O que pensar sobre o acordo na Volks?

Em 15 de setembro, com o pátio da Volks em São Bernardo lotado, foi aprovada em assembleia proposta de acordo coletivo negociada durante três semanas pelas direções do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e dos sindicatos de Taubaté, São Carlos e São José dos Pinhais (PR), diante do anúncio da montadora alemã da demissão de 35% do seu pessoal no Brasil (onde emprega 15 mil trabalhadores).

Ao contrário do que ocorreu na Renault (PR), quando o anúncio de demissões provocou uma greve de 21 dias, no caso da Volks nenhuma mobilização foi feita nas fábricas durante essas três semanas, exceto reuniões informativas das negociações.

Afinal, o acordo entre os sindicatos e a Volks é uma “vitória”, como disse Valter Sanches, metalúrgico do ABC que é o secretário-geral do IndustriALL Global Union, ou uma derrota sem combate?

O que estabelece o acordo
A capa da Tribuna Metalúrgica do ABC (16/09) estampou: “Acordo na Volks conquista 5 anos de garantia no emprego”. Mas, isso vale para aqueles que não aderirem ao PDV (plano de demissão voluntária, com 20 e depois 10 salários adicionais, em duas etapas), que faz parte do acordo, pois a Volks não desistiu de sua meta de redução do pessoal.

O acordo rebaixa itens do acordo anterior sobre remuneração e benefícios. Assim, neste ano não será aplicado reajuste salarial de 5%, convertido em abono de R$ 6 mil. Em 2021 (março), não será aplicado o INPC de 3,5%. Em 2022 (março), não será aplicada a diferença para completar os 5% do INPC (5% menos 3,5% de 2021). Só em 2023, e até 2025, será aplicado o INPC do período aos salários dos que permanecerem na Volks.

A progressão salarial foi congelada por 12 meses e uma nova tabela, reduzindo em 17,05% o teto das tabelas salariais vigentes, será aplicada para os admitidos a partir de 01/01/2021. Já a PLR (participação nos lucros) passa a ter o valor fixo de R$ 12.800, reajustado todo ano pelo INPC. O acordo autoriza a utilização de layoff (suspensão do contrato) pela empresa, no limite de 10 meses, com remuneração de 82,5% do salário líquido.

Wagner Santana, presidente do sindicato do ABC e trabalhador da Volks, declarou que “um acordo que garante estabilidade por cinco anos é muito positivo, inclusive tornando-se referência para o movimento sindical”. Referência de luta dos trabalhadores contra as demissões certamente não é, pois ela não houve, apenas longas negociações. E isso na Volks, símbolo de greves e mobilizações num passado não tão remoto.

As perdas embutidas no acordo são reais e a empresa vai querer atingir a sua meta de cinco mil demissões via PDV. Se tudo isso fosse, por exemplo, o resultado de uma greve, numa situação de defensiva, poderia ser positivo. Mas na ausência de qualquer chamado à mobilização das bases por parte das direções sindicais, cheira mais a uma derrota sem combate.

Lauro Fagundes