Sobre a “carta encíclica” do Papa Francisco

“Fratelli Tutti – sobre a fraternidade e a amizade social” (4 de outubro de 2020)

Esta seria uma nova «encíclica social» segundo o seu autor, que cita extensamente o Papa João XXIII e o Papa João Paulo II, canonizados por ele, na qual faz uma compilação do que disse e escreveu, aqui ou acolá, desde que se tornou papa, sobre as “relações sociais”.

As “relações sociais” sobre as quais o papa pontificou, de Leão XIII em 1891 com a Rerum Novarum (sobre a condição dos trabalhadores), a João Paulo II em 1991 com a Centesimus Annus para a celebração conjunta do centenário da Rerum Novarum e a queda da URSS, foram as “relações sociais” entre trabalhadores e patrões, e entre o proletariado (termo usado pelo próprio Leão XIII) e o sistema capitalista.

O Papa Francisco não cita nenhuma vez as palavras “trabalhadores”, “patrões”, “proletariado”, “patronato”. Como o bilionário estadunidense Warren Buffet, que declarou que a luta de classes existe e sua classe a ganhou, para Francisco I a luta de classes não é mais um assunto da teologia política do Vaticano.

Quando fala de “relações sociais” no que chama também de “encíclica social”, é para pontificar sobre a “fraternidade e a amizade social” entre os “migrantes” de todo o planeta e os habitantes dos países nos quais eles emigram: estes últimos devem acolher o primeiro “fraternalmente” em nome do princípio da “destinação universal dos bens da terra” (§ 123), portanto dos bens dos países de imigração para os imigrantes.

Proteger os “bens” dos capitalistas
É preciso dizer que este princípio da teologia política vaticana é anterior à “doutrina social da Igreja” inaugurada por Leão XIII em 1891.

Esta “doutrina social da Igreja” é para o Vaticano apenas um subproduto da “destinação universal dos bens da terra”, à qual ela deve respeitar, mas agora para proteger “os bens” dos capitalistas contra “a destinação” que o proletariado gostaria de lhes dar.

A “destinação dos bens da terra” é como convém ao Vaticano e àqueles por quem ele pontifica. O sucessor de João Paulo II, o alemão Bento XVI, não se preocupou com a “doutrina social”. Ele fez teologia, que afinal é o papel de um papa, se é que um papa deveria ter um papel. Provavelmente por esse motivo ele foi destituído.

O jesuíta sul-americano Bergoglio, que se tornou o Papa Francisco, não se manifesta entusiasticamente sobre teologia. Ele o faz sobre ecologia, humanitarismo … e ecumenismo.

Nessa encíclica, ele se refere, desde a introdução e várias vezes até a conclusão, a um certo Ahmad Al-Tayyeb, chamado por ele de Grande Imã (com maiúsculas), a seu ver uma espécie de papa muçulmano que conheceu em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, em fevereiro de 2019.

Destes encontros com o Grande Imã nasceu “um novo sonho de fraternidade e amizade social”, uma nova “operação” provavelmente do Espírito Santo ou do anjo Gabriel. O resultado é um oitavo e último capítulo da encíclica intitulada “As religiões ao serviço da fraternidade no mundo”, em que está escrito: “As diferentes religiões, pela valorização de cada pessoa humana como criatura por serem filhos e filhas de Deus, oferecem uma contribuição preciosa para a construção da fraternidade e para a defesa da justiça na sociedade.” (parágrafo 271.) Isso seria a realização de “caminhos para se encontrar” (título do oitavo capítulo), pelo “diálogo e amizade social” (capítulo 6) “a melhor política” (capítulo 5) que “colocada a serviço do verdadeiro bem comum, (que) é necessária para permitir o desenvolvimento de uma comunidade mundial” (parágrafo 154) com “um coração aberto ao mundo” (capítulo 4).

Para isso é necessário “pensar e administrar um mundo aberto” (capítulo 3), no qual, “partindo do princípio fundamental da destinação comum dos bens, podemos então afirmar que cada país é também o do estrangeiro, dado que os recursos de um território não devem ser negados a uma pessoa necessitada proveniente de outro lugar” (parágrafo 124).  Tornando possível a “um estrangeiro no caminho” (capítulo 2) fugir das “sombras de um mundo fechado” (capítulo 1).

O migrante “é o novo condenado da terra” no lugar do proletário que não existe mais para o Papa Francisco (nem mesmo na forma de migrante), como para muitos outros, de esquerda e de direita, que afirmam nos governar. É vender a pele do urso antes de o matar. Tanto uns como outros estão mais ou menos cientes disso.

Divisão dos papéis
Mas a distribuição de funções entre os leigos e o clero evoluiu desde os papas das “encíclicas sociais” de Leão XIII a João Paulo II. Como João XXIII já havia anunciado em 1963, na encíclica Pacem in Terris, a teologia política passou a ser responsabilidade dos “homens mais influentes no plano político e os mais competentes no campo em questão”. Isto é, os diversos “think tanks”, de obediência católica ou ecumênica, alimentados pelo “princípio da subsidiariedade” e pelo “princípio da igualdade”, pelos “corpos intermediários”, pelo corporativismo e pela sociedade orgânica. As pessoas que nos governam são as suas crias.

Segundo Carl Schmitt, advogado e filósofo alemão, católico, apoiador do fascismo de Mussolini, considerado o jurista certificado do Terceiro Reich e que voltou à moda atualmente: “Todos os conceitos significativos da teoria do estado moderno são conceitos teológicos secularizados. E isso é verdade não apenas em seu desenvolvimento histórico, porque foram transferidos da teologia para a teoria do estado, mas também em sua estrutura sistemática, cujo conhecimento é necessário para uma análise sociológica desses conceitos.” (Carl Schmitt, “Teologia Política”, 1922.)

Aqui estamos nós. O Vaticano cumpriu a sua obra: elaborou o material ideológico destinado a subjugar o proletariado. Levou um século para isso. Ele agora pode cuidar de outra coisa.

Sob a capa de um humanitarismo em voga
A última encíclica vaticana, disfarçada de humanitarismo da moda e usada por uns e outros contra a soberania dos Estados-Nação, concentra agora sua ofensiva ecumenicamente, contra a laicidade dos Estados e da sociedade, em favor de uma “comunidade mundial”, afirma o Papa.

Esta “comunidade mundial” deve ser regida por “uma ordem jurídica, política e econômica mundial” (parágrafo 138), porque “hoje nenhum Estado nacional é capaz de garantir o bem comum de sua população” (parágrafo 153), isto é, a salvação da alma dos “filhos e filhas de Deus” (parágrafo 271) que ele reúne.

Depois de ter reprimido e tentado erradicar a luta de classes das “relações sociais”, o “bem comum” e a salvação da alma, nas novas “relações sociais” do novo Papa, devem permitir implementar a mundialização que os grandes deste mundo e seus apoiadores estão pedindo.

O Vaticano se manteve fiel à missão que São Paulo confiou à Igreja: “submissão aos poderes reinantes” (Carta aos Romanos XIII.5). Com os imãs, o papa une forças com especialistas em submissão; apenas os rabinos estão faltando, sem dúvida temporariamente.

Jean-Pierre Perché

Publicado no jornal francês Informations Ouvrières, tradução Adaias Muniz