A Revolução de Outubro teria acontecido sem Lênin?

Em 22 de abril de 1870 nascia a principal liderança da Revolução Russa de 1917, Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lenin. Militante revolucionário desde a juventude, passou boa parte de sua vida exilado por conta das perseguições da política do regime monarquista russo. Desde cedo suas energias de militante estiveram voltadas para a elaboração teórica e para a ação revolucionária da classe operária e sua organização independente das classes dominantes.

E para homenageá-lo, nada melhor do que demonstrar o papel que teve para a vitória da Revolução de 1917. Desse modo, publicamos um trecho do livro de Leon Trotsky, A História da Revolução Russa, volume 1, em que o autor fala da importância de Lenin para a Revolução de Outubro de 1917.


A Revolução de Outubro teria acontecido sem Lenin?*

“(…)Pode-se concordar com Sukhanov, a reorganização do Partido “foi a principal e essencial vitória de Lenine, ultimada em princípios de maio”. Para dizer a verdade, Sukhanov achava que Lenin substituíra, no decorrer daquela operação, a armação do marxismo pela arma do anarquismo.

Resta saber, e a questão não é de pouca monta, se bem que seja mais fácil formulá-la do que responder a ela: Como se teria desenrolado a evolução revolucionária se Lenin não tivesse podido chegar à Rússia em abril de 1917? Se nossa exposição mostra e demonstra, em geral, alguma cousa, esperamos que seja não ter sido Lenin o demiurgo do processus revolucionário; mas que ele apenas se inseriu na cadeia das forças históricas objetivas. Nesta cadeia, porém, ele foi um elo importante. A ditadura do proletariado decorria da situação em seu conjunto. Mas ainda faltava erigi-la. Não era possível instaurá-la sem um partido. Ora, o Partido não podia desempenhar sua missão senão depois de tê-la compreendido. Para tanto, justamente, Lenin era indispensável.

Até o momento de sua chegada, nenhum dos líderes bolcheviques fora capaz de firmar o diagnóstico da Revolução. A direção Kamenev-Stalin era repelida, pela marcha dos acontecimentos, para a direita, em direção aos social-patriotas: entre Lenin e o menchevismo, a Revolução não dava lugar a posições intermediárias. Uma luta interna no Partido Bolchevique era absolutamente inevitável. A chegada de Lenin apenas acelerou o processus. Sua influência pessoal abreviou a crise. Poder-se-á, entretanto, afirmar, com segurança, que o Partido, mesmo sem ele teria achado o caminho? Não ousaríamos afirmar isso em hipótese alguma.

O tempo é, aqui, o fator decisivo, e além do mais, é difícil consultar o relógio da História. Como quer que seja, o materialismo dialético nada tem em comum com o fatalismo. A crise, que a direção oportunista deveria inevitavelmente provocar, teria tomado, sem Lenin, um caráter excepcionalmente agudo e prolongado. Ora, as condições da guerra e da Revolução não davam longo prazo ao Partido, para o desempenho de sua missão. Por conseguinte, não é absolutamente inadmissível pensar que o Partido, desorientado e cindido, teria podido deixar escapar a situação revolucionária durante muitos anos. O papel da individualidade manifesta-se-nos aqui em proporções verdadeiramente gigantescas. É preciso somente dar a esse papel um valor exato, em considerando a individualidade como um elo da cadeia histórica.

A chegada “súbita” de Lenin, de regresso do estrangeiro após longa ausência, os clamores exagerados levantados pela imprensa em torno do seu nome, o conflito de Lenin com todos os dirigentes de seu próprio partido e sua rápida vitória sobre os mesmos – em uma palavra, o invólucro exterior dos acontecimentos contribuía bastante, neste caso, para uma avaliação mecânica opondo o indivíduo, o herói, o gênio às condições objetivas, a massa, ao Partido. Em realidade essa antítese apresenta apenas só um lado dos acontecimentos. Lenin era não um elemento fortuito da evolução histórica, porém um produto de todo o passado da história russa. A ela estava preso por profundas raízes. Ao lado de operários avançados participara de todas as lutas durante todo o quarto de século precedente. A “obra do acaso” não foi o fato de ter ele participado dos acontecimentos, porém, ao contrário, o fio de palha com que Lloyd George tentou barrar-lhe o caminho. Lenin não se opunha, de fora, ao partido, mas era, ao contrário, expressão máxima dele. Educando o partido educava-se a si próprio. Seu desacordo com a camada dirigente dos bolcheviques significava a luta do Partido entre o ontem e o amanhã. Se Lenin não tivesse permanecido, aparentemente, distanciado do partido, por motivo da emigração e da guerra, o mecanismo externo de crise não teria sido tão dramático e não teria encoberto a tal ponto a continuidade interna do desenvolvimento do Partido. Da importância excepcional que teve a chegada de Lenin, deduz-se apenas que os líderes não se criam por acaso, que a seleção e a educação deles exigem dezenas de anos, que não se pode suplantá-los arbitrariamente; que, excluindo-os automaticamente da luta, causamos ao Partido uma ferida profunda e que, em certos casos, podemos até paralisá-lo por longo tempo.”

*Texto retirado da Revista A Verdade nº 56/57 de dezembro de 2007, edição especial dos 90 anos da Revolução Russa. Lá foi usado como base o História da Revolução Russa, vol 1, editora Paz e Terra, pagina 282-283 com tradução de E. Huggins. Aqui usamos a edição do Senado Federal de mesma tradução.

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