Ucrânia-Crimeia: revolução ou desagregação?

A imprensa diz que uma “revolução” derrubou o Yanukovich e seu “regime corrompido”. Será verdade?

Uma revolução é um movimento que vem de baixo e modifica radicalmente a ordem social estabelecida, pela ação de milhões que se apoiam na classe operária organizada. Ora, em 13 de dezembro de 2013, o governo estadunidense admitiu que “investiu” cinco bilhões de dólares no financiamento da “oposição democrática” da Ucrânia. Num telefonema de 5 de fevereiro a representante da alta diplomacia estadunidense, Victoria Nuland, e o embaixador dos EUA em Kiev discutiram tranquilamente qual deveria ser a composição do “novo governo”.

E, em 13 de fevereiro, em Kiev, a mesma Nuland encontrou-se com a direção do partido Svoboda, de extrema direita, que lançou em 18 de fevereiro o ataque armado ao Parlamento levando à deposição de Yanukovich. E querem nos fazer acreditar que isso é uma revolução?

Mas centenas de milhares se manifestaram apenas devido à ingerência dos EUA e União Europeia?

Não há dúvida que participaram das manifestações chamadas Euromaïdan cidadãos honestos que rejeitam todos esses políticos mafiosos e corruptos como Yanukovich que depois do desabamento da União Soviética pilham e privatizam em nome do FMI. Mas as forças que desde o início controlam esse movimento – cujo objetivo era pressionar Yanukovich a assinar um “acordo de associação com a União Europeia” – não têm a menor preocupação com o povo ucraniano.

Quer seja a “opositora” Timochenko, antiga primeira ministra (em 2005 e 2007), tão corrupta quanto Yanukovich, quer seja o boxeador Klitschko (cuja organização foi criada e financiada pela Fundação Konrad- Adenaur do partido de Angela Merkel da Alemanha) ou se trate do partido nazista Svoboda. Quando os sindicatos chamaram os trabalhadores a participar organizadamente em Kiev, o resultado não tardou a se mostrar: do alto da tribuna, a direção da manifestação deu a senha para que bandos de delinquentes fascistas partissem para a agressão aos sindicalistas.

Mas a Rússia também não exerce uma ingerência?

A expansão da União Europeia para o Leste (em 2004-2005) levou a um verdadeiro cerco de bases militares da OTAN às fronteiras orientais da Rússia. Evidentemente, Putin e seu regime – que em nada se distinguem de Yanukovich – não se opõem ao capitalismo e tentam aplicar as contrarreformas na Rússia, apesar da resistência da classe operária russa.Mas, controlando as maiores reservas de petróleo, gás, minerais, recursos naturais eles sabem que o futuro que lhes reserva a política estadunidense não será mais feliz que o de Yanukovich e procuram defender sua própria existência.

A União Europeia e os EUA dizem defender “a integridade territorial da Ucrânia”. Pode haver uma guerra?

Nenhum povo, ucraniano ou russo, quer a guerra. A Rússia ocupou a Criméia sob os protestos dos EUA e da União Europeia (EU) os mesmos hipócritas que organizaram o atual confronto. O diretor de um instituto de pesquisas francês disse: “o princípio da soberania deve ser respeitado pelos outros países antes de exigir o mesmo da Rússia. E me parece difícil que os EUA possam impor isso a Putin depois de sua intervenção no Iraque” (e, podemos acrescentar Afeganistão, Líbia, Síria, Mali, República Centro-Africana, Congo, Sudão do Sul, Haiti…).

Em 23 de fevereiro, o “novo” parlamento revogou uma lei que permitia o reconhecimento oficial de outros idiomas ao lado do ucraniano. Tal decisão foi vista como uma provocação pelas populações ucranianas que têm o russo como língua materna (quase metade da população fala o russo) e outras comunidades linguistas. Assim, fabrica-se artificialmente aquilo que a imprensa “livre” apresentará amanhã como um “conflito étnico”. O novo poder está integrando nas forças policias as milícias do Svoboda, partido que se apresenta como herdeiro dos colaboradores nazistas que apoiaram Hitler na invasão da URSS (em junho de 1941). Lembremos que para se libertarem do nazismo os povos soviéticos pagaram o preço de 20 milhões de mortos. Não é dessa forma que populações russas e mesmo a ucraniana estão sendo empurradas na via da secessão?

E agora?

Para receber uma “ajuda” que permita pagar os credores internacionais, a Ucrânia deve aplicar um pacote contra os trabalhadores: aumento da idade para aposentadoria, triplicação do preço do gás para as residências, privatização, fim de toda assistência social do estado, etc. Mas a classe operária ainda não deu a última palavra. Um jornal francês deixou filtrar uma declaração de um mineiro de Karkov (leste da Ucrânia) que se reveza com seus companheiros para, dia e noite, defender uma estátua de Lênin: “Eu trabalho na mina de carvão de manhã até de noite. Mas com 45 anos eu terei direito à aposentadoria enquanto vocês, da União Europeia, tem que trabalhar até 60 anos ou mais”.

Artigo originalmente publicado na edição nº744 do jornal O Trabalho – 12 a 26 de março de 2014

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