“O PT se lambuzou”?

“A saída”, para Jaques Wagner, é “um governo de unidade nacional”

O ministro chefe da Casa Civil da presidência, Jaques Wagner, abriu o ano na Folha de S. Paulo de 3 de janeiro acusando: “reproduzindo metodologias antigas, o PT se lambuzou”. O ex-ministro de Lula e ex-governador reeleito da Bahia sabe o que está falando.

Rochinha, dirigente da maior corrente do PT, o Construindo um Novo Brasil (CNB), reagiu, disse: “o PT não se lambuzou, está pagando o preço de não ter aprovado uma reforma política” (como Wagner também diz), mas ressalva que “os erros do PT são de caráter exclusivamente individual ou de grupos, nunca do partido como instituição” – ora, mas não foram quaisquer indivíduos, tampouco todos os grupos, não é mesmo Rochinha?!

Jaques Wagner perguntado sobre “qual a saída”, revelou o objetivo da sua autocrítica: “estamos abertos para fazer um governo de unidade nacional, então quero propor dois temas: a reforma política e a da Previdência”.

As reações esqueceram este ponto vital. Talvez porque à oposição do impeachment não interesse a “unidade nacional” agora, ou a reforma política. Mas interessa muito a reforma da Previdência, anunciada na posse do novo ministro da Fazenda, Barbosa, que Dilma dias depois confirmou ao propor a “elevação da idade mínima”.

Mas é impossível que a CUT e os sindicatos, mesmo o PT como tal, aceitarem a “unidade nacional” com o PSDB ou até a “ponte” com o PMDB, para atacar os direitos dos trabalhadores. Seria o desastre final!

Dias antes, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, pedira ao partido “uma reavaliação, um exame de consciência. O meu temor é que se elejam dentro do partido exatamente os que tem esses outros canais” (O Globo, 02/01/16). Lembrando que o PT perdeu a oportunidade no congresso de junho de dizer “não recebemos mais, não fez isso, e depois veio uma lei proibindo”, Patrus deduz que “aí o cidadão acha que é ruim mesmo e começa a votar em branco, nulo”. Não deixa de ter certa razão.

Mas a critica de Patrus para aí. Perguntado se Barbosa continuar o ajuste de Levy não pode frustrar os movimentos, respondeu como ministro que “as declarações do ministro Barbosa me parecem muito corretas”!

Política e economia

Ora, a esta altura, está claro que o principal fator da perda de apoio do PT é a política econômica, o eixo do governo, cuja “base aliada” – de Collor a Temer e outros – é o que é e só se sustenta, com suas ramificações no partido (veja Delcídio!), com muito dinheiro para a máquina eleitoral.

É preciso mudar essa política econômica para reatar com a base social através de reformas populares, e dispensar a corrupção eleitoral que pega todos os partidos institucionais, todos adeptos das contra-reformas pró-mercado: eis o xis da questão da sobrevivência do PT.

O presidente do PT, Rui Falcão, nos seus votos para 2016 (28/, havia pedido “ousadia” para recuperar a “confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo: “Chega de altas de juros e de cortes. Nas propostas da Fundação Perseu Abramo, nos projetos da nossa Bancada, da Frente Brasil Popular, da CUT, do MST, entre outras, há subsídios à vontade para serem adotados. É hora de apresentar propostas capazes de retomar o crescimento, de garantir o emprego, preservar a renda e os salários, controlar a inflação, investir, assegurar os direitos duramente conquistados pelo povo”.

Simpático, sem dúvida. Falta precisar medidas concretas a exigir do governo reverter o ajuste fiscal que continua. Como a incontornável derrubada da taxa de juros (parar de subir não basta), a centralização no câmbio (ou continuará o terror das “agencias de risco” e especuladores) e ainda, o fim do superávit fiscal primário (para que o Orçamentos vá para os serviços públicos). Algumas dessas medidas integram propostas das entidades citadas.

“O governo desgastou o partido” – até quando?

É bom ser realista. Dilma, a julgar inclusive por seus qualificados ministros, não parece inclinada a avançar neste rumo. O PT precisa considerar todas as hipóteses.

O presidente do PT paulista, na polemica com os ministros, reconheceu que “o PT cometeu erros”, e citou “sustentar o governo quando ele se distanciou da sua base social e do seu programa também desgastou o partido”. Muito certo. Mas até quando?

Tem razão a CUT de propor às entidades populares uma grande manifestação em março em Brasília pela mudança da política econômica e em defesa dos direitos, o PT deve apoiar com tudo.

Chega de cena – cabe ao partido exigir e mostrar claramente à presidente a conseqüência de não ouvir nossa base.

Markus Sokol

Artigo publicado na edição nº 779 do jornal O Trabalho de 14 de janeiro de 2016.

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