“O que o Vaticano teria a ensinar à juventude?”

Entre 23 e 28 de julho, ocorrerá a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) da Igreja Católica, na cidade do Rio de Janeiro, com a presença estimada em 2 milhões de jovens.

Sem desrespeitar a opção religiosa de cada um, se faz necessária uma reflexão sobre a situação escancarada na cúpula da Igreja com a renúncia do papa Bento XVI. E, mais importante, reafirmar que o Estado brasileiro é laico, e não deve usar recursos públicos ou participar de organização de eventos religiosos.

Mas as três esferas do governo (nacional, estadual e municipal) estão envolvidas na organização. Diversas escolas e universidades terão seu calendário modificado e estarão à disposição da JMJ. A última JMJ ocorreu em 2011 em Madri (Espanha) quando cresciam as mobilizações contra os cortes de gastos públicos ditados pela União Européia, diante da crise do imperialismo. Com cerca de 25% de jovens desempregados, o Estado espanhol injetava dinheiro na visita do papa Bento XVI. Em atos de rua, cartazes diziam “nem um euro para o Papa” (foto).

Causou espanto a declaração de Edinho Silva, presidente estadual do PT, partido cujos filiados são de diferentes religiões ou de religião nenhuma, a uma rádio de Araraquara (SP). “No século XXI existem dois grandes desafios: a questão da juventude e a da sustentabilidade. Em julho, no Rio de Janeiro, teremos a Marcha Internacional da Juventude, que falará sobre o papel da juventude na sociedade.” E qual é mesmo o papel da cúpula da Igreja Católica na sociedade?

O jornal “O Estado de S. Paulo” (23/02) divulgou cerca de 130 telegramas relativos à America Latina, que vem desde 2005, vazados pelo site Wikileaks, os quais mostram claramente como a cúpula do Vaticano se intromete na vida política, e do lado de quem.

Representantes do Vaticano discutem como parceiros com o governo Obama. Entre os países discutidos estão Venezuela, Cuba, Brasil e Honduras. “Num telegrama de 15 de julho de 2009, a embaixada americana na Santa Sé relata um encontro de diplomatas americanos com o monsenhor Francisco Forjan em que o Vaticano rejeita chamar a retirada de Manuel Zelaya da presidência como um ‘golpe de Estado’. A Igreja pedia ao governo americano que insistisse com seus parceiros para que explicassem ao público as ‘ações anticonstitucionais de Zelaya que precipitaram a crise’. O líder da Igreja nesse assunto era o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e hoje considerado como um dos potenciais candidatos a papa.” (OESP)

Telegramas pressionam o governo brasileiro para assumir a JMJ: “tendo em vista que o papa participará pessoalmente, parece-me recomendável maior envolvimento do Itamaraty na organização do evento e, portanto, designação de um representante para acompanhar os trabalhos dessa rodada de entendimentos em Roma”.

Lembremos que o papa Bento XVI, nos fatos, orientou o voto no PSDB, ao chamar os católicos a não votarem em quem era favorável ao aborto, em 2010. Respeitando a opção religiosa de cada um, a maioria no Brasil é católica, mas o Estado é laico e isso deve ser acatado, a começar pelos poderes públicos. Quanto à cúpula da igreja, convenhamos, ela prega em suas palavras interesses políticos bem concretos.

Joelson Souza

Matéria publicada na edição nº 725 do Jornal O Trabalho