Os Estados Unidos e o mundo

Após a eleição de Joe Biden, um grande alívio se espalha para as chancelarias europeias. Macron, Merkel e outros parabenizaram Joe Biden, reafirmando a necessidade de reequilibrar as relações e restabelecer as boas relações transatlânticas.

É claro que, com Biden, a linguagem será mais diplomática, menos errática do que com Trump. Ele até anunciou que os Estados Unidos restabeleceriam os acordos climáticos de Paris, que Trump havia deixado.

Mas, Biden presidente dos Estados Unidos continua sendo o representante do capital financeiro. E, à sua maneira, menos estrondoso do que Trump, ele reafirmou seu compromisso de restaurar a indústria americana.

Numa situação marcada por uma marcha para a desagregação do mercado mundial, o capital estadunidense em crise exige, para sobreviver, que lhe seja atribuído um lugar de destaque em detrimento dos seus aliados e adversários. Em sua campanha eleitoral, Biden reafirmou que é imperativo reequilibrar as relações com a China. Portanto, a guerra comercial com a China e as consequências que ela engendra irão continuar.

E o mesmo vale para a Europa. As medidas tomadas contra a Airbus em defesa da Boeing e outras disposições irão persistir. Biden se encontra à frente de um país fraturado, cujas instituições e economia estão em crise. A eleição presidencial nos Estados Unidos é uma expressão dessa crise mundial que atinge todas as classes dominantes. Ao concentrar em si todas as contradições mundiais, o imperialismo estadunidense – o mais poderoso – concentra em si esta crise que se reproduz à escala mundial.

A burocracia chinesa está presa entre as demandas do capital financeiro e a situação da população que quer viver. A contradição entre a abertura às regras do mercado e o monopólio do poder político pelo PC provoca intensas contradições dentro dessa burocracia sujeita à guerra comercial dos Estados Unidos.

A União Europeia está em processo de desagregação, todos os governos que a constituem estão em crise, e isto numa situação em que a crise econômica (anterior à pandemia, mas que ela acelera) atinge todas as populações da Europa. As greves, as manifestações, as mobilizações espontâneas que estão se produzindo em vários países europeus são a expressão da raiva que cresce entre os povos. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos com a mobilização de negros, jovens, latinos e sindicalistas. A chegada de Biden ao comando dos EUA não irá, de forma alguma, restaurar a situação anterior.

Uma nova etapa está se abrindo nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Lucien Gauthier


“Até a morte”

“Donald Trump lutará até a morte”, disse seu filho em uma entrevista coletiva. O próprio Trump anunciou que não faria a transição porque estava vitoriosamente eleito. Ele mobilizou seus advogados, chamou seus partidários a resistir e em 9 de novembro, demitiu seu secretário de Estado da Defesa.

Um diretor de campanha de Joe Biden retrucou que se Trump não deixar a Casa Branca em 20 de janeiro de 2021, data da posse de Joe Biden, o Serviço Secreto seria o encarregado de retirá-lo à força.

Esta situação expressa a grande crise que está dilacerando todas as instituições estadunidenses, o sistema bipartidário e a classe dominante. O patronato – assim como a direção da AFL-CIO, aliás – mas também os líderes republicanos pedem o respeito da transição (veja abaixo). Biden lançou um apelo à unidade. Ele disse: “O povo americano quer que cooperemos. Esta é a escolha que farei. E peço ao Congresso Democrata e Republicano que faça o mesmo por mim”.

Biden está ciente do risco para as instituições americanas e para os próprios Estados Unidos. Ele pretende defendê-las. Uma das forças motrizes desta crise, e consequentemente da eleição de Biden, é a emergência no cenário político de centenas de milhares de negros, jovens, latinos e sindicalistas. Não se trata apenas da luta contra o racismo sistêmico. Foi uma verdadeira explosão social com a crise que deixou dezenas de milhões de desempregados e jogou na rua milhões e milhões de trabalhadores precários, principalmente jovens e negros. Para conseguir seus votos, e sob pressão da chamada ala esquerda do Partido Democrata, Biden teve que “esquerdizar” seu discurso prometendo medidas econômicas, sociais e um sistema de saúde para todos.

Mas agora que ele está eleito, este é outra questão.

Um dos maiores empresários americanos, Robert Rosenberg, disse: “A principal tarefa do novo presidente será substituir o clima do país marcado, a meu ver, pelo medo, ansiedade e discórdia por um ambiente de esperança e inclusão.”

O grande patronato está preocupado com esta situação. Outro grande empresário explicou que o mandato de Joe Biden pode ser positivo “a médio e longo prazo, se contribuir para a aliviar as tensões sociais nos Estados Unidos”. E as declarações do presidente da AFL-CIO indicam que ele está pronto para ajudar.

Mas os patrões pretendem se defender. Nicole Wolter, CEO de uma empresa metalúrgica, disse: “Queremos que as coisas continuem iguais, por uma questão de regulamentação. Não quero ser mais tributado”.

O diário financeiro francês “L’Opinion” escreve: “Os CEOs poderiam expressar de maneira mais enérgica suas discordâncias com a administração do Sr. Biden assim que ele assumir o cargo (…), no entanto, os diretores de empresas que trabalharam com Biden dizem que veem o ex-vice-presidente como mais favorável aos negócios do que outros membros de seu partido”. O CEO de uma empresa petrolífera, Lee Tillman, preocupado com a maior dificuldade em obter direitos de perfuração, disse, porém: “Não há dúvida: se o Projeto de Lei infraestrutura for adotado, estaremos em uma posição muito melhor nos próximos dois ou três anos”. Mesmo antes da posse de Biden, os patrões estão definindo seus termos. O apelo de Biden aos republicanos e o fato de que eles, segundo as previsões, reterão a maioria no Senado, deverá levar a uma “coexistência”. Biden havia prometido um pacote de estímulo, cujo financiamento envolvia o restabelecimento dos impostos sobre os lucros que Trump havia removido. Mas tudo isso terá que ser negociado com o Senado Republicano.

Alexandria Ocasio-Cortez é apontada como uma das líderes da ala “esquerda” do Partido Democrata. Ela havia apoiado a candidatura de Bernie Sanders, contra Biden, antes de finalmente convocar para votar neste último. Ela disse: “A história do nosso partido tende a mostrar que a base é galvanizada pela perspectiva das eleições, mas que essas comunidades são rapidamente abandonadas após as eleições. Acho que o período de transição indicará se a nova administração adotará uma abordagem mais aberta e colaborativa ou se adotará uma abordagem de fechamento”.

Mas a ala “esquerda” do Partido Democrata continua sendo membro do Partido Democrata, mesmo que ela seja pressionada pelas ruas. Porque a mobilização independente de negros, jovens, latinos e muitos sindicalistas, que estabeleceram vínculos entre eles para derrubar Trump, será agora confrontada com as políticas da nova administração.

Agora serão Biden e o Partido Democrata que governarão o país. Para serem eleitos, eles surfaram nessas mobilizações. As exigências formuladas nesse movimento contra o racismo, por um sistema de saúde para todos, contra a precariedade e o desemprego vão continuar. Os muitos dirigentes e militantes sindicais que participaram dessas mobilizações, independentemente da posição da AFL-CIO nacional, se verão confrontados com a política da direção nacional da AFL-CIO em apoio a Biden. E essas reivindicações levantam a questão da independência em relação a todos aqueles – incluindo Biden – que desejam manter o sistema.
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Inquietação nas cúpulas

A decisão de Trump de recusar-se a reconhecer a vitória de Biden e de chamar seus partidários a resistir provoca uma inquietação na classe dominante estadunidense. O CEO do banco JP Morgan, uma das vozes mais influentes do mundo financeiro, declarou: “O momento é de unidade. Nós devemos respeitar os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos e como temos feito em todas as eleições, honrar a decisão dos eleitores e apoiar uma transição do poder.”

O ex-presidente republicano, George W. Bush, telefonou a Biden para felicitá-lo pela vitória. Em um comunicado, ele disse: “Apesar das nossas diferenças políticas, sei que Joe Biden é um homem bom que ganhou a oportunidade de dirigir e de unificar nosso país. O presidente eleito repetiu que tinha sido o candidato democrata, mas que governaria o país para todos os americanos”.

O presidente da AFL-CIO, Richard Trumka disse: “A democracia prevaleceu. A vitória de Joe Biden e Kamala Harris, em eleições livres e honestas, é uma vitória para o movimento operário americano (…). Agora a AFL-CIO está pronta para ajudar o presidente eleito e a vice-presidente para elaborar um primeiro plano de trabalho em prol dos trabalhadores.”
Publicado no jornal francês Informations Ouvrières (12/11) Tradução Adaias Muniz