Há 80 anos era fundada a IV Internacional

Em 3 de setembro de 1938, num subúrbio de Paris, reuniram-se 25 delegados de seções de dez países – URSS, Grã Bretanha, França, Alema­nha, Polônia, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica e Estados Unidos – mais um delegado em nome da América Lati­na, o brasileiro Mário Pedrosa (1), para fundar a 4ª Internacional.

A Conferência adotou o programa da 4ª Internacional – “A agonia do capitalismo e as tarefas da 4ª Interna­cional: a mobilização das massas em torno de reivindicações transitórias como preparação para a tomada do poder”, conhecido como o Programa de Transição – aprovou um mani­festo aos trabalhadores de todo o mundo com “um apelo urgente, num momento em que um grande perigo ameaça as massas do mundo inteiro (…), os horrores de uma nova guerra imperialista mundial, suscitada pela agonia do mundo capitalista que exala os venenos do fascismo e da guerra totalitária”.

O movimento pela 4ª Internacional

Desde 1923, Trotsky organiza a Oposição de Esquerda na URSS, contra a política da direção do PCUS liderada por Stálin e Bukharin, que iniciava o processo de degeneração burocrática do primeiro estado operário erguido com a vitória da Revolução Russa de 1917.

Expulso do partido em 1926 e da URSS em 1927, no seu exílio – Tur­quia, França, Noruega, até chegar ao México – Trotsky trabalhou para construir a Oposição de Esquerda Internacional (OEI) na luta pela re­generação dos Partidos Comunistas e da 3ª Internacional.

Foi a chegada ao poder de Hitler na Alemanha em 1933, facilitada pela política ditada por Stálin ao PC alemão – que afirmava ser a social de­mocracia o “inimigo principal” e se opunha à frente única operária con­tra o nazismo – que Trotsky e a OEI consideram que a 3ª Internacional estava morta para a revolução e se orientam para a construção da 4ª Internacional e suas seções.

O objetivo não era limitar aos trotskistas a tarefa de construção da nova Internacional. De 1933 a 1938 foram várias as tentativas de diálogo com partidos e grupos que rompiam, ainda que de forma parcial, com o stalinismo e a socialdemocracia, para engajá-los nessa luta, com a única condição de que as posições da Liga Comunista Internacional (novo nome da OEI) fossem discutidas como base programática, confron­tadas com outras eventuais posições (2).

Em 1935, Trotsky lança a “Carta Aber­ta pela 4ª Interna­cional” e uma pri­meira conferência se realiza em Paris em 1936. Na URSS, Stálin responde com uma violenta repres­são que desembo­ca nos Processos de Moscou (1936-38), que vão eliminar não só os trotskistas, mas todos os seus opositores.

“Viva a 4ª Internacional”

O trabalho de cin­co anos para criar as bases para a 4ª Internacional não impediu que a sua fundação fosse vista como “artifi­cial” por antigos companheiros de Trotsky. O Programa de Transição aborda essa questão:

“Os céticos perguntam: ‘Mas, é che­gado o momento de criar uma nova Internacional?’ É impossível, dizem, criar uma Internacional ‘artificial­mente’ só os grandes acontecimentos podem fazê-la surgir, etc. (…)

A 4ª Internacional já surgiu de grandes acontecimentos: as maiores derrotas do proletariado na história. A causa dessas derrotas é a degene­ração e a traição da velha direção. A luta de classes não tolera interrupção. A 3ª Internacional, depois da 2ª, está morta para a revolução. Viva a 4ª Internacional!”

Além do nazismo na Alemanha e fascismo na Itália, dos processos de Moscou, em 1938 a política de alian­ça com “a sombra da burguesia” das Frentes Populares, impulsionada por Stálin, já provocara a derrota da revo­lução na França e a encaminhava na Espanha. Derrotas que preparavam a eclosão da 2ª Guerra Mundial. Daí a urgência de se constituir o quadro internacional que resgatasse as lições da Revolução Russa e a experiência das Internacionais anteriores, asse­gurando o fio de continuidade.

Dispersão e reproclamação da 4ª Internacional

Trotsky morre em 21 de agosto de 1940, assassinado por um agente de Stálin. Não sem antes ter combati­do para afirmar a defesa da URSS, apesar da política de Stálin, contra o imperialismo, o que custou à jo­vem Internacional cisões, como a do grupo Shachtman-Burnhan no SWP, a forte seção dos EUA (3). Teve ainda tempo para elaborar, em maio de 1940, o “Manifesto de Alarme” que explica que a nova guerra mundial abriria a possibilidade de convulsões revolucionárias, para as quais a 4ª Internacional devia preparar-se.

A 4ª Internacional sobreviveu ao terror stalinista e à perseguição nazista na 2ª Guerra Mundial, mas saiu dela enfraquecida. Sua nova direção não compreendeu o método de Trotsky que dizia: “A 4ª Inter­nacional não sairá de nossas mãos toda acabada (…). Ela crescerá e se desenvolverá tanto na teoria como na ação”. Ação que é a intervenção na luta de classes, e não a proclamação de uma “direção alternativa”, e que implica, sem abrir mão do Programa, multiplicar relações com setores que rompem com as direções traidoras.

A maior crise de dispersão da 4ª Internacional ocorreu em 1951-53, provocada pela direção Pablo-Man­del que revisa o Programa de Transi­ção, considerando que a burocracia stalinista estava obrigada “pelas condições objetivas” a “fazer a revo­lução à sua maneira”, orientando as seções da 4ª Internacional para um “entrismo sui-generis” nos PCs.

Foi a resistência a essa tendência liquidadora, encarnada pela maioria da seção francesa em torno de Pierre Lambert (4), que durante décadas e em diferentes formas, combateu pela reconstrução da 4ª Internacional, que possibilitou a sua reproclamação em 1993, ao mesmo tempo em que seus militantes agiam para expandir o Acordo Internacional dos Traba­lhadores e Povos (AcIT), fundado em 1991 na Conferência Mundial Aberta de Barcelona.

Passados 80 anos de sua fundação, sim, a 4ª Internacional vive e luta!

 Julio Turra

Notas

  1. Mário Pedrosa (1900-1981): Militante político e crítico de arte, com o “nome de guerra” Lebrum foi fundador da 4ª Internacional. Em 1940 se alinha com a minoria do SWP, na questão da defesa da URSS, e se afasta da organização. Foi o filiado número um na fundação do PT no Brasil, oito meses antes de sua morte.
  2. Ver a esse respeito o artigo de Lucien Gauthier “A fundação da IV Interna­cional, uma necessidade histórica”, em www.otrabalho.org.br.
  3. Ver “Em defesa do marxismo”, de Leon Trotsky, sobre a polêmica no SWP.
  4. Pierre Lambert (1920-2008): Nasci­do Pierre Boussel, aos 14 anos entrou na Juventude Comunista, aderindo ao trotskismo em 1937. Após a 2ª Guerra, quando foi organizador da CGT (central sindical) na clandestinidade, tornou-se um dos principais dirigentes da seção francesa da 4ª Internacional (PCI) e jogou papel central na luta contra o revi­sionismo pablista. Há pouco mais de dez anos, em 16 de janeiro de 2008, morreu deixando o legado da reproclamação da 4ª Internacional