vir de [uma elevação de impostos sobre os 1% mais ricos. Devemos, como país, tributar as elites mais poderosas, porque, sozinhas, elas possuem 99% das riquezas do mundo. Muitos dos problemas que você tem na América não são que nossos médicos sejam incompetentes ou algo assim, é que não temos seguro saúde para tratar os pacientes. Em vez disso, temos seguro privado, que empobrece ainda mais os pobres, por causa dos prêmios (mensalidade dos planos de saúde) muito altos que precisam ser pagos. Nosso sistema escolar também é muito caro. Muito do que está acontecendo nos EUA não é apenas questão de raça, mas também de classe, porque, se você não for rico o suficiente para pagar pela faculdade, vai acabar com milhares de dólares em dívidas. Mas para resolver muitos desses problemas, você não pode mais ter uma forma capitalista de governo.

Na minha opinião, devemos fazer como países como a Finlândia e ter uma forma de socialismo democrático. Para que possamos lidar com os problemas que enfrentamos na América, devemos também aceitar o fato de que o capitalismo americano, em sua essência, é racismo; que o próprio país, os Estados Unidos da América, não existiriam se não tivessem explorado certos grupos para estar economicamente onde estão hoje, falo da escravidão.

Há uma necessidade profunda de mais programas sociais, melhor acesso à educação e ao ensino superior, cobertura universal de saúde, para pagar a cada cidadão um salário mínimo decente. Hoje nos EUA, você pode trabalhar quarenta horas por semana, em tempo integral, e se recebe um salário mínimo, não pode nem pagar o aluguel. O problema é a pobreza, a perda de renda, é a desqualificação das pessoas desempregadas como preguiçosas, só porque não têm conseguido achar emprego, porque não pode ganhar a vida por causa da pandemia global.

Não temos um governo solidário e pró-povo, temos um governo sem coração. E um Congresso onde republicanos e democratas discutem sobre como aprovar uma lei sobre o Coronavírus com alguma renda emergencial, mas com as grandes corporações tendo enormes incentivos fiscais. Eles querem conceder incentivos fiscais e ajuda do governo a essas empresas, e não ao povo americano.

O fato é que os problemas dos EUA não serão resolvidos por pequenas leis, que lidam apenas um pouco com as injustiças sociais. O capitalismo americano deve ser completamente desenraizado porque o capitalismo americano está matando a América.

Algo mais a adicionar?
Nós, americanos que vivemos aqui, como o resto do mundo, estamos com medo porque percebemos que temos um presidente que não é são, nem solidário, nem competente para governar. Estamos muito preocupados com o futuro. Com o que aconteceu no Líbano, a explosão… Estamos preocupados, porque não queremos uma terceira guerra mundial, porque em solo americano teríamos ao mesmo tempo uma segunda guerra civil entre o povo americano contra os apoiadores de Trump, e outros países contra nosso governo.