A luta de Steve Biko continua, 43 anos depois de seu assassinato!

Há 43 anos o mundo perdia Steve Biko.

Steve Biko nasceu em 18 de dezembro de 1946 na África do Sul/Azânia. Sua vida foi dedicada ao combate contra o racismo naquele país, o qual se organizou durante muitos anos pelo Apartheid – regime baseado na segregação contra a maioria negra da população, que estava privada do direito de votar, de ter terras e de se organizar politicamente. Ainda na época em que era estudante do curso de medicina da Universidade de Natal, em 1968, Biko fundou a Organização dos Estudantes Sul-africanos (SASO, na sigla em inglês). A SASO tinha por base o princípio de organização do povo negro independente do Estado e dos partidos que apoiavam o regime racista da África do Sul/Azânia.

Foi por meio dessa organização que Biko passou a desenvolver o Movimento da Consciência Negra (MCN), que ele considerava como o apelo mais positivo vindo do povo negro para a África e para o mundo. Para Lybon Mabasa [1], “a força do racismo branco no mundo inteiro sempre residiu na desumanização dos negros, na construção de um complexo de inferioridade que deriva da visão do branco. Naquele momento (1973), isso significava que os negros deveriam estar à frente de sua luta, determinar suas normas e seus valores, interpretar a sua própria história e dar toda prioridade a sua libertação.”

Um aspecto central para o MCN era a sua posição contra a conciliação de classes. Para Biko, era um princípio indiscutível. Ele defendia a recusa de toda e qualquer colaboração com os opressores e suas instituições. Esse é um dos fatores que levou o MCN a se organizar de forma independente ao Partido Comunista da África do Sul (SACP), de orientação stalinista, e mesmo ao Congresso Nacional Africano (CNA), que tinha Nelson Mandela como grande líder.

Em 1976, o MCN ganhou destaque mundial ao organizar o histórico levante de Soweto. Milhares de estudantes negros participaram de uma manifestação em 16 de junho daquele ano, contra a medida que obrigava os negros a aprender, em suas escolas, o Africâner (língua dos colonizadores brancos). Os protestos eram claramente não apenas contra essa medida particular, mas uma revolta geral contra o regime do Apartheid. A polícia repreendeu fortemente os manifestantes, o que fez com que em outras cidades, como Johannesburgo e Cidade do Cabo, surgissem novas manifestações de estudantes negros, se espalhando pelo país. A resposta do regime foi desencadear uma repressão brutal que deixou centenas de mortos e milhares de feridos. Como consequência, milhares de negros – em particular jovens – entraram no MCN para ampliar a luta para pôr um fim ao regime do Apartheid.

Biko e seus companheiros do MCN ajudaram a disseminar a consciência de que o movimento de libertação dos negros na África do Sul/Azânia só poderia avançar na luta comum por uma nação onde “todas as pessoas socialmente rebaixadas, exploradas econômica e politicamente – a maioria negra” [2] se unissem em torno de seus objetivos comuns. Por essa razão, o MCN passou a ser visto pelo governo racista como uma ameaça aos interesses capitalistas na África do Sul/Azânia.

De fato, o governo da minoria branca na África do Sul/Azânia era o meio pelo qual o imperialismo dos Estados Unidos prosseguia a exploração da maioria negra, forçando-a a trabalhar por longas jornadas e por um salário de miséria nas ricas minas do país. Além disso, o governo da minoria branca mantinha uma proibição de que os negros pudessem ter a posse da terra, mantendo uma situação na qual 80% das terras do país são grandes propriedades dos colonizadores brancos. [3]

Na sanha feroz de destruir o MCN, o governo racista da África do Sul/Azânia prendeu Steve Biko no dia 18 de agosto de 1977. Ele sofreu torturas por mais de 21 horas, encarcerado na prisão de Pretória, onde morreu aos 30 anos de idade no dia 12 de setembro de 1977 por uma hemorragia cerebral causada pelos golpes que levou na cabeça. Seu funeral foi marcado por enormes manifestações com mais de 100 mil pessoas.

A barbárie da repressão, entretanto, não conseguiu extinguir sua luta. Ela continua até hoje nas organizações políticas que prosseguem combatendo no terreno da organização independente do povo negro, contra a opressão e a superexploração que o regime capitalista lhe impõe, servindo-se para isso do racismo. Passando pela formação da AZAPO (Organização dos Povos da Azânia, sigla em inglês) e hoje materializada no Partido Socialista da Azânia (SOPA, sigla também em inglês), as bandeiras do MCN se mantêm vivas e seguem firmes na luta. Como Lybon Mabasa explica: “Steve Biko havia feito a observação muito justa de que a luta levada pelo MCN em seu combate pela libertação nacional era intimamente ligado à luta pelo socialismo, e que ele via as transformações econômicas reais em benefício da maioria negra como uma base para um projeto socialista.”

Esse ano as explosões sociais que se iniciaram a partir das mobilizações da luta pelo fim do racismo reafirmam cada vez mais a necessidade da continuidade da luta iniciada por Steve Biko

Como afirmava Steve Biko, “racismo e capitalismo são dois lados da mesma moeda”.

Joelson Souza

Notas

1. Lybon Mabasa ingressou no Movimento da Consciência Negra aos 18 anos de idade em 1973. Hoje ele é o presidente do Partido Socialista da Azânia (SOPA na sigla em inglês).

2. Citação do artigo “Azânia: o verdadeiro balanço da Consciência Negra e sua atualidade” de Lybon Mabasa, publicado na Revista “A Verdade” N°89, de maio de 2016; página 79.

3. A África do Sul/Azânia começou a ser colonizada pelos europeus ainda no século XVI em um processo que expulsou os povos nativos negros de suas terras. Formalmente, o regime do Apartheid iniciou-se em 1948 com a chegada do Partido Nacional ao poder, e institucionalizou um conjunto de leis de segregação racial. O ano de 1994, quando pela primeira vez os negros tiveram o direito de votar, é considerado como o fim do regime do Apartheid. Porém, até hoje os povos negros da África do Sul/Azânia sofrem com a segregação racial e a exploração econômica.