Nossa moral e a deles

Em 1938, já exilado por Stálin, Leon Trotsky, que ao lado de Lênin dirigiu a revolução russa de 1917, dedicava-se à construção da 4ª Internacional. Publica, então, “Nossa moral e a deles”. Trotsky afirma a posição marxista frente às pressões da hipócrita moral burguesa e à falência moral da burocracia stalinista, e ressalta que a onda moralista era um subproduto da ofensiva capitalista, que obrigava o marxista, para poder “enfrentar sua tarefa histórica, a romper moralmente com a opinião pública da burguesia e de seus agentes no seio do proletariado”.

Destaca que “identificar a moral burguesa com a moral ‘em geral’ demonstra-se talvez com maior evidência na extrema esquerda da pequena burguesia, mais exatamente nos partidos centristas. Se, de modo geral, eles não chegam a crimes clamorosos, é porque estão sempre no último plano da política. São, em certo sentido, os ladrões de galinhas da história.
Exatamente por isso, crêem-se enviados para regenerar o movimento operário com uma nova moral”.

Trotsky explica como a moral não é universal, pode variar entre os dois lados numa greve, ou entre o escravo e o escravizador: “As duas partes contrapostas esforçam-se para assustar o adversário, dando uma imagem exagerada de seu grau de resolução e de seus recursos materiais. Graças a sua imprensa, seus agentes e espiões, os capitalistas procuram intimidar e desmoralizar os grevistas. Por seu lado, os piquetes de greve, quando a persuasão revela-se inoperante, são obrigados a recorrer à força.

(…) Que miseráveis eunucos não nos venham dizer que o escravagista, que com mentira e a violência agrilhoa um escravo, está, diante da moral, no mesmo plano que o escravo que com a mentira e a violência quebra seus grilhões! (…) O operário que não esconde do capitalista a ‘verdade’ sobre as intenções dos grevistas é um puro e simples traidor, que não merece senão o desprezo e o boicote. A ‘verdade sagrada’ não é, pois, um fim em si? Ela é dominada por critérios imperativos que, a análise o demonstra, revestem-se de um caráter de classe.”

Mas, prossegue, “o moralista ainda insiste: são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio etc.? Respondemos: são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

Quando dizemos que o fim justifica os meios, disto deriva para nós que o grande fim revolucionário repudia, entre estes meios, os procedimentos e os meios indignos que lançam uma parte da classe operária contra outra; ou que tentam fazer ‘a felicidade das massas’ sem a sua organização, substituindo-as pela adoração dos ‘chefes’.

Estes critérios, é obvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas.”

Por isso cabe ao “movimento”, isto é, aos militantes e filiados do PT, julgarem os erros e acertos dos dirigentes. Se a política de alianças contribuiu para a coesão dos trabalhadores, ou ainda, se foram dignos os meios utilizados para costurar essas alianças, e assim por diante.

Já o Supremo Tribunal Federal, instituição do Estado burguês, quando condena os dirigentes do PT sem provas da “compra de votos”, e em nome de princípios abstratos que ignoram a realidade generalizada do “caixa dois” em todos partidos, é o instrumento de um ataque para acuar o PT. Cujo resultado não será uma direção mais limpa e classista, mas sim a seleção de uma direção mais corrupta e adaptada às instituições de dominação desse Estado. Tudo o que combatemos!