Jornalistas em luta contra cortes salariais

Num domingo à noite, cerca de 140 jornalistas se reuniram por videoconferência com o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Eram profissionais do jornal Estadão e outros veículos do Grupo Estado, na sua quinta assembleia online, decidindo sobre a proposta da empresa de reduzir salários e jornadas em 25%, suas contrapartidas, como garantir o cumprimento da jornada.

A mobilização no Estadão começou após a empresa, que passou os profissionais para o homeoffice, mandar um aditivo de contrato para cada um dos jornalistas no início do mês de abril, no qual estabelecia que não haveria controle de ponto. Os trabalhadores decidiram não assinar, o que forçou a empresa a uma negociação coletiva com o Sindicato, inclusive no que dizia respeito à redução salarial que a Medida Provisória 936 autorizou que fosse imposta por “acordo” individual, referendada pelo STF contra o texto explícito da Constituição Federal.

A situação é extremamente difícil pois a MP 936 deixa as empresas com a faca e o queijo na mão. Mesmo com uma grande mobilização dos jornalistas, que chegou a reunir 180 em assembleia enquanto Moro pedia demissão (notícia de grande impacto para o trabalho destes profissionais), a negociação tinha limites pois todos sabiam que a empresa podia, a qualquer momento, abandonar a via coletiva e pressionar cada trabalhador individualmente. O resultado foi um Acordo Coletivo que reduziu salários em 25%, e estabeleceu cláusulas como garantia de emprego superior ao definido pela MP.

A mobilização se viu em outros redações. Na editora Globo, por exemplo, jornalistas de veículos como O Globo, Época e revistas como a Vogue, também se reuniram em assembleias com mais de 100 participantes. Neste caso, a mobilização inédita foi interestadual, com profissionais de São Paulo, Rio e Brasília. Não evoluiu para acordo coletivo, mas a pressão coletiva fez a empresa se comprometer em pontos como manutenção do piso, do VR e outros.

O setor de Jornais e Revistas é, na capital paulista, o mais atingido pela MP até o momento. O Sindicato patronal chegou a propor ao sindicato dos trabalhadores um aval para cortar em até 70% os salários (o que não pode ser feito, na faixa salarial dos jornalistas, se não houver acordo coletivo). A proposta foi rejeitada numa assembleia com mais de 350 profissionais. Mas várias empresas já passaram a aplicar a redução por imposição individual.

Os profissionais se sentem ultrajados. Na prática, desde o início da pandemia, aumentou a carga de trabalho. Profissionais com jornada diária de 7 horas passaram a cumprir 12, em muitos casos se expondo ao contágio ao cumprir pautas. A imprensa foi reconhecida como serviço essencial, por decreto presidencial (do mesmo Bolsonaro que, só em abril, atacou o jornalismo 38 vezes, segundo a Federação dos jornalistas). Das redações, surgiu a campanha “Jornalistas Salvam Vidas”, que afirma: “Informação segura é questão de vida ou morte”.

Priscilla Chandretti

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