Índia: “Nós lutaremos, nós venceremos!”

A revolta camponesa não está enfraquecendo, ao contrário, ela se estende cada vez mais para amplos setores da sociedade.

O dia 26 de janeiro é feriado nacional na Índia. Neste dia da proclamação da República, os camponeses indianos, acampados nos bloqueios ao redor das grandes cidades do país, decidiram convergir para o centro destas.

Há mais de cinquenta dias que eles não são ouvidos pelo governo de Narendra Modi. Centenas de milhares de camponeses exigem a revogação de três leis que liberalizam o mercado agrícola, e a manutenção de um preço mínimo garantido que lhes permita sobreviver.

Desde dezembro, os camponeses têm sua própria imprensa em hindi, punjabi e inglês: Trolley Times, a voz do “Kisan Protest” ou da revolta camponesa. O título do primeiro número, demonstrando a sua determinação é: “Unir, Lutar e Vencer”, e, no subtítulo, esta frase do revolucionário Bhagat Singh: “A espada da revolução é afiada na pedra para aguçar as ideias”.

No dia 26, milhares de agricultores entraram na capital. O governo de Modi havia bloqueado as estradas nos pontos de passagem da manifestação de tratores, causando uma violência inusitada. Canhões de água e arame farpado contra os tratores, lathis (longos bastões da polícia herdados da polícia colonial) contra a multidão, a repressão feroz não diminuiu a determinação dos camponeses.

Agrupados por povoados, por região, eles contornaram ou romperam os bloqueios. Como disse este camponês do leste do Punjab: “Senti que esse governo estava batendo na nossa cara (…). Como eles ousam nos parar? (…) Subi na barricada e mandei a polícia fechar a água, eles me batiam com os cassetetes lá de baixo, dizendo que a água não iria parar. (…) Ele me bateu na coxa e eu caí, minha coxa ficou inchada e minha roupa rasgou (…). Aí, quando virei o canhão d’água, os rapazes se animaram. As barricadas foram empurradas para trás pelos tratores, as correntes dos tirantes foram arrastadas para o lado (…). Quando passamos na frente da polícia, nós sentimos como se estivéssemos perseguindo a polícia.”

Os camponeses ocuparam simbolicamente uma parte do Red Ford, edifício do qual o Primeiro Ministro se dirige à nação todos os anos no dia da independência. Desta vez, o povo indiano, por meio de seu campesinato e uma parte da classe operária, dirigiu-se ao governo Modi: “Nós lutaremos, nós venceremos!” (Artigo do Trolley Times), ou: “Revogação das leis anti-camponesas!”. Os camponeses não vão desistir.

O movimento resiste e amadurece. As esposas dos agricultores assumem um papel cada vez mais importante, assim como os jovens. Maninder Kaur, um estudante do último ano do ensino médio, disse: “Hoje, é claro, estamos lutando juntos na questão dos agricultores, mas agora também entendemos como a educação é cara por causa das políticas desses governos. E as oportunidades de emprego estão diminuindo. A vitória dessa luta nos dará mais força para nossas próximas batalhas.”

Enquanto os camponeses, sindicatos de trabalhadores e estudantes perguntam ao governo onde está uma centena de desaparecidos durante a manifestação do dia 26, outras iniciativas estão previstas para 3 de fevereiro. A revolta não parece estar enfraquecendo, mas sim espalhando-se para outras camadas da população.

Dharesh Hake
Publicado no jornal francês Informations Ouvrières
Tradução Adaias Muniz