Plebiscito no Chile reafirma determinação por soberania

Resultado mostra que o povo reafirmou os motivos do levante (“estalido”) iniciado em de 18/10/19

A acachapante vitória do “apruebo” (sim à uma nova Constituição) mostra a vontade soberana do povo chileno de enterrar a Constituição herdada de Pinochet e preservada nos 30 anos dos governos de “concertación”, um acordo entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista chileno, acompanhado pelo Partido Comunista. A “concertación” foi o dique de contenção da vontade majoritária, expressa em 1988, quando num plebiscito convocado pelo ditador Pinochet sobre sua continuidade no governo, respondeu com um sonoro Não! O povo disse basta das políticas da ditadura, mas os governos da “concertación” deram continuidade à sua política. Agora o povo chileno se manifestou, de novo, pelo fim de todos os resquícios da política da ditadura, o que deve ser construído por uma Assembleia Constituinte exclusiva (100% dos delegados eleitos para esse fim e não mista (com 50% dos atuais deputados), a segunda pergunta colocada no plebiscito.

Este plebiscito, imposto pelas fortes mobilizações, fez parte do “Acordo de Paz”, assinado entre o governo e partidos da oposição, como forma de conter o movimento, depois de uma vigorosa greve geral em 12 de novembro de 2019 que parou o país de norte a sul. O bloco sindical que integra a Unidade Social (criada depois de 18/10/19) criticou o acordo de paz, mas se apoiou na brecha aberta pelo plebiscito para avançar a luta. O resultado de 25 de outubro mostra que o povo está decidido. Uma força capaz de superar as amarras impostas no acordo de paz à nova convenção constituinte, como a exigência de 2/3 para aprovar qualquer medida. Quando os chilenos ecoaram pelo país depois do 18 de outubro “não é por 30 pesos, mas por 30 anos” eles estavam determinados a recuperar seus direitos retirados desde a ditadura (aposentadoria, educação e saúde públicas, soberania…). E esta determinação foi cravada de novo no resultado de 25 de outubro.

Publicamos um texto enviado por Javier Marquez G., dirigente sindical bancário e um dos membros da coordenação nacional “No + AFP”, movimento que ganhou as ruas do Chile nos últimos anos, contra as administradoras dos fundos de pensão (previdência privada, instaurada por Pinochet) e pela recuperação da previdência pública e solidária. Javier escreveu-nos no calor das comemorações populares na noite deste dia 25 em Santiago.

O plebiscito é um degrau, não o último
“O dia 25, há um ano do início do “estallido”, deixou claro que o povo não esqueceu os motivos que deram início ao levante, cuja intensidade foi abaixada durante a pandemia.

Em resumo, o levante não terminou, já que as mobilizações, ainda que diminuídas, não terminaram e as reivindicações estão presentes em toda a população.

Os meios de comunicação que repetem a voz oficial do governo de Piñera ressaltaram, exageraram e deram como verdadeiras muitas montagens.

Em 25 de outubro, a Praça da Dignidade (1) novamente o povo e as organizações sindicais e sociais mostraram sua postura irrenunciável de mudar o Chile, e que o plebiscito é um degrau, mas não o último, neste caminho.

O governo mudou sua atitude nas últimas semanas, ficou mais contemplativo, diminuiu a repressão e passou a destacar fatos de violência, atribuindo-as à esquerda e aos partidários do ‘apruebo’. Assim sua mensagem de terror e medo foi acompanhada por imagens que foram reiteradamente repetidas igualmente no discurso da direita e dos defensores do sistema.

Inscrever na Constituição as reivindicações
Desde muito cedo o povo dirigiu-se aos locais de votação, com calma e com alegria, um sentimento refletido nas redes sociais. Muita gente emocionada pelo momento que vive e sentindo-se parte de um fato histórico. É a primeira vez que se perguntou ao povo, aos trabalhadores, se querem mudar a Constituição, apesar das amarras e armadilhas que tentam os que mão querem mudanças.

Muitos jovens que votaram pela primeira vez demonstraram sua alegria e esperança em mudanças importantes. Muitos que não acreditavam, se somaram, com desconfiança, mas deram um passo.

O “estallido”, apesar do oficialismo tentar mostra-lo como violento, serviu para nos unirmos mais e para desvelar que a classe trabalhadora pode fazer ouvir sua voz.

Habitualmente as eleições no Chile terminam as 18 horas, mas neste dia 25 as mesas fecharam às 20 horas e, ainda que a maioria tenha ido votar antes, até as 20 horas muitos vieram votar.

As pesquisas falavam em um resultado de 70% x 30% para o ‘apruebo’ e 60% x 40% a favor da Convenção Constitucional.

No início da apuração dos votos, rapidamente a tendência de ambas opções se demonstrou e seguem subindo, chegando a cerca de 80%.

O Presidente Piñera, em cadeia nacional, se dirigiu ao país reconhecendo sutilmente sua derrota, mas arrogando-se o acerto de ter convocado o plebiscito, ignorando que foi o povo mobilizado que forçou esta situação.

A maioria dos políticos de direita assumiram a derrota contundente. Em todas as regiões do Chile foram vitoriosas as opções ‘Apruebo’ e Convenção Constitucional, inclusive nas quais a direita historicamente marca presença.

Em Santiago, só em três comunas ganhou o ‘rechazo’ (não à nova Constituição, NdT), são comunas da classe mais acomodada do Chile, onde moram os que ostentam o poder.
A participação no plebiscito, 7.500.000 votantes, é a maior, em relação às últimas eleições.

A esta hora que escrevo falta apurar 4% dos votos e o resultado é Apruebo com 78,27% e Convenção Constitucional com 79%

Em todo o país a comemoração transbordou todo prognóstico e a crise sanitária passou a um segundo plano.

Agora a tarefa que vem é tanto ou mais difícil que este plebiscito. É preciso eleger constituintes que logrem inscrever as reivindicações na nova Constituição e se a oposição não se ordenar por isto, a direita poderá manter seus privilégios.

Há uma série de requisitos para inscrever candidatos independentes (fora da lista dos partidos, NdT) e os partidos contam com regras menos duras, o que faz com que superar esta barreira seja um problema principal.

Na análises de diferentes setores políticos surge o tema de acercar-se e escutar mais os movimentos sócias. De sua parte, os movimentos sociais, têm uma profunda desconfiança e o desejo de seguir evitando este cerco.”

Santiago, 25 de outubro, 23 horas

(1) Praça da Dignidade, antiga Praça Itália, ponto de encontro de onde saem as manifestações na capital chilena e que foi ocupada  e rebatizada durantes as mobilizações iniciadas em 18 de outubro