Justiça para Beto!

20 novembro: manifestação em Porto Alegre, depois do assassinato de Beto

À véspera do dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro em memória à morte de Zumbi dos Palmares, um fato estarrecedor escancarou o racismo no Brasil. Na capital gaúcha, Porto Alegre, João Alberto Silveira Freitas, conhecido como Beto, foi espancado de forma brutal e covarde até sua morte na rede de supermercado do Carrefour. A única motivação: ser negro!

O ano de 2020 foi atravessado por grandes mobilizações das questões raciais em todo o mundo, como o caso de George Floyd nos EUA.

No Brasil, acontecimentos desta natureza, como aconteceu com Beto, não são exceções, não são pontos fora da curva, mas sim a regra que a sociedade racista impõe à população negra a quem tem a oferecer, além da violência, são condições de vida e trabalho mais precárias, dificuldade de acesso à educação, saúde e por aí vai. Mais da metade da população brasileira, a população negra continua confinada às condições impostas como herança dos mais de 300 anos de escravidão.

Beto, espancado até a morte por seguranças do Carrefour
Beto, espancado até a morte por seguranças do
Carrefour

“Percebi que a motivação era o racismo”
O assassinato de Beto no dia 19 de novembro, às vésperas do mais importante na luta em combate ao racismo no Brasil, levou as ruas de todo país, negros e negras (com apoio de brancos e brancas), que não aguentam mais viver nessa situação e que sabem que podem ser a próxima vítima. Palavras de ordem como “Justiça para Beto”, “Vidas Negras Importam” e “Racismo é o vírus” estiveram em diversas cidades do país. O sentimento de indignação e exigência de justiça é compartilhado por cada negro e negra que diariamente passa pelo risco de ser agredido em um estabelecimento. Como afirmou Crispim Terral que foi agredido pela Polícia Militar em uma agência da Caixa em Salvador, quando queria apenas resolver um saque indevido em sua conta. “Sou vítima e sobrevivente desse sistema racista que mata o nosso povo diariamente. A violência se repete e eu fico pensando: até quando vai acontecer? Podia ter sido eu ali e quase foi”.

E nós negros sabemos que isso é uma realidade cotidiana. Quantas vezes não entramos em um mercado ou shopping e evitamos mexer na bolsa ou mochila para não parecer suspeito? Quantas vezes não tivemos os seguranças nos acompanhando em cada corredor da loja como se fossemos o retrato falado do crime? “Já fui seguido diversas vezes em estabelecimentos porque minha presença era identificada como uma ameaça. Eu achava que isso era natural, mas, depois desse acontecido na Caixa, despertei para minha infância e adolescência. Percebi que isso sempre aconteceu e a motivação era o racismo”, complementa Crispim.

Governo nega racismo no Brasil
Enquanto nas ruas do país em diversas capitais e cidades do interior ocorriam manifestações exigindo #JustiçaPorBeto, mostrando a comoção contra mais uma violência contra um negro, por ser negro, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, declara, e sem corar, que “no Brasil, racismo não existe”. O mesmo Brasil que foi o último país das Américas a abolir a escravidão e foi a principal rota do mercado da escravidão de todo o mundo. Segundo Mourão, “para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui”. Além de Mourão, Bolsonaro foi na mesma linha e o presidente da Fundação Cultural Palmares (nomeado por Bolsonaro), o racista Sérgio Camargo, também afirmou que não existe “racismo estrutural” no Brasil, que o racismo aqui é “circunstancial”.

Afirmar que o racismo não existe é tentar justificar a política genocida que o governo Bolsonaro vem aprofundando dia após dia contra a população negra. Os negros estão entre os que mais morrem na pandemia do coronavirus e as mulheres negras são as que mais morrem assassinadas no país (em 2018 as mulheres negras representaram 68%, segundo Atlas da Violência). A naturalização do racismo é o caminho para a impunidade. E a luta contra o racismo caminha com a luta contra a sociedade capitalista que vivemos, como disse Steve Biko (liderança no combate ao apartheid na África do Sul) “capitalismo e racismo são duas faces da mesma moeda”.

Hipocrisia em nome do combate ao racismo
Após o assassinato de Beto em uma de suas lojas e depois da queda de 5% das ações da rede, o Carrefour decidiu criar um comitê que destinará R$ 25 milhões, além dos resultados das vendas nos dias 20, 26 e 27 de novembro. Seguindo a premissa de que quem paga a banda, escolhe a música, podemos ter uma ideia do quanto independente esse comitê será. Enquanto as ruas exigem #JustiçaPorBeto e que o Carrefour seja responsabilizado, a primeira ação do comitê foi propor que as lojas da rede abrissem às 14h no dia 26 de novembro com 1 minuto de silêncio. Enquanto isso o Carrefour tentava criminalizar Beto para justificar o assassinato de seus seguranças.

A principal ação independente que precisamos nesse momento é estar mobilizados e exigir Justiça para Beto, que o seu assassinato não caia na “normalidade” e os responsáveis não passem ilesos. A organização do povo negro de forma independente, sem a ingerência ou o dinheiro daqueles que nos açoitam é o caminho e a ferramenta para a nossa resistência.

Joelson Souza