102 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo

Em 15 de janeiro de 1919, a Alemanha estava num processo revolucionário desencadeado dois meses antes com a queda da monarquia, sob os golpes das massas de trabalhadores e marinheiros que reagiam à tentativa do regime de prosseguir a I Guerra Mundial que já ceifara milhões de vidas e arruinara o país, jogando milhões na miséria. Depois de um dia inteiro de trabalho na redação do Rote Fahne (Bandeira Vermelha) em Berlim (diário do recém fundado Partido Comunista Alemão), os dirigentes Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, se preparavam para dormir na casa de camaradas, naqueles dias em que a perseguição policial os obrigava a mudar quase diariamente de domicílio. Um destacamento de fuzileiros da Cavalaria da Guarda invadiu o imóvel e os sequestrou, sendo levados para o Hotel Eden, local onde se improvisara o QG dos fuzileiros, nas operações de sufocamento da revolução.

Liebknecht e Rosa não sairiam vivos do local. O relato oficial dizia que Liebknecht fora morto ao tentar fugir, e que de Rosa havia sido retirada de custódia por uma multidão enfurecida. Liebknecht foi enterrado como indigente e o corpo de Rosa jogado no Canal Landwwehr, só reaparecendo meses depois, quando foi sepultado. Os assassinos, nos anos que se seguiram, acabaram reivindicando orgulhosamente o crime.

Mas quem foram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht e por que foram objeto de tão terrível vingança do Estado alemão?

A posição diante da I Guerra Mundial
Rosa Luxemburgo nasceu na Polônia russa, sob o domínio czarista. Muito jovem, no início dos anos de 1890, se juntou ao partido Proletariado que reunia diversos matizes da esquerda que logo se fundiu com outros setores para fundar o Partido Socialista Polonês (PSP). Com a deriva do PSP para uma linha nacionalista, a que Rosa se opunha, se orientando para a luta unitária dos trabalhadores do Império Russo pela derrocada do czarismo, ela e sua fração fundaram o Partido Socialdemocrata Polonês, mesmo que o PSP acabasse sendo reconhecido como Seção Polonesa da 2ª Internacional. Logo a atividade política de Rosa a obrigou a emigrar, primeiro para a França e depois para a Alemanha, onde conseguiu cidadania por meio de um casamento apenas formal. Rapidamente, Rosa se tornou uma das principais dirigentes da Seção Alemã e da Internacional. Voltou brevemente à Polônia quando eclodiu a Revolução Russa de 1905, para dirigir os combates em Varsóvia. Com a derrota da revolução, Rosa se fixou definitivamente na Alemanha, onde prosseguiu seu combate contra o reformismo, que travava desde o início do século e que originou um de seus textos clássicos, “Reforma ou Revolução?”.

A volta de Rosa à Alemanha vai coincidir com os fatos que preparavam a eclosão da I Guerra Mundial. Rosa formou frente comum com Lênin e Trotsky na Internacional na linha da luta contra a guerra e para transforma-la, em cada país, em revolução contra seus próprios regimes burgueses. Esta posição a reuniu pela primeira vez com Karl Liebknecht, deputado socialdemocrata que votou, em agosto de 1914, solitariamente, contra o orçamento de guerra requerido pelo governo imperialista alemão. Sua posição, embora isolada no parlamento, teve uma repercussão profunda e permitiu reunir um considerável número de militantes socialdemocratas que se opunham à direção reformista do partido numa corrente chamada Liga Espártaco. A questão atingia a direção socialdemocrata no coração. Se mantivesse a posição de princípio do partido e da Internacional, contra a guerra imperialista, a direção estaria obrigada a enfrentar o poder de Estado, pondo em risco mandatos parlamentares, privilégios estatais, etc. Foi nesta ferida que Rosa e Liebknecht enfiaram o dedo, provocando o ódio dos dirigentes, deixando clara a sustentação que o partido dava ao estado burguês e, portanto, à sua política de guerra imperialista.

Esta situação no partido e a eclosão da Revolução de 1917 na Rússia empurrarão a Liga Espártaco a se converter no Partido Comunista Alemão (PCA), já no processo da revolução de 1918-19 na Alemanha.

Socialdemocracia toma para si sufocar a revolução
A queda da Monarquia deu lugar a um amplo movimento em que as massas, a exemplo, do proletariado russo, se organizaram rapidamente em conselhos de trabalhadores e soldados que cobriram o país. O problema do poder estava em jogo. Os conselhos, embora com maioria socialdemocrata, se opunham como instrumento de poder ao Estado burguês, o qual, desde a queda da monarquia, estava sob direção da socialdemocracia. A socialdemocracia toma para si, então, a tarefa de sufocar a revolução em nome do regime burguês.

Neste contexto, mesmo presos durante quase toda os anos da I Guerra, Rosa e Liebknecht surgiam como a principal ameaça ao poder de Estado cuja defesa reunia a burguesia e a socialdemocracia. A radicalização da luta de classes tornava cada vez mais intolerável a ação do PCA e de seus dirigentes. Era preciso elimina-los. Um cartaz-mural anônimo exigia nos muros de Berlim, “matem Liebknecht”. A própria imprensa do Partido Socialdemocrata publicou um poema que pedia a morte dele e de Rosa. A socialdemocracia teve assume a tarefa de matar Rosa e Liebknecht. O primeiro-ministro socialdemocrata, Friedrich Ebert, nomeou outro dirigente reformista, Gustav Noske, para comandar a perseguição aos revolucionários. O assassinato de Rosa e Liebknecht foi, portanto, diretamente organizada pelo Partido Socialdemocrata.

Tratava-se de cortar a cabeça da revolução. Tanto assim que o crime foi a senha para o massacre de mais de cinco mil militantes do PCA.

O Partido Socialdemocrata deu à fundação ligada a ele o nome do carrasco de Rosa, Friedrich Ebert.

O legado de Rosa e Liebknecht, porém segue vivo na luta da classe operária internacional. Como disse Trotsky, temos todo o direito de colocar nosso trabalho pela 4ª Internacional sob o signo dos “três L”, ou seja, não apenas sob o de Lênin, mas igualmente sob o de Luxemburgo e Liebknecht.

Eudes Baima

Artigo anteriorVacina, um grande negócio
Próximo artigoAdriana Fernandes: “Por que se calam?”