Duas perguntas depois da posse de Lula

Apoiadores do presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se reúnem antes da cerimônia de posse, em Brasília | Agência Brasil

Entrevista de Markus Sokol ao jornalista Renato Dias, de Goiânia (02 de janeiro de 2023)

O novo Brasil”

Quais as heranças negativas, com indicadores, estatísticas e números, da Era Jair Bolsonaro?

Posso resumir na condição da família trabalhadora: no 4º ano seguido sem reajuste real do Salário mínimo, os salários foram pressionados para baixo; temos quase 10 milhões de desempregados num exército total de 23,5 milhões de subutilizados (juntando os desalentados e os subocupados); 79% das famílias estão inadimplentes, um recorde em 12 anos, segundo os dados de setembro.

Já foi pior durante o governo Bolsonaro? Sim, foi um pouco pior. Mas estes dados de setembro, na véspera do pleito, dizem respeito à manobra político-eleitoral feita desde um ano antes – com apoio dos grandes empresários, inclusive com a complacência dos da “3ª via” – para tentar reeleger Bolsonaro numa verdadeira operação de Estado, mas que não deu certo.

Com efeito, a economia antes deprimida foi até certo ponto dopada com créditos, subsídios, desonerações e isenções. Vieram algumas “benesses” eleitoreiras e outras medidas que aparecem agora no rombo deixado para o complicado Orçamento de 2023. Sabemos que esse Orçamento de 2023 votado ao apagar das luzes, em dezembro, tem um déficit de R$ 220 bilhões. Não pode ser o povo a pagar essa conta!

A PEC de emergência foi um remendo, nesse sentido, necessário, mas só um remendo. É o que torna delicadíssima a herança negativa, das demandas sociais reprimidas desde o golpe de 2016, do déficit habitacional, passando pelos programas sociais desmantelados, até as verbas do SUS e da Educação, o peso do IRPF sobre os assalariados, as estatais sucateadas e serviço público dilapidado. Tudo feito para preservar o famoso serviço da dívida interna que come 30% do Orçamento nacional. É o que tem que mudar.

Sokol, com o DAP na esplanada

Qual a sua análise dos nomes e das composições políticas para a Esplanada dos Ministérios e o que indica o discurso à esquerda na rampa do Palácio do Planalto, proferido por Luiz Inácio Lula da Silva com o simbolismo da entrega na faixa?

A fala de Lula reafirmou compromissos de campanha e indicou algumas das primeiras medidas positivas. Mas no contexto, “de esquerda” mesmo foi a irrupção da massa espontânea naquele coro “sem anistia! sem anistia!”. Rede Globo, Folha e outros veículos tiveram que dar. Nós, do Diálogo e Ação Petista, que viemos à Posse em caravanas com bandeiras e reivindicações populares encimadas pelo “Cadeia nos golpistas”, ficamos muito alegres com essa manifestação de amadurecimento da consciência do povo, parcial mas muito real.

A partir daí, as composições políticas amplíssimas do novo governo serão testadas nos fatos da vida. Não acredito que seja possível uma união, por exemplo, com os 2500 empresários formalmente acusados de assédio eleitoral, com os políticos comprometidos com compra de votos, com os generais que extrapolaram, e assim por diante.

Sobre o ministério, numa conta rápida baseada nas informações da imprensa, dos 37 ministros nomeados, onde apenas 11 são do PT, 13 vem da centro-direita para a direita. Destes, 11 apoiaram o golpe do impeachment de Dilma, e uma meia-dúzia foi bolsonarista, alguns até outro dia. Curiosamente, entre todos estes 13 só há um grande empresário (rural), o que sugere uma desconfiança deste setor até maior do que em governos petistas anteriores (por exemplo, havia três grandes empresários em 2002).

Mas como disse, vamos ver como se comportarão os novos ministros, especialmente face à tarefa de desbolsonarizar o Estado, o “sem anistia, sem anistia” de que falou a multidão ontem.

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