MP de Lula proíbe as BETs; é preciso enterrá-las de vez

Apostas devoram o orçamento das famílias


As propagandas se proliferam em todos os meios de comunicação. São jogadores, artistas, jornalistas, apresentadores de programas; todos propagandeando a possibilidade de ganhar dinheiro através das apostas. O discurso é fácil: você aposta e, se souber fazer as corretas combinações, pode vir a ganhar uma bolada mudando, assim, o seu patamar de vida. Em um país onde a maior parte dos brasileiros trabalha em uma escala exaustiva e com baixos salários, a promessa vira um oásis. Mas o mundo real não é assim. Ao contrário do que foi vendido na propaganda, o resultado é o aumento do endividamento das famílias.

Lula levanta cartaz com “Fim das BETs” durante ato de campanha em Recife / Ricardo Stuckert

O presidente Lula corretamente anunciou a Medida Provisória (MP) 1394/26 que proíbe as BETs no Brasil. A decisão vem após rodada de discussão com diferentes setores afetados. Segundo levantamento feito pelo PROCON-SP, 82% das famílias brasileiras está endividada. São cerca de 83,9 milhões de pessoas que estão com o nome negativo (ver abaixo). O cenário de endividamento é agravado pelo impacto das apostas online, as BETs. Cerca de 40% dos apostadores brasileiros afirmam que se endividaram por causa das apostas. Em um país que tem 50 milhões de apostadores online, 53% destes já deixaram de pagar contas básicas para jogarem, comprometendo assim, sua própria sobrevivência. Nos últimos anos, as apostas foram responsáveis por retirar de forma líquida das famílias 62,5 bilhões do seu orçamento. Grande parte desse endividamento vem do cartão de crédito, principal financiador dos apostadores.

O endividamento com as BETs tem recorte social bem definido. A maior parte dos endividados com apostas são famílias de baixa renda e beneficiários de programas sociais. Apesar dos homens serem o público onde as apostas estão mais consolidadas, hoje, 56% das mulheres brasileiras estão endividadas de forma geral e o índice aumentou em 60% nas classes D e E – as mais afetadas pelas apostas -. Entre as mulheres apostadoras, a maior parte afirma que apostam para complementar a renda familiar. Mães solteiras com filhos, por exemplo, apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos.

Na juventude, setor também de alta vulnerabilidade, a questão das apostas vêm impactando na educação. A inadimplência dos jovens de baixa renda chegou a 17,4%, com impacto direto na evasão no ensino superior. 14% dos universitários de universidades privadas já atrasaram mensalidades por conta das BETs e 34% entre 18 e 35 anos adiaram planos em ingressar na faculdade por falta de dinheiro devido as apostas. Entre crianças, 9,5% afirmam ter feito a primeira aposta já aos 11 anos e 1 a cada 5 estudantes do Fundamental II e Ensino Médio, já apostaram online. A principal faixa etária elegível para os saques do Pé-de-Meia, 3º ano do ensino médio, tem 49,7% dos meninos como apostadores.

Ao encarar os números, eles comprovam o estrago social que as apostas vêm fazendo no Brasil. Revelam que os impactos das reformas trabalhistas, pejotização e aumento do custo de vida estão entre os fatores que fazem as famílias buscarem complementar sua renda através do jogo. É por isso que a medida de Lula é positiva. Ela enfrenta um problema social que se alastra. A MP entra em vigor imediatamente, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias. Nesse período, os parlamentares podem aprovar o texto, modificá-lo ou rejeitá-lo. Se não houver votação dentro do prazo, a medida perde a validade depois esses quatro meses. Essa votação tende a se dar após as eleições. O apoio popular à Medida Provisória comprova que há terreno para o enfrentamento.


Jeffei

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