Completa-se 70 anos da Revolução Húngara dos Conselhos, movimento antiburocrático de trabalhadores e jovens que, na Hungria reivindicavam o direito de governar a propriedade expropriada da burguesia ao fim da II Guerra Mundial. A nacionalização da propriedade dos grandes meios de produção transcorreu entre 1946 e 1948, na continuidade do processo que derrotou a ocupação nazista, após a entrada do Exército Vermelho em Budapeste, em 17 de janeiro de 1945.
À expropriação da burguesia não correspondeu à implantação de um regime baseado nas organizações das massas, a quem a burocracia stalinista negou qualquer possibilidade de exercerem diretamente o poder. Os acontecimentos de 1956 sintetizaram esta situação e vinham na continuidade da luta da classe operária no Leste Europeu que já tinha se levantado em Berlim, em 1953 e na Polônia neste mesmo 1956.

O levante
A agitação revolucionária começa pelas iniciativas de uma associação de trabalhadores, intelectuais e estudantes de Budapeste chamada Círculo Petofi, que formulava a exigência da retirada das tropas soviéticas estacionadas no país e da passagem do poder a Imre Nagy e seus companheiros, que exercera a função de primeiro-ministro entre 1953 e 1955, mas que opunha certa resistência ao domínio soviético.
O movimento cresce e desemboca no outubro húngaro: em 23/10, uma manifestação em solidariedade aos trabalhadores poloneses é atacada a tiros pela polícia política, com mortos e presos. Os manifestantes se armam e um fato maior, que marca as revoluções, ocorre: os soldados do exército se negam a disparar contra o povo e, depois, abrem o arsenal para as massas. Em 25, arrastando operários fabris de Budapeste, um enorme ato se concentra na porta do parlamento, exigindo a remoção do secretário-geral do PC Húngaro e um encontro com Nagy que se encontrava refém do regime.
Os Conselhos
O fato capital, contudo, ocorre depois de 25 de outubro: uma greve geral insurrecional explode no interior do país e faz brotar Conselhos de delegados operários e camponeses. O primeiro surge na localidade de Miskolc, mas logo eles se espalhariam por todo o país. Pela primeira vez organismos de tipo soviético se formavam desde a Revolução de Outubro na Rússia.
Os Conselhos elaboraram diferentes programas, mas coincidiam nos pontos essenciais: um governo que integrasse seus representantes e os partidos operários e camponeses (proibidos até ali). Mantinham a exigência da passagem da liderança para Nagy, liberdade de organização e expressão política, artística e cultural, revisão do plano econômico com aumento geral de salários e obviamente a retirada das tropas soviéticas.
Mais tropas russas são enviadas à Hungria, mas os soldados que esperavam se deparar com uma contrarrevolução fascista (como dizia a burocracia de Moscou) encontram o povo armado e organizado em Conselhos populares livremente eleitos. Muitos se negam a combater. A burocracia recua. Nagy é libertado e constitui um governo que reconhece os Conselhos, dissolve a odiada polícia política, reforma o exército, incorporando os combatentes populares. Mas as tropas russas seguem estacionadas no país. Enquanto isso, os sindicatos avançam a reivindicação ao novo governo de controle operário da produção.

Um novo partido
Em 2 de novembro, Nagy dá o passo inaceitável para o stalinismo: constitui um novo partido, o Partido Socialista Operário e incorpora ao governo todos os partidos operários e camponeses. A burocracia soviética envia novas tropas à Hungria, na chamada “Operação Redemoinho”. Uma situação em que as massas avançavam no exercício direto do poder lhe era insuportável e soava como uma ameaça a ela mesma. O imperialismo, igualmente temeroso, assiste calado.
Repressão e resistência
Os tanques russos avançam contra as massas no mês de dezembro. Os bairros operários das grandes cidades serão os bastiões de resistência. Os operários militantes do PC Húngaro da fábrica CAEPEL dão a maior demonstração de luta. Nagy é removido e, num breve cessar fogo, os Conselhos elegem um Conselho Central Operário em Budapeste, único poder realmente reconhecido e que passa a coordenar a greve geral que, agora, exigia a volta de Nagy, eleições gerais, o reconhecimento dos partidos que defendem a propriedade coletiva e naturalmente a partida das tropas russas. O governo fantoche colocado pelos russos faz algumas concessões, mas não cede aos Conselhos. A repressão é brutal e o governo tenta decapitar o movimento com a prisão em massa de dirigentes dos conselhos. A greve e os combates continuam, mas são sufocados pela interdição do fornecimento de alimentos aos centros operários.
Finalmente uma nova greve de 48 horas é convocada pelo Conselho Central Operário em 21 de dezembro, ao cabo do que os conselhos chamam a volta ao trabalho que só se realiza muito lentamente, até a assinatura de um acordo que, apesar da resistência que prossegue, abre a via para a “normalização”.
Tragédia provocada pela burocracia stalinista
O saldo da intervenção da URSS constitui uma das maiores tragédias do movimento operário: 80 mil mortos nos combates de rua, outros mil mortos sob tortura e 20 mil presos. Nagy foi condenado à morte e enforcado em 1958.
A Revolução dos Conselhos foi um ponto culminante da luta dos trabalhadores do Leste Europeu pela revolução política, isto é, pela passagem do controle da propriedade do Estado para a classe operária por meio de seus órgãos de poder. Ela prosseguiu até a destruição da propriedade social, fruto da persistência dos regimes stalinistas que conduziu à restauração capitalista.
Eudes Baima

