Pantanal em chamas: “é o resultado da política do ‘passar a boiada'”

O Trabalho ouviu o companheiro Domingos Sávio sobre as queimadas no Pantanal. Domingos é dirigente do PT na região, professor da Universidade do Estado do Mato Grosso, em Cáceres, uma das áreas mais afetadas.

O Trabalho: Não é exatamente uma novidade ver queimadas no Pantanal nesta época. Mas há um exagero da mídia? Essa é como todos os anos?

Domingos: As queimadas desta época do ano no Pantanal são rotina. Mas são feitas com certo controle pelos latifundiários,  para reduzir a massa de capim seco e permitir o crescimento de capim  novo no começo do período de chuvas, que  começa na Primavera.  Isso ajuda na revitalização da pastagem natural para o gado.
Acontece que agora se somaram uma seca prolongada, que já vem dos dois últimos anos, com pouca chuva no verão, muito vento, e, com  certeza (até responsáveis do governo de Mato Grosso estão dizendo), incêndios criminosos. É o resultado  da política do “passar a boiada” com o desmantelamento do IBAMA,  do ICMBio e dos órgãos ambientais  estaduais, além do incentivo à visão de que a questão ambiental é coisa de “esquerdista”, de ONGs a serviço dos países capitalistas desenvolvidos ou de desocupados.
O resultado é uma situação que eu nunca vi aqui.

O Trabalho: pode descrever um pouco da situação aí?

Domingos: Ontem Cáceres (14)  estava coberta por uma densa nuvem de fumaça.
O sol desapareceu por  volta das 15 horas e à noite o vento trouxe mais  fumaça. Parecia que o fogo estava a poucos metros.
Durante o dia as temperaturas chegam aos 40 graus e a umidade do ar chega a oito por cento.

O Trabalho: É uma situação inédita?

Domingos:
É de fato uma situação inédita,  que combina o resultado de fatores climáticos com a política de desmonte dos serviços públicos que já vem desde o golpe e se aprofundou com Bolsonaro, como o fim da prevenção (campanhas educativas, fiscalização,  etc), acompanhamento das queimadas (desmonte e tentativa de desmoralização do INPE) e desmantelamento  de órgãos ambientais fiscalizadores e protetores, como o IBAMA e o ICMBio. Enfim, aqui também é visível (pelo resultado e consequências dos incêndios para a população e o ambiente) a necessidade  de mais e melhores serviços públicos.