O Gulag de Vorkuta e os trotskistas

Após o assassinato de Kirov, em 1º de dezembro de 1934, Stálin desencadeia uma violenta repressão contra os opositores de antes e de então, em particular contra os “trotskistas”.

Uma onda de deportação leva para os campos centenas de trotskistas, mesmo entre aqueles que antes, por desespero, tinham se ligado a Stálin – alguns haviam voltado, a partir de 1935, para seu lado.

Ao mesmo tempo, uma nova geração de oponentes enfrenta Stálin e sua burocracia. A greve de fome feita pelos trotskistas no campo de Vorkouta, no norte da Sibéria, em 1936, é o primeiro episódio de massa de uma luta dos trotskistas nos campos que vai até o final de 1937 e tem seu ponto culminante em Magadan. Para acabar com o combate dos trotskistas, que ameaça sua ditadura policial, Stálin irá massacrar a todos.

Publicamos abaixo extratos de um artigo a este respeito publicado em 1961 no jornal mensal dos mencheviques russos no exílio, dirigido por Boris Nicolaievski, “Sotsialisticheski Vestnik”. Este relato foi escrito por um sobrevivente de Vorkuta. Artigo reproduzido na edição 49 de A Verdade, revista teórica da 4ª Internacional.


Em meados e no final dos anos 1930, os trotskistas formavam, em Vorkuta, um grupo bastante díspar: uma parte deles tinha conservado sua antiga designação de “bolchevique-leninista”. Na mina, eles eram quase 50 pessoas; no campo de Oukhto-Petchora, quase mil; no total, nos arredores de Petchora, certamente eram muitos milhares.

Tratava-se de trotskistas ortodoxos, que permaneceram fiéis até o fim à sua plataforma e a seus dirigentes. Em 1927, em conseqüência das resoluções do 15º Congresso do partido, eles foram excluídos do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, presos. Encontrando-se, depois, em detenção, continuavam sempre a se considerar como comunistas; quanto a Stálin e seus partidários – “os homens do aparelho” – eles os qualificavam de renegados do comunismo (…).

Além destes verdadeiros trotskistas, encontravam-se, então, nos campos de Vorkuta e nos demais, mais de 100 mil internos, que, membros do Partido ou das organizações de juventude, tinham aderido à oposição trotsquista, e depois, em diferentes épocas e por diversas razões (cujas principais foram, evidentemente, a repressão, o desemprego, as perseguições, a exclusão das escolas e faculdades etc.), foram constrangidos a “se arrepender de seus erros” e a se afastar da oposição.

* * *

Os trotskistas ortodoxos chegaram à mina durante o verão de 1936 e viviam em massa compacta em duas grandes barracas. Eles se recusaram categoricamente a trabalhar nos poços; eles só faziam os trabalhos da superfície, e somente durante 8 horas diárias, e não 10 ou 12, como previa o regulamento e faziam os outros detentos. Eles o faziam segundo sua própria autoridade, de uma maneira organizada, e ignoravam abertamente os regulamentos do campo.

No total, havia já quase dez anos que eles estavam deportados. No início, haviam sido enviados para um isolamento político, para, em seguida, serem exilados em Solovka; enfim, chegaram em Vorkuta. Os trotskistas formavam o único grupo de internos políticos que criticavam abertamente a “linha geral” stalinista e ofereciam uma resistência organizada aos carcereiros.

Os diferentes grupos trotskistas

Entretanto, no seio deste grupo, havia também divergências.

Alguns se colocavam como discípulos de Timóteo Sapronov (ex-secretário do Vzik [1]) e se faziam chamar “sapronovistas” ou “democratas-centralistas” (decistas). Eles afirmavam ser mais à esquerda que os trotskistas e estimavam que a degenerescência burguesa da ditadura stalinista já estava completa no fim dos anos 1920 e que a aproximação de Hitler e Stálin era muito provável. Por outro lado, em caso de guerra, os “sapronovistas” declaravam-se pela defesa da URSS.

Entre os “trotskistas” encontravam-se igualmente os partidários dos “direitistas”, ou seja, de Rykov e de Bukharin, e ainda os adeptos de Chliapnikov e de sua plataforma de “oposição operária”.

Mas a grande maioria do grupo era formada por verdadeiros trotskistas, por partidários de Leon Trotsky. Eles defendiam abertamente a tese dita de Clemenceau:

“O inimigo está em nosso país. É necessário primeiro descartar o governo reacionário de Stálin e somente após organizar a defesa do país contra o inimigo externo” (2).

Alguns dirigentes

Apesar de suas divergências, todos estes grupos, na mina, viviam muito amigavelmente sob um mesmo denominador comum: os “trotskistas”. Seus dirigentes eram Socrate, Guévorkian, Vladimir Ivanov, Melnais, V. V. Kossior e o ex-secretário de Trotsky, Posnansky.

Guévorkian era um homem calmo, bem equilibrado, razoável, cheio de bom senso. Ele falava sem se apressar, medindo as palavras, fugindo de toda afetação e de todo gesto teatral. Até sua prisão, trabalhava como cientista na Associação Russa dos Centros de Pesquisas Científicas do Instituto de Ciências Humanas. Era armênio e, na época, tinha aproximadamente 40 anos. Seu irmão caçula estava preso com ele.

Melnais, um letão, era um pouco mais jovem que Guévorkian. Antes de ser membro do Comitê Central das Juventudes Comunistas, havia estudado na Faculdade de Física e de Matemática da Universidade de Moscou, onde, em 1925-27, estava à frente de um grupo muito importante (algumas centenas de pessoas) de estudantes oposicionistas. Nas reuniões da universidade, quando Melnais intervinha, os stalinistas levantavam uma tempestade de barulho e gritos, impedindo-o de falar. Mas, obstinadamente, Melnais esperava; quando os gritadores estavam ofegantes, cansados, e se calavam, o presidente da assembléia, fazendo tocar a campainha, dizia:

“– Seu tempo de fala está esgotado!
– Perdão, era seu tempo. Vocês são endemoniados como bestas e ficaram gritando; quanto a mim, fiquei calado. Agora, é a minha vez de falar”, respondia Melnais, que, em seguida, se dirigia ao auditório.

No final de 1927, Melnais foi um dos primeiros opositores da univesidade a ser detido. Sua prisão provocou uma explosão de indignação entre os estudantes (…).

Vladimir Ivanov era um homem robusto, com um rosto redondo e cheio como o de um comerciante gordo, grossos bigodes pretos e inteligentes olhos castanhos. Apesar de seus 50 anos, sentiamos nele uma grande vontade e uma força de urso. Velho bolchevique e membro do Comitê Central, Ivanov, até sua prisão, dirigia a estrada de ferro sino-oriental.

Ele havia aderido, assim como sua mulher, ao grupo dos “centralistas-democratas” (decistas) e se colocava ao lado dos partidários de Sopranov. Quando o 15º Congresso decidiu acerca da incompatibilidade de pertencer à oposição e ao PC, Ivanov deixou as fileiras da oposição, o que, apesar de tudo, não o salvou: ele foi preso depois do assassinato de Kirov.

No campo, ele era responsável pela estrada de ferro de bitola estreita que ligava a mina de Vorkuta ao rio Oussa. Em 1936, segundo as diretivas centrais, a NKVD (polícia política – NdT) local trama uma peça de acusação na qual Ivanov foi acusado de sabotagem desta pequena estrada de ferro de 60 quilômetros. Um júri especial do alto tribunal da República Socialista Soviética Autônoma dos Komis vem ao campo. Instalando-se a portas fechadas, após haver lido a ata de acusação, perguntam a Ivanov:

“– O que você pode dizer em sua defesa?
– Vocês têm suas diretivas: vocês têm a missão de realizar todas as formalidades necessárias e de covardemente punir, com a pena de morte. Vocês estão obrigados a realizar esta tarefa. Estas acusações, você sabem tão bem quanto eu, tiveram todas suas peças forjadas pelos funcionários serviçais da polícia stalinista. Então, não compliquem sua tarefa; façam seu trabalho. Quanto a mim, recuso-me a participar de sua comédia judicial. Interrogue-os logo – diz ele apontando três pseudo-testemunhas tomadas entre os presos por delitos comuns –, já que, por um pacote de makhorka, não somente lhes confirmarão que sou um sabotador, como um parente do Mikado” (3).

O tribunal não pode obter nada mais; restava-lhe apenas interrogar as “testemunhas”. A instrução da audiência foi abreviada. Por outro lado, a deliberação do júri foi longa: uma chamada telefônica, longa espera pela resposta, e, finalmente, a sentença foi pronunciada:

“Merece a pena máxima; mas, observando … e …, esta foi comutada para 10 anos de reclusão”.

E com o olhar furtivo, não ousando encarar Ivanov, os jurados amassam energicamente seus papéis e se distanciam.

As falsas testemunhas de acusação, buscando se justificar, aproximam-se, tremendo, de Ivanov. “Saíam da minha frente, canalhas”, ruge; e se retira sem demora para seu casabre.

1936: Em seguida aos processos de Moscou

No outono (meses de setembro a dezembro – NdT) de 1936, logo após os simulacros de processo contra os dirigentes de oposição, Zinovive, Kamenev e os outros, todo o grupo dos trotskistas “ortodoxos” se encontrava na mina e se reunia para deliberar.

Abrindo a reunião, Guévorkian dirigiu-se aos presentes:

“Camaradas! Antes de começar nossa reunião, convido-os a honrar a memória de nossos camaradas, guias e dirigentes, mortos como mártires pela mão dos stalinistas traidores da revolução”.

Toda a assembléia se levanta. Depois, num breve e incisivo discurso, Guévorkian explicou que deviam examinar e resolver o problema-chave: o que fazer e como se comportar em seguida?

“Agora, está evidente que o grupo dos aventureiros stalinistas completa seu golpe de Estado contra-revolucionário em nosso país. Todas as conquistas progressivas de nossa revolução estão em perigo de morte. Não somente as trevas do crepúsculo, mas aquelas da escura e profunda noite, envolvem nosso país. Nem Cavaignac (sanguinário general francês que reprimiu as jornadas revolucionárias de 1848 – NdT) teria feito correr tanto sangue das classes trabalhadoras como fez Stálin. Anulando fisicamente todos os grupos oposicionistas do partido, ele aspira a uma ditadura pessoal sem partilha. O partido e todo o povo estão submetidos ao exame e à justiça sumária do aparelho policial. Os prognósticos e as apreensões mais sombrias de nossa oposição estão plenamente confirmadas. A nação desliza irresistivelmente para o pântano termidoriano (6). É o triunfo das forças centristas pequeno-burguesas, das quais Stálin se afirma como intérprete, porta-voz e apóstolo. Nenhum compromisso com os traidores stalinistas e carrascos da revolução é possível. Permanecendo revolucionários proletários até o fim, não devemos nutrir nenhuma ilusão no que se refere à sorte que nos espera. Mas antes de nos anular, Stálin procurará nos humilhar o mais que possa. Colocando os presos políticos no mesmo regime que os de ‘delitos comuns’, ele tenta nos dispersar entre os criminosos e dirigi-los contra nós. Resta-nos apenas um único meio de luta neste combate desigual: a greve de fome. Com um grupo de camaradas, nós já esboçamos a lista de nossas reivindicações que muitos de vocês já conhecem. Proponho a vocês, portanto, agora, discuti-las em conjunto e tomarmos uma decisão.”

A reunião foi breve, a questão da greve de fome e das reivindicações concretas já tinham sido debatidas havia alguns meses pelos trotskistas. Grupos trotskistas erncontravam-se também em outros campos (estação Oussa, Tchibiu, Kotchmess etc.) e tinham igualmente discutido enviado seu aval de apoio às reivindicações e de participação na greve de fome. Estas reivindicações foram ratificadas pela unanimidade dos presentes. Elas estipulavam:

Revogação da decisão ilegal da NKVD referente à transferência de todos os trotskistas dos campos admininstrativos para os campos de concentração. As questões relativas à oposição política ao regime não deviam ser julgadas pelos tribunais especiais da NKVD, mas em assembléias jurídicas públicas.

1 – A jornada de trabalho, no campo, não deveria ultrapassar 8 horas.

2 – A alimentação dos detentos não deveria depender de seu nível de rendimento.

3 – Separação, tanto no trabalho quanto nos alojamentos, dos presos políticos e dos condenados por delitos comuns.

4 – Os inválidos, idosos e mulheres presos políticos devem ser transferidos dos campos polares para campos nos quais as condições climáticas sejam mais favoráveis.

5 – Ele havia recomendado, fora da reunião, que os doentes, os inválidos e os idosos não participassem da greve de fome; entretanto, todos estes repudiaram energicamente esta recomendação.

6 – A assembléia não tinha decidido o dia no qual começaria a greve de fome; uma direção de 5 membros, encabeçada por Guévorkian, foi encarregada da decisão, após tomar informações com os outros grupos trotskistas disseminados pelo imenso território dos campos de Oukhto-Petchora.

A greve de fome, seu desenrolar e seu sucesso

Três semanas depois, em 27 de outubro de 1936, começa a massiça greve de fome dos presos políticos, greve sem precedentes e exemplar nas condições dos campos soviéticos. De manhã, ao sinal de despertar, em quase todos alojamentos havia presos se declarando grevistas. Os alojamentos nos quais estavam instalados os trotskistas participaram do movimento em sua totalidade. Mesmo os ordenanças fizeram greve. Nesta estratégia, que durou mais de quatro meses, participaram mais de mil presos, cuja metade estava na mina.

Nos primeiros dias, os grevistas permaneceram em seus lugares habituais. Depois a administração do campo se preocupou em isolá-los do resto dos presos, temendo que seu exemplo estimulasse os demais. Na tundra, a 40 quilômetros da mina, nas margens do rio Syr-Iaga, havia alojamentos primitivos meio demolidos que, anteriormente, tinham sido usados quando houve as sondagens de pesquisa. Rapidamente, estes alojamentos foram arrumados; convocaram os habitantes da região que, com suas parelhas de renas, transportaram os grevistas de fome, que chegavam a 600. Os outros foram colocados não muito longe de Tchibiu.

Após os grevistas terem sido isolados, a GPU (polícia política, sucessora da NKVD – NdT) adotou as medidas necessárias afim de que o movimento não se estendesse no país e que ficasse ignorado fora de suas fronteiras. Os presos perderam o direito de se corresponder com seus familiares; os empregados assalariados do campo viram suprimidos suas licenças e seu direito de deslocamento. Foram feitas tentativas para jogar os outros presos contra os grevistas. Na mina, não havia mais reservas de suprimentos, mais com o que alimentar aqueles que trabalhavam nos poços; a administração do campo dizia que teria de usar grandes reservas de gordura e de açúcar, estocadas para os que faziam trabalho pesado, para a alimentação artificial dos trotskistas.

Ao final do primeiro mês de greve, um dos participantes morreu de esgotamento; dois outros deveriam morrer ao longo do terceiro mês. Neste mesmo mês, dois grevistas, trotskistas não-ortodoxos, interromperam voluntariamente a greve. Enfim, a poucos dias do fim da greve, morreu mais um dos participantes.

Os trotskistas foram então reconduzidos para a mina, receberam a alimentação reservada aos doentes e, ao fim de algum tempo, retomaram o trabalho, mas unicamente na superficie; alguns dentre eles foram para o escritório da direção da mina como empregados, contadores, economistas etc. Sua jornada de trabalho não ultrapassava 8 horas, sua ração era independente de seu nível de rendimento.

Em 1937, brutal e sangrenta repressão

Mas o interesse dos outros presos com relação aos grevistas começou pouco a pouco a reduzir. A atenção de todos estava agora voltada para os novos processos de Moscou que a rádio anunciava; além disso, desde o final de junho chegavam novos presos. Seus relatos assinalavam as prisões em massa, as injúrias, as execuções sem processo por trás das paredes da NKVD, e isto em todo o país. No início, ninguém queria acreditar, tanto mais que os recém-chegados não falavam de boa vontade ou o faziam sobretudo sob forma de alusões. Mas, pouco a pouco, os contatos tornaram-se mais estreitos e as conversas mais francas. Sem parar, novos detentos chegavam da Rússia; antigos amigos e conhecidos reencontravam-se: tornava-se impossível não mais acreditar.

Apesar destes fatos incontestáveis, um certo número de presos esperava com impaciência o outono de 1937 e o 20º aniversário da Revolução de Outubro; eles esperavam, nesta ocasião, a exemplo de 1927, uma grande anistia do governo, tanto mais que, pouco antes, tinha adotado a tão prometida “Constituição stalinista”. Mas o outono não trouxe mais do que amargas desilusões.

O duro regime dos campos piorou bruscamente. Os homens da brigada e os encarregados da ordem – sobre os presos comuns – tinham recebido novas ordens da direção do campo, armaram-se de porretes e espancavam impiedosamente os presos. Os guardas, os vigias próximos dos alojamentos, ironizaram os presos e zombavam deles (..).

Alguns trotskistas, incluindo V.I. Ivanov, Kossior e o filho de Leon Trosky, Serge Sedov – um modesto e simpático adolescente que, imprudentemente, tinha se recusado a seguir com seus pais para o exílio em 1928 – foram levados em comboio especial para Moscou. Aparentemente, Stálin não se satisfaria apenas em abatê-los na tundra; sua natureza sádica não tinha apenas sede de sangue; ele queria, antes de tudo, humilhá-los ao máximo e submetê-los à tortura, constrangendo-os a falsas auto-acusações (5) (…)

Durante todo o inverno de 1937-38, os presos, famintos, colocados em alojamentos numa olaria, aguardavam uma decisão referente à sua sorte. Enfim, ao final de março, chegam de avião a Vokouta, vindo de Moscou, três oficiais da NKVD, Kachketin à frente. Chegando à olaria, passaram ao interrogatório dos presos. De 30 a 40 internos eram chamados por dia, interrogados superficialmente por 5 a 10 minutos cada um, grosseiramente xingados, escutavam injúrias e obscenidades. Alguns eram gratificados com socos na cara; a um deles, o velho bolchevique Virab Virabov, antigo membro do Comitê Central da Armênia, o lugar-tenente Kachketin desfere diversos golpes.

No final de março, uma lista de 25 pessoas foi divulgada, incluindo Guévorkian, Virabov, Slavine etc. A cada um, foi entregue um quilo de pão e ordenado que se preparasse com seus pertences para um novo comboio. Depois de calorosas despedidas a seus amigos, os convocados deixaram os alojamentos e, após o chamado, o comboio partiu. Depois de 15-20 minutos, não longe dali, a meio quilômetro, sobre a margem escarpada do pequeno rio Verkiaia Vorkuta (Vorkuta Superior), uma brusca salva ecoou, seguida de tiros isolados e desordenados; depois, tudo silenciou novamente. Logo, perto dos alojamentos, passou novamente a escolta do comboio. E ficou claro para todos a que tipo de comboio tinham sido enviados os presos.

Dois dias depois, novo chamado, desta vez de 40 nomes. Novamente, uma ração de pão. Alguns, de esgotamento, já não podiam mais se mexer; a estes, prometeram instalá-los numa carroça. Predendo sua respiração, os presos ficaram nos alojamentos escutando o estalido da neve sob o passo do comboio que se distanciava. Depois de algum tempo, todos os barulhos cessaram; mas todos estavam alertas, sempre escutando. E, assim, quase uma hora se passou. Mas, novamente, as detonações ressoaram na tundra; desta vez, elas vinham de bem mais longe, em direção da estrada de ferro que passava a três quilômetros da olaria. Este segundo “comboio” convenceu definitivamente aqueles que ficaram de sua irremediável condenação.

As execuções na tundra ainda duraram todo o mês de abril e uma parte de maio. Geralmente um dia a cada dois, um dia a cada três, 30 a 40 presos eram chamados. E, importante notar que, a cada vez, alguns criminosos comuns, reincidentes, eram incluídos. A fim de aterrorizar os presos, os membros da GPU, de tempos em tempos, faziam conhecer publicamente, pela via do canal da rádio local, as listas dos fuzilados. Habitualmente, estas transmissões começavam da seguinte forma: “Por agitação contra-revolucionária, sabotagem, banditismo nos campos, recusa ao trabalho, tentativas de fugas, foram fuzilados…” e seguia-se uma lista de nomes, na qual os presos políticos estavam misturados aos presos comuns.

Certa vez, preparando o fuzilamento, um grupo de quase cem presos foi levado, composto essencialmente de trotskistas. Distanciando-se, os condenados cantarm a “Internacional”, apoiados pela voz de centenas de presos que ficaram no campo.

No início de maio, um grupo de mulheres foi fuzilado. Entre elas, podemos nomear a comunista ucraniana Chumskaia, Smirnova (mulher de I.N. Smirnov, bolchevique desde 1898 e ex-comissário do povo; a filha de Smirnov, Olga, uma jovem apolítica apaixonada por música, tinha sido fuzilada um ano antes em Moscou), as mulheres de Kossior, de Melnais etc. Uma destas mulheres movia-se com a ajuda de muletas. Quando um oposicionista era executado, sua mulher, interna, estava automaticamente passível da pena capital; e quando se tratava de oposicionistas mais destacados, suas crianças de mais de 12 anos eram igualmente passíveis de execução.

Em maio, quando não restavam mais do que cem presos, as execuções foram interrompidas. Duas semanas se passaram, tranquilas; depois, todos os presos foram conduzidos em comboio para a mina. Lá, soubemos que Ejov tinha sido destituído e que seu posto começava a ser assumido por Béria…

M. B.

NOTAS

1 – Soviete Supremo da URSS.

2 – O autor do artigo deturpa o pensamento trotsquista sobre esta questão. A “tese de Clemenceau”, enunciada em 1926-27, quando a oposição ainda estava no Partido Bolchevique, significava que esta não renunciava a lutar para mudar a linha do partido e do Estado em tempos de guerra. Num artigo de 25 de setembro de 1939, prevendo a guerra da URSS contra o nazismo, Trotsky escreveu: “De armas em punho, golpeando Hitler, os bolcheviques-leninistas conduzirão ao mesmo tempo uma propaganda revolucionária contra Stálin, preparando sua derrubada para uma próxima etapa, talvez muito próxima”.

3 – Mikado: referência ao imperador japonês.

4 – Termidoriano é uma referência a “termidor”, mês do calendário implantado pela Revolução Francesa no qual a contra-revolução saiu triunfante (NdT).

5 – O autor do artigo comete um erro, pois Serge Sedov não foi julgado publicamente nem confessou qualquer coisa que fosse. Sua recusa ocasionou sua liquidação.