38 anos depois, o que ocorre com a CUT?

Dirigentes das centrais em reunião com Onyx, dia 24 de agosto

O final de agosto foi marcado por duas datas históricas: os 40 anos da Conclat e os 38 anos de fundação da CUT. O aniversário da CUT em 28 de agosto quase passou em branco. Uma “live” da CUT Nacional registrou a data, mas seu conteúdo foi uma sucessão de “parabéns” de partidos, movimentos e das outras centrais. Em sua fala, seu presidente Sérgio Nobre centrou na eleição de Lula em 2022, depois de mencionar ataques do governo aos trabalhadores, e concluiu convocando os atos “Fora Bolsonaro” de 7 de setembro. Nada que lembrasse o que distingue a CUT, sua origem e princípios.

Dias antes, em 24 de agosto, Nobre e dirigentes da Força, UGT, CTB e Nova Central atenderam ao convite do ministro Onix Lorenzoni, do recriado Ministério do Trabalho, para uma reunião. Nela, o ministro defendeu a MP 1045 e disse querer abrir “um canal de diálogo”. Ora, que diálogo é possível com o governo Bolsonaro que promove as PEC-32 e a MP 1045 que liquidam direitos de trabalhadores dos setores público e privado?

Qual o papel do Fórum das Centrais?
No “Fórum Permanente das Centrais Sindicais” as cúpulas adotam propostas com base no consenso e agem como se fossem o “estado maior” do sindicalismo. Muitas vezes a direção da CUT foi pega de surpresa com decisões desse Fórum, como a sua “agenda legislativa” que, dentre seus pontos, propõe a criação de uma Comissão de todos os poderes (o que inclui Bolsonaro!), com a participação da “sociedade civil” (logo das centrais sindicais), para enfrentar a crise econômica e sanitária.

Tal Fórum já levou solidariedade a Dória (SP), vai aos presidentes da Câmara e Senado, reúne-se com bancadas de partidos, numa busca de “diálogo” com as instituições podres e em crise, sem abrir a via para a mobilização das bases sindicais para barrar os ataques do governo e da maioria do Congresso aos direitos, salários e empregos.

Resgatar as melhores tradições da CUT
Foi contra o sindicalismo de cúpula, voltado para o “diálogo institucional” e não para a luta de classe, que a CUT nasceu há 38 anos. Hoje ela está enredada num “fórum permanente” com os herdeiros dos pelegos que tudo fizeram para impedir a sua criação e, ao não conseguir, deram origem a outras centrais.

A unidade de ação é necessária para lutar por reivindicações comuns, sem dúvida. O que é inaceitável é a submissão da CUT ao consenso com dirigentes de outras centrais num “fórum permanente”. Ainda mais com uma agenda institucional questionável e nenhum apetite para a mobilização de suas próprias bases.

Em 31 de agosto o Fórum das Centrais reuniu-se e informou que em conversa com Pacheco, presidente do Senado, sobre a MP 1045, ele “se sensibilizou em relação a tirar os jabutis, mas não pretende deixar caducar” e “orientando” a fazer pressão nos senadores “pela impugnação ou deixar caducar”. Sobre a PEC 32, chama as organizações do setor público – que estão buscando mobilizar as suas bases para paralisações e greves – a “fazer o trabalho junto aos parlamentares”. Em seguida segue com sua “agenda legislativa”, como se o país não estivesse numa crise aguda, e meio a ameaças golpistas de Bolsonaro. Sem citar nomes, o Fórum também informa que “algumas centrais não convocarão as suas bases para o 7 de setembro”.

Está mais do que na hora da CUT se livrar da camisa de força do “Fórum das Centrais”, retomar a ação nas bases e nas ruas, preparar paralisações para barrar a MP 1045 e a PEC-32, reunir as condições para uma greve geral que encurrale o governo Bolsonaro e a maioria reacionária do Congresso, resgatando as suas origens e trajetória de luta.

Julio Turra

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